Notas Oficiais

porCIPERJ

Nota oficial sobre matéria da revista Superinteressante que aborda “erro médico”

Rio de Janeiro, 30 de junho de 2018

A reportagem de capa da revista Superinteressante esta semana (edição 391) fala sobre “erro médico”. Trata-se de um problema sério que interessa a toda a sociedade, mas nos parece injusto e desnecessário representar a comunidade médica na capa da revista como víboras perigosas, venenosas, prestes a dar o bote sobre alguma vítima inocente. Não é, nem de longe, a verdade, embora seja um estereótipo fácil de apelo popular. Como já disse alguém, para toda questão difícil existe uma resposta fácil – e errada.

A imprensa é fundamental à liberdade democrática. Mas ela tem que ser justa e responsável, em troca de sua enorme projeção, capaz de determinar consequências impactantes na sociedade, embasar e estimular debates e formar opiniões.

Erro em saúde precisa ser discutido com extrema seriedade, sem que haja polarização ou intenção de demonizar o atendimento como algo venal que é indiferente à sorte dos pacientes. O atendimento médico da população é primordial e é fundamental que a relação de confiança entre profissionais e população seja mantida, ainda que também seja igualmente necessário a fiscalização e correção de problemas, a reabilitação e, em casos extremos, o afastamento de profissionais que sejam julgados perigosos no exercício de suas profissões.

A CIPERJ, através deste documento, gostaria de discutir alguns pontos que nos parecem relevantes.

  1.      A expressão “erro médico” não diz respeito a erro “do médico”. O conceito atual define “erro médico” como erro em sistemas de saúde. Que, inclusive, pode acontecer mediante ações de pessoal não médico. Erros administrativos ou medidas administrativas que não são razoáveis e implicam em mecanismos ilógicos ou impraticáveis nos algoritmos de trabalho são capazes de causar erros profissionais.

A indisponibilidade de materiais indispensáveis (e improvisos em situações de emergência), a indisponibilidade de pessoal no número ou com o treinamento necessários e a criação de um ambiente de trabalho insuportável, que leva os profissionais à síndrome de burn-out são diretamente relacionadas à ocorrência de erros. Até hoje as discussões sobre erros em saúde quase nunca consideram esta vertente, que para nós é essencial. Em especial, as tendências atuais de administração baseada em protocolos rígidos e a retirada progressiva de autonomia decisória dos profissionais de saúde têm criado uma situação paradoxal: aqueles que são responsabilizados pelos problemas ou por suas consequências não são as pessoas com gerência sobre as causas. A sobrecarga de trabalho, causada pelos novos estilos de administração de pessoal e economia de gastos impacta diretamente na qualidade dos atendimentos, seja pela sobrecarga direta ou pela necessidade de compensar salários insuficientes com múltipls empregos.

  1.      A idéia de que erros em saúde são frequentes é bastante antiga: este é um problema universal, não um problema do Brasil, conforme reconhecido pelo articulista. Tanto que há uma nova disciplina em saúde, genericamente chamada de Segurança do Paciente (https://www20.anvisa.gov.br/segurancadopaciente/). As instituições de saúde e profissionais, portanto, não estão indiferentes a esta questão.

Uma outra questão quase nunca discutida,  aliás, é que, reconhecidamente, o profissional de saúde é a segunda vítima dos erros, especialmente os que levam a consequências trágicas. Erros são inescapáveis como eventualidade, embora possam e devam ser reduzidos a um mínimo. Os profissionais de saúde envolvidos não são, em geral, pessoas malignas, indiferentes ou absolutamente incompetentes, como alguns artigos e programas de TV pretendem insinuar.

Só que muitas vezes negligência acontece por defeito de percepção ligada a cansaço ou sobrecarga de trabalho. O articulista da revista, corretamente, cita isto, ao falar de ambulatórios com atendimentos múltiplos em minutos. O atual clima produtivista obriga a altas em prazos definidos e encaminhamentos rápidos: os pacientes têm que ser atendidos (despachados…) rapidamente, para dar lugar a novos casos e números bacanas para a gestão ou para os administradores de clínicas privadas. Nos preocupa extremamente os cálculos de trabalho em saúde baseados em teorias de engenharia de produção. Não é razoável esperar que o cirurgião que acabou um procedimento de alto risco e nível de concentração simplesmente “emende” num outro para produzir “x” cirurgias em “x” horas. A saturação emocional e intelectual que vem de concentrações e responsabilidades extremas simplesmente não permite este tipo de exigência, adequada a tarefas repetitivas num fordismo pouco humanitário.

Imperícia algumas vezes está ligada a tentativas desesperadas de profissionais não treinados em resolver problemas, geralmente emergenciais ou longamente negligenciados, porque não têm a retaguarda necessária de especialistas, indisponíveis ou não contratados (em geral por medida de economia de custos). A CIPERJ tem, por exemplo, discutido há um tempo extremamente longo a ausência de cirurgiões pediátricos contratados para atendimento emergencial nas maternidades municipais do Rio de Janeiro, sem nenhum sucesso até o momento. Médicos têm empatia pelos doentes sob risco iminente de vida ou sequelas graves ou aguardando infinitamente consultas e procedimentos, médicos querem ajudar, médicos querem resolver. Quando funciona bem está bem, fizemos o nosso trabalho e às vezes até ganhamos um agradecimento sincero dos pacientes (médico é bobo e adora isso). Quando algo funciona mal não é reconhecido o esforço, não são consideradas as condições de contorno.

Objetos “esquecidos” em cirurgia, exemplos típicos de negligência e imperícia usados repetitivamente pela imprensa leiga, especialmente aquela de má qualidade, têm ligação direta com cirurgias em ambientes precários com equipes desfalcadas e estafadas e indisponibilidade de instrumentadores cirúrgicos, o que é amplamente reconhecido na literatura a respeito, que é farta. Esta situação caracteriza tecnicamente negligência. Mas porque e como?

Profissionais de saúde são pessoas. Pessoas, mesmo as mais esforçadas, são suscetíveis a erros e limitações. Nos incomoda bastante que a imprensa frequentemente faça um desenho de algoz contra vítima em suas reportagens a respeito de erros em saúde. Esta não é a verdade: mesmo quando ocorre um erro, o mais das vezes o profissional relacionado está imediatamente mortificado por ele. É extremamente frequente ideação suicida e depressão clínica em cirurgiões envolvidos neste tipo de situação. Suicídios acontecem efetivamente. Vários abandonam a especialidade. Não somos máquinas, homens é que somos. E temos sido agredidos violentamente, de forma sistemática, nos fronts de atendimento do serviço público, eventualmente até de forma física. Compreendemos o stress constante de toda a vida, a luta do dia a dia, o medo das situações de doença, o desespero de não contar com um sistema de saúde público que seja satisfatório que os pacientes vivenciam. Mas bater no médico, atirar a cadeira no atendente de portaria, ameaçar o emergencista com armas de fogo não é a solução. E tudo isso, já suficientemente ruim, só piora com alguns setores de imprensa nos representando como danosos ou indiferentes, transformando a relação médico-paciente de uma relação de confiança numa de medo mútuo. Isso só piora representando médicos como serpentes.

A criação de uma contraposição entre “médicos que erram sistematicamente” e vítimas passivas e inocentes não é razoável e é extremamente perigosa.  A comunidade não vai confiar em quem precisa confiar, os médicos se sentem sob ataque e se fecham em copas. Na esteira deste conflito aberto, a transparência se esvai: se a questão é conduzida como culpa e castigo, erro e processo, erro e indenização, culpa e punição.

  1.      A questão da formação inadequada e desenfreada de novos médicos em escolas indevidamente equipadas, sem hospital universitário e por interesses exclusivamente financeiros, corretamente apontada pelo articulista, tem sido repetitivamente denunciada pelos conselhos médicos há anos, sem que os políticos, responsáveis pelas concessões, nos ouçam. Não temos controle sobre isso, e vai piorar, infelizmente, nos próximos anos. E, esquecido neste artigo, falamos inúmeras vezes, também, da admissão de médicos sem reconhecimento de competência através do programa Mais Médicos. O espírito da coisa não é resolver bem, é colocar gente no posto. O objetivo não é solucionar o problema do atendimento, é dizer que está sendo atendido. É substituir resultados por grandes números de registro, muito impressionantes neste país enorme, que não significam, necessariamente, soluções reais. Com a devida consideração a argumentos com traçado eminentemente político, de parte a parte, que tentam justificar o injustificável ou se motivam por questões de proteção de mercado não é, em nenhuma parte do mundo organizado, admissível que profissionais não ratificados atendam pacientes. Medicina é, e tem que ser, uma profissão seriamente regulamentada. Qualquer pessoa razoável teria medo de ser atendida por alguém que “possivelmente” tem uma formação médica correta.
  2.      Os estudiosos de erros em saúde têm declarado repetitivamente que a solução passa pela consciência e implantação de protocolos de segurança, mas, principalmente, pela relação médico-paciente bem estabelecida e pela transparência nas comunicações. Aqui temos, novamente, a teoria e a prática se confrontando. Novamente, o produtivismo nos prejudica. Não há mais tempo para conversar. Os pacientes têm que ter alta rapidamente. Os médicos são escolhidos através de listas de pessoas pelos usuários de planos de saúde. Os governantes geram atendimentos em saúde através de critérios geográficos de distribuição. A clássica comunicação entre colegas para encaminhar pacientes por critérios de excelência ou experiência profissional se tornou inefetiva no serviço público, porque sistemas reguladores não permitem esta autonomia. Como haver uma relação médico-paciente saudável e uma distribuição de pacientes conforme a capacitação e experiência de profissionais e serviços desta forma? Medicina jamais será possível com qualidade em linhas de produção. Fordismo, novamente, não nos serve. Por difícil e caro que isso possa parecer, atendimento de pacientes depende de uma relação entre indivíduos.
  3.      Existe muita confusão entre erros e complicações de procedimentos. Isso obviamente é fácil de entender. Pessoas sem formação médica e desprovidas de informação completa e isenta desconhecem certos detalhes técnicos das situações e podem avaliar problemas de forma precipitada. Isso vem sendo resolvido através dos consentimentos informados, mas não é possível tornar este entendimento exaustivo, por motivos óbvios: o consentimento informado não transforma alguém em médico instantaneamente, capaz de conhecer todos os detalhes e nuances de alguma situação. Um outro motivo, também plenamente compreensível, é a necessidade de justificar de forma pragmática algo inaceitável do ponto de vista existencial, como a morte de um ente querido, uma lesão permanente ou a quebra de uma expectativa de resultados, muito comum em cirurgias plásticas. Usando um exemplo da própria reportagem, a inserção de uma sonda gástrica pode causar perfuração de faringe ou esôfago e chegar à pleura. Raro, mas possível. Neste caso pode não ser um erro, mas uma complicação de um procedimento. Como ilustração, perfuração do estômago por cateteres é uma das causas mais frequentes de grandes pneumoperitônios em prematuros. Sequelas não são necessariamente resultado de erros. Podem ser efeitos colaterais de tratamentos, complicações.

Existem limites para a Medicina. Mesmo que as pessoas não acreditem mais nisso, quando vêem tantos progressos e bons resultados, existem mortes e sequelas, ainda. Fazemos mais e melhor, mas não podemos tudo (acho que jamais poderemos). Nenhum medicamento é isento de efeitos colaterais. Nenhuma cirurgia pode ser feita sem que o paciente tenha seus órgãos agredidos. A opinião pessoal do autor do texto da Superinteressante sugere uma condenação previa e genérica do médico, que em nada contribui para a melhoria dos serviços de saúde e insufla a população para a judicialização de qualquer problema em saúde.

Muitos dos inquéritos em conselhos profissionais não condenam não por corporativismo, como frequentemente se diz, mas simplesmente porque muitos danos sofridos pelos pacientes são complicações, não consequências de erro. Se forem consultados os arquivos dos conselhos profissionais, há justificativas formais para todos os arquivamentos ou resultados favoráveis. Não é verdade, como é dito no início da reportagem, que fraudes, corporativismo desonesto ou omissões propositais justifiquem a resolução da maioria destes conflitos.

Erros em saúde devem ser discutidos. Sem sensacionalismo, mesmo admitindo que é um tema muito sensível, que fala muito às emoções. Mesmo admitindo que erro em saúde, por implicar consequências imediatas sobre a vida, é extremamente impactante, até mais do que os erros de construções de pontes e ciclovias, que também matam gente, mas são discutidos de forma muito menos personalista. Erros de engenharia não têm rosto, erros em saúde têm o rosto de alguém, em geral um médico. Não podemos, não devemos, cair na vala comum de discutir erros em saúde como profissionais contra pacientes. Os profissionais de saúde não são os inimigos a ser combatidos.

Diretoria da CIPERJ

porCIPERJ

Nota oficial

A CIPERJ vêm a público protestar enfaticamente contra a acusação de nosso Ministro da Saúde, Sr. Ricardo Barros, com relação à colega oncologista pediátrica, Dra. Silvia Brandalise, presidente do centro Boldrini de oncologia pediátrica, em Campinas, um serviço de referência regional conhecido por sua excelência, assim como Dra. Silvia, que construiu uma longa carreira baseada em sua competência, dedicação e seriedade.

O Sr. Ricardo Barros afirmou publicamente que nossa colega tem interesses escusos no bloqueio da compra da asparaginase chinesa e que assusta desnecessariamente os pacientes, causando angústia indevida às famílias.

Esta luta é sempre a mesma: um médico arriscando publicamente sua integridade pessoal, sua segurança e sua paz para defender seu trabalho e seu paciente. Sabemos que isto é parte do nosso trabalho, da nossa formação e da nossa vocação: somos advogados de nossos pacientes, inclusive de forma reconhecida: advocacia dos pacientes é um dos pilares da formação médica para a Associação Médica Canadense, por exemplo. Sabemos que a justiça brasileira já concordou formalmente com os argumentos de nossa colega, determinando a suspensão do uso do medicamento chinês no Brasil, o que nos parece importante para demonstrar que não se trata de uma argumentação pessoal sem substância de nossa colega.

Esperamos que a justiça possa demonstrar, mais uma vez que, mais uma vez, nós e os pacientes estamos sendo vitimados por declarações inconsequentes e levianas sem base técnica, ditadas por um ministro que não tem os requisitos técnicos necessários para avaliar problemas clínicos ou farmacêuticos. Compatíveis com o Ministério da Saúde fazer parte dos detestáveis leilões políticos de poder em entidades públicas que deviam se dedicar ao bem-estar do povo brasileiro.

porCIPERJ

Nota oficial: carta aberta a Rede Globo

Caros diretores e atores:

Em nome da CIPERJ (Associação de Cirurgia Pediátrica do Estado do Rio de Janeiro) gostaríamos, antes de mais nada, parabenizá-los e, porque não, agradecer-lhes, pela série SOB PRESSÃO. É um alívio ver uma série televisiva feita com tanto cuidado e com atores de tanta qualidade mostrando de forma um pouco mais justa a realidade dos médicos trabalhando nos serviços de emergência do Rio de Janeiro.

Nós, médicos, estávamos precisando disso, de uma chance da comunidade refletir sobre as nossas dificuldades, de uma chance de fazer as pessoas nos verem como gente trabalhando sob uma responsabilidade enorme e em condições de trabalho extremamente difíceis.

Gostaríamos de argumentar a respeito de um diálogo entre dois dos personagens em um dos episódios. Nesta cena o cirurgião-chefe designa uma cirurgia de emergência numa criança baleada a um cirurgião mais novo. Este diz, inseguro, que nunca operou crianças antes. A resposta que ele recebe e que “é menor, mas igual”. Não entramos no mérito da situação no roteiro: em um momento de urgência absoluta qualquer paciente tem que ser atendido por aquele profissional que apresentar melhor treinamento para tal, e naquela situação estava absolutamente correto que a criança fosse operada por um cirurgião não-especialista. No entanto, e essencial para a CIPERJ mostrar que crianças não são “menores mais iguais”. Embora a anatomia seja, claro, a mesma, as respostas orgânicas a cirurgia não o são. A imaturidade fisiológica e a vigência de um processo de crescimento exigem conhecimentos específicos do profissional que opera pacientes pediátricos. Só como um exemplo, suturas em crianças exigem técnicas especiais, porque materiais sintéticos não crescem a medida que a criança cresce. Por causa disso, existem especialistas (cirurgiões pediátricos) que têm 3 anos de treinamento além do treinamento de um cirurgião geral para se tornarem aptos a tratarem doenças cirúrgicas em crianças.

Crianças não são adultos pequenos.

Sabemos que a dramaturgia tem suas próprias liberdades, mas para nós é muito importante reconhecer e reafirmar a especificidade do que fazemos.

Grande abraço

DIRETORIA CIPERJ

RESPOSTA DA REDE GLOBO

Ciperj,

Agradecemos sua mensagem e informamos que suas considerações serão encaminhadas à equipe da novela.

Ressaltamos que  novelas são obras de ficção, sem compromisso com a realidade. A Rede Globo não interfere no trabalho dos autores, nem orienta o conteúdo de suas obras. Como era de se esperar numa sociedade livre e numa empresa com nossa visibilidade, eles têm liberdade de criar e dar rumo aos seus personagens conforme sua vontade.

Cordialmente,

Globo.

porCIPERJ

NOTA OFICIAL: Comunicado da CIPERJ aos associados e à sociedade

Rio de Janeiro, 27 de abril de 2017.

Comunicado da CIPERJ aos associados e à sociedade

Os Hospitais Federais do Rio de Janeiro receberam uma ordem executiva de não incluir nenhum paciente em suas filas de cirurgia a partir de 3 de abril de 2017, sob pena de serem suspensos os repasses de verba às unidades. A justificativa para tal e a formulação de uma fila única, que será administrada por uma central de regulação, completamente independente das unidades hospitalares e seus funcionários. A ordem executiva recebida determina que os doentes encaminhados aos ambulatórios das diversas unidades devem ser examinados e diagnosticados e re-encaminhados à central de regulação com um laudo, SEM assimilação pela unidade encarregada do atendimento e diagnóstico.

A CIPERJ gostaria de se manifestar a respeito fazendo um diagnóstico específico: o inferno está cheio de boas intenções. Explicamos.

  1. Uma razão simples de logística: os pacientes, em sua maioria, têm um tempo de espera longo enquanto aguardam a referência e consulta em uma unidade terciária. Não há outro caminho permitido para o acesso aos hospitais, exceto situações de internação em regime de urgência. Chega a ser cruel que sejam, depois de um diagnóstico de doença cirúrgica, que costuma ser assustador para uma pessoa comum, ser reenviados para um novo destino, sem um vinculo definido, para aguardar novamente por um tempo (novamente indefinido) até o atendimento. Os pacientes não vão gostar. Mas eles não sabem disso ainda. Aliás, os pacientes não concordam com o sistema de regulação como funciona atualmente, que julgam pior do que a forma anterior de funcionamento das instituições ligadas ao SUS. Basta perguntar a eles. São adultos e cidadãos. Mas não foram consultados. Os gestores, supostamente, sabem o que e melhor para eles. O SUS que devia ser para as pessoas não é das pessoas. Muito menos dos médicos e trabalhadores da saúde que fazem efetivamente o trabalho de assistência. A opinião destes também não é solicitada.
  2. Mais logística: hospitais diferentes têm especificidades de atendimento diferentes. Cirurgiões com expertise diferenciada. Apoio clínico com características diferentes. Capacidade de atendimento de alta complexidade diferente.  Os pacientes também. Pernas quebradas e hérnias se localizam em pessoas vivas. Alguns são jovens saudáveis, outros são idosos com comorbidades agressivas. Alguns são pessoas em boas condições sociais. Outros vivem em nichos de miséria e violência, sem condição mínima de conviver com cuidados pós-operatórios em suas casas. Uma folha de papel com um diagnóstico não traduz uma situação clínica integralmente. Um título de especialista traduz um painel mínimo necessário de expertise num campo de atuação, mas não traduz subespecializaçoes ou treinamento em segmentos específicos, especialmente envolvendo doenças raras e cirurgias de alto risco e complexidade.
  3. Uma razão ética e imperativa: médicos não são prestadores de serviço, são médicos. Cirurgiões não são executores de procedimento, são médicos. O compromisso é muito maior do que executar uma manobra técnica. Para uma cirurgia é necessário mais do que um diagnóstico e ter a habilidade específica. É fundamental uma relação de confiança e responsabilidade entre médico e paciente. É necessário, dentro da ética moderna, um consentimento informado que contém um elemento de confiança mútua e intimidade. E diferente de ser um portador de um defeito a ser consertado por um técnico. E ser um paciente e um médico. Definitivamente receber pessoas a serem tratadas mediante um encaminhamento administrativo definido por uma fila de ordem de chegada não é praticar cirurgia como deve ser feito. Também não é respeitar o cidadão que esta doente em sua individualidade de pessoa.  Definitivamente isso não é conhecer o que um médico faz.  Sim, temos poucas chances de atendimento frente as necessidades da população, infelizmente. Sim, temos que administrar a escassez com critérios de justiça. Mas não são estes os critérios de justiça. Determinar quem chegou primeiro não basta. Determinar quem mora mais perto não basta.
  4. Uma razão moral: cirurgia assusta. Pessoas que têm os meios para tal buscam cirurgiões indicados e confiáveis de seu próprio ponto de vista, muitas vezes solicitam várias opiniões antes de se definir por um profissional. Pessoas que não tem dinheiro também deviam ter este direito. Atender pessoas não é consertar relógios. Pessoas que vão ser operadas ou ter seus filhos operados precisam conhecer e confiar nos cirurgiões com que vão se relacionar durante o tratamento. É um direito. E a concepção mínima de medicina humanizada. É o reconhecimento de que relação médico-paciente é fundamental.

Precisamos repensar as idéias. Precisamos ver as grandes questões que nos afligem sem minimalismo intelectual e sem mecanicismo de gestão. Gerir saúde, para o bem e para o mal, não é administrar prestação de serviços ou confecção de máquinas. Gerir saúde (e, mais adiante, gerar saúde) é muito mais. É mais difícil, tem mais variáveis, é mais complexo. Não pode ser reducionista.

DIRETORIA DA CIPERJ

porCIPERJ

Edital de convocação para Assembleia Geral Extraordinária

Rio de Janeiro, 11 de abril de 2017

O presidente da Associação de Cirurgia Pediátrica do Estado do Rio de Janeiro (CIPERJ), Dr. Kleber Moreira Anderson, no uso das atribuições que lhe são conferidas convoca os associados da entidade para Assembleia Geral Extraordinária (AGE) que será realizada na quarta-feira, dia 31 (trinta e um) de maio de 2017 no auditório da Casa de Saúde São José, situado na Rua Macedo Sobrinho, 21, no Humaitá, Rio de Janeiro, RJ, com primeira convocação às 19h. Caso não haja maioria absoluta dos associados no horário da primeira convocação, a sessão terá início às 19h30 com qualquer quórum.

Pauta da AGE:

  1. Atendimento de sobreaviso às maternidades municipais do Rio de Janeiro;
  2. Planejamento estratégico de saúde suplementar com apresentação de resultado de reunião com o CREMERJ a respeito de assuntos de convênios relacionados a Cirurgia Pediátrica.

KLEBER MOREIRA ANDERSON
presidente da CIPERJ

porCIPERJ

Nota oficial: Posicionamento em relação à declaração do ministro da Saúde

A CIPERJ repudia a declaração do Ministro da Saúde, Sr. Ricardo Barros, que no último dia 13 de março afirmou em discurso público na câmara municipal da cidade de Curitiba que os médicos brasileiros não apresentam disposição para o trabalho, e isto é a causa das deficiências no funcionamento do SUS. Este discurso, mais do que indevido, é ofensivo aos profissionais, que merecem respeito. Médicos ou não, ofender indiscriminadamente trabalhadores e cidadãos não é um direito de gestores públicos.

Considerando as atitudes recentes do Ministério da Saúde quanto à gestão de horários de trabalho nos hospitais públicos federais do Rio de Janeiro, a CIPERJ vem prestar algumas informações a respeito da atividade profissional dos Cirurgiões Pediátricos, a fim de esclarecer a opinião pública.

  1. O avanço técnico da medicina levou ao desenvolvimento de várias áreas de atuação e especialização no exercício da profissão. Estas várias áreas de atuação têm prerrogativas específicas que, evidentemente, exigem uma regulação adaptada a suas especificidades. Desta forma, é impraticável pensar que a regulação da atividade de um médico dermatologista pode ser feita exatamente da mesma forma que a de um patologista ou cirurgião de trauma. Há áreas de atuação que primam pelo atendimento ambulatorial, áreas que atuam em visitas domiciliares, áreas que exigem atuação intensiva em momentos específicos e até áreas que permitem serviço à distância ou em escritórios. Há áreas que primam pelo atendimento frequente de urgência e emergências e aquelas que raramente precisam atuar desta forma. A distribuição de horários de trabalho precisa respeitar as especificidades da atuação dos profissionais, inclusive para permitir que estes sejam mais produtivos e resolutivos. Médicos modernos não “dão plantão” ou “fazem ambulatório”: têm uma enorme multiplicidade de funções e logísticas de atuação.
  2. A previsibilidade de horários de atuação necessita de flexibilidade para muitas áreas de especialização. Desta forma cirurgiões podem não ser capazes de encerrar cirurgias, mesmo eletivas, dentro de uma margem de tempo exata.
  3. A atuação de cirurgiões prevê a dedicação exclusiva sob um nível altíssimo de stress e atenção absoluta, durante o tempo que for necessário (eventualmente 6 ou mais horas seguidas), sem comer ou beber, sem se afastar até para ir ao banheiro, muitas vezes se responsabilizando por decisões minuto a minuto que vão determinar a sobrevida, a presença ou não de sequelas e o grau de sofrimento do paciente até mesmo num futuro longínquo. No caso dos cirurgiões pediátricos, isso significa estar responsável pela vida de uma criança, que tem 80 anos pela frente. Que tem pais, avós, irmãos, que choram ansiosos e assustados ao entregar seu bebê ao cirurgião na porta do centro cirúrgico (creiam, isso nos emociona e gera ansiedade). No caso dos cirurgiões pediátricos operar significa muitas vezes várias horas de pé, eventualmente em posições desconfortáveis e usando lentes de aumento pesadas, que exigem ainda mais concentração e esforço. Não se pode exigir deste profissional que termine este procedimento e inicie imediatamente outro porque seu horário formal de trabalho ainda não terminou. O profissional precisa de recuperação física e mental a partir deste esforço, e o preço de não fazê-lo é cobrado sobre o próximo doente a ser atendido. Não sois máquinas, homens é que sois. Não nos parece que este tipo de trabalho possa ser estritamente regulado por ponto eletrônico.
  4. A atuação dos cirurgiões pediátricos é extremamente multifacetada. Atuamos em ambulatório, centro cirúrgico, atendimento obstétrico (quando em presença de gestações de fetos portadores de malformações), emergências e em quaisquer setores hospitalares atendendo crianças e adolescentes. Desta forma, é necessário o reconhecimento de que a distribuição de cirurgiões pediátricos nos hospitais não é setorial, se faz conforme a demanda de serviços, embora alguns focos de atuação (mormente ambulatórios) sejam mais previsíveis.
  5. Os cirurgiões pediátricos são profissionais incomuns. Somos cerca de 150 em todo o estado do Rio de Janeiro. Que tem uma população de crianças e adolescentes de mais de 1200000. Não trabalhamos pouco, senhor ministro. Trabalhamos demais. E no atual estado da arte, consideramos o treinamento praticamente inexistente de outros profissionais para procedimentos cirúrgicos em pacientes pediátricos, somos muito necessários. O que quer dizer, em última instância, que em muitas instâncias em que existe déficit operacional na área de cirurgia pediátrica, isto não se deve à nossa pouca disposição para o trabalho, mas sim a um enorme excesso de demanda. Na verdade, o “aprisionamento” em horários rígidos pode, potencialmente, DIMINUIR o espaço de atuação profissional, pela inflexibilidade e impossibilidade de mecanismos adaptativos e compensatórios, responsivos a circunstâncias e prioridades.
  6. A atuação em regime de sobreaviso alcançável é um regime de trabalho reconhecido legalmente e com regulamentação específica, extremamente útil como instrumento de gestão em áreas de atuação médica que primam pela ocorrência incomum de emergências, permitindo o aumento de eficiência e segurança, especialmente para gerir um quantitativo limitado de profissionais que atuam proporcionalmente pouco em emergências de demanda imediata. Também, evidentemente, a exigência de que o profissional em horário de atendimento em regime de sobreaviso esteja disponível para atendimento assim que este se fizer necessário configura trabalho, e deve ser considerado assim, em termos de carga horária cumprida e pagamento de salários. Gostaríamos de enfatizar aqui que consultoria por colegas através de contato telefônico ou por meios eletrônicos, inclusive com envio de dados de exames de pacientes para parecer é trabalho médico. Há inúmeros estudos normatizando e definindo os limites e virtudes deste tipo de atuação.
  7. A atuação do cirurgião depende ao extremo de condições e pessoas que independem de sua gestão. Não podemos operar sem insumos (material consumível e material técnico essencial, tais como instrumental cirúrgico e microscópios), condições ambientais (iluminação, macas especiais, focos luminosos) e profissionais essenciais (enfermeiros, anestesistas, patologistas, radiologistas e pessoal de limpeza, fundamentalmente). Mesmo estando presentes não há como exercer a função final a que nos propomos sem condições que o permitam. Daqui deriva um outro problema: a atividade de atendimento ambulatorial do cirurgião pediátrico não é resolutiva por si só com relação àquelas doenças que exigem tratamento cirúrgico. Não é produtivo aumentar a carga horária ambulatorial sem que se possibilite que as crianças diagnosticadas possam ser efetivamente operadas.
  8. A atuação de médicos necessita de autonomia e autoridade. Não é possível responsabilidade sem autoridade. Não é razoável que um profissional com treinamento específico seja manietado por mecanismos administrativos ao ponto de não poder exercer sua atividade com autonomia, ao ponto de não estar autorizado a definir que um paciente necessita de um procedimento com maior urgência do que outro. Com transparência e honestidade, é claro, mas estes são pressupostos do profissional honesto, a grande maioria de nós. O preço da liberdade e da autonomia é a responsabilidade. Pelas quais pagamos um preço alto, exercendo uma profissão altamente regulamentada e suscetível a processos judiciais frequentes. O preço da responsabilidade enorme que carregamos implica por si só em autonomia decisória e autoridade. Não há qualquer possibilidade de atuação médica sem estas condições. Isto não é arrogância ou indisciplina. É o sine qua non da profissão.
  9. Médicos precisam imperativamente estudar e ensinar. E não nos referimos apenas a estudar para crescer em termos de conhecimento profissional. Nos referimos à necessidade de estudar casos complexos e planejar condutas específicas. A revisão plena de todos os exames de imagem de um caso oncológico, por exemplo, pode demandar mais de uma hora de dedicação. Neste momento o cirurgião não estará no ambulatório ou centro cirúrgico. Não estará com um bisturi na mão nem atendendo um doente de forma direta, mas estará possibilitando que um doente seja (bem) atendido. Da mesma forma um cirurgião que está sentado revisando a anatomia de uma região corporal ou planejando um problema cirúrgico ou aprendendo uma nova técnica está… trabalhando. Também a necessidade de ensinar os mais jovens é essencial para a sociedade: se os cirurgiões mais velhos ou mais especializados ou mais treinados em algum campo específico de atuação não ensinarem os mais jovens sua expertise se perderá em seu tempo de vida ativa. O médico que ensina está prestando um serviço. O médico que está conversando a respeito de aspectos técnicos de uma cirurgia ou de normas éticas para um atendimento ou a respeito da postura profissional frente a outros profissionais com seu residente está… trabalhando.

Portanto, Sr. Ministro, é hora de reconhecer que as coisas são mais complexas e sofisticadas do que parecem. Está na hora de ver que há mais formas de trabalhar do que se reconhece de forma óbvia. Que nem sempre um cirurgião que não está operando ou atendendo no ambulatório está à toa. Está na hora de ver que respeito é bom e a gente gosta, em bom idioma carioca.

porCIPERJ

Nota oficial: III Jornada Carioca de Cirurgia Pediátrica

Prezados associados,

Desde que esta diretoria assumiu a gestão da Associação de Cirurgia Pediátrica do Estado do Rio de Janeiro (CIPERJ) em 2006 promovemos diversas atividades científicas sempre de forma gratuita. Isto tudo era possível graças ao empenho de nossos diretores na busca por patrocinadores e parcerias para que a CIPERJ tivesse uma anuidade baixa e eventos científicos de qualidade sem onerar nossos associados.

Com a crise econômica brasileira perdemos nossas parcerias culminando na cota extra de 2015, aprovada em Assembleia Geral Extraordinária (AGE), que cobriu o que faltava do orçamento daquele ano da CIPERJ e nos deu reserva para, junto com a anuidade de 2016, passar o ano passado sem problemas e realizando as atividades científicas da mesma forma, gratuitamente.

Em dezembro, na apresentação da previsão orçamentária para 2017, projetou-se que a arrecadação com anuidades não cobrirá o custo anual da CIPERJ. Com isso, a diretoria decidiu que, infelizmente, terá que seguir o caminho que diversas sociedades de especialidade realizam: cobrar inscrição em nossa jornada anual, que terá valor diferenciado para os associados quites da CIPERJ.

Sabemos também da significância desta ação e contamos com o apoio de nossos associados que sempre estiveram ao nosso lado em busca de manter a união de nossa especialidade no Rio de Janeiro. Mais uma vez contamos com esse apoio, pois unidos somos mais fortes.

A III Jornada Carioca de Cirurgia Pediátrica será realizada nos dia 17 e 18 de novembro (sexta-feira e sábado), no auditório da Casa de Saúde São José, no Humaitá. O evento contará com convidados nacionais e um internacional. Em breve estaremos divulgando o site da jornada, assim como a programação preliminar.

DIRETORIA DA CIPERJ

 

porCIPERJ

Nota oficial: gêmeas xifópagas

A CIPERJ gostaria de parabenizar toda a equipe do Complexo Hospital de Niterói (CHN) pelo sucesso no tratamento da família das gêmeas xifópagas Clarice e Helena, divulgado através do programa Encontro, da apresentadora Fátima Bernardes, da Rede Globo. Sabemos do enorme esforço, dos riscos assumidos pelos profissionais e família e dos requisitos técnicos necessários para tratar uma situação clínica tão complexa.

Gostaríamos especialmente de parabenizar um grupo – extenso – de profissionais que não foi lembrado na reportagem: a equipe de cirurgiões pediátricos composta pelos Drs. Alcides Augusto Salzedas Netto, Pedro Celso Maciel e Silva e Edmo Dutra Franco. Eles contaram também com o apoio do Dr. Denoel Marcelino de Oliveira, cirurgião cardíaco pediátrico, e dos médicos anestesistas Dr. Luciano Gomes Machado e Dr. Eduardo Borges Rocha Pyrrho.

Sabemos que este grupo de colegas se dedicou à família desde antes do nascimento das gêmeas e planejou o tratamento das crianças com enorme cuidado e carinho. Vimos a construção de uma parceria necessária e construtiva. Testemunhamos o uso da expertise obtida em muitos anos de treinamento e experiência para conseguir, junto com os outros profissionais de saúde o melhor resultado possível.

Parabéns aos cirurgiões pediátricos envolvidos e toda a felicidade do mundo a Helena e seus pais.

DIRETORIA DA CIPERJ