Verticalização e retrocesso

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Verticalização e retrocesso

fonte: CBC

por Alfredo Guarischi – diretor de Comunicação e TI do CBC

O automóvel já era fabricado desde 1880. Tinha um custo extremamente elevado, mas a partir da produção do modelo Ford T, em 1908, passou a ser acessível à classe média, tornando-se um enorme sucesso de venda.

Fabricado nos EUA, foi posteriormente montado em diversos países, como Canadá, Inglaterra, França, Alemanha e Japão. Para conseguir isso Ford criou o conceito de “knockdown” ou “KD”, conhecido como “equipamento para derrubar”. Nessa metodologia as partes do carro são fabricadas em diferentes países ou regiões nos quais o custo de produção é menor. Posteriormente são exportadas para a montagem final em países com mão de obra barata. Dessa forma foram produzidos e vendidos milhões de carros, sem a Ford perder o controle da fabricação das “partes”, além de baratear o custo comparado à importação do produto finalizado.

Como o centro da atenção do sistema de saúde é o paciente, será que uma de “linha de montagem em medicina” entregaria um atendimento como planejado, eficiente e com menor custo?

Os custos em medicina são o somatório dos gastos administrativo e comercial e das despesas médico-hospitalares; e valor em medicina, no dialeto econômico, é o resultado da eficácia do tratamento dividido pelo seu custo. Se o resultado do tratamento for melhor, e o custo, igual, o paciente ganha, e o sistema nada perde.

A verticalização na saúde não produz um efeito homogêneo sobre os gastos, e a burocracia, que proporcionalmente consome mais do que o cuidado do paciente, distorce o foco da matemática financeira na busca de diminuir custos.

Os pacientes que contratam planos de saúde verticalizados são atendidos nos ambulatórios e hospitais do próprio plano, que restringem a autonomia na decisão sobre exames e tratamentos. Mesmo com a medida adotada pela ANS criando a Notificação de Investigação Preliminar, que permite multar as operadoras em caso de comprovada negação de procedimentos, a judicialização é constante.

No ranking dos melhores hospitais americanos a competição é pelo real significado do valor em medicina, que é avaliada principalmente pela segurança do paciente, pela baixa mortalidade hospitalar e pela qualificação profissional.

Sir Cyril Chantler, pediatra inglês, alertou que no passado a medicina era simples, ineficaz e relativamente segura, tornando-se complexa, mais efetiva, potencialmente perigosa. Flavio Kanter, cardiologista gaúcho, escreveu, que “a única certeza que temos é a de lidarmos com a incerteza; mesmo que tudo mude, isso não muda”.

A verticalização (“KD”), como vem sendo proposta, não será a melhor solução e aumenta a incerteza. Pode resultar no nocaute – Knock Out  (“KO”) de pacientes, profissionais de saúde e hospitais. Chandler e Kanter estão corretos, além do que a autonomia dos profissionais de saúde vem sendo desautorizada, o que, com certeza, é um retrocesso.

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