Arquivo mensal março 2020

porCIPERJ

Pesquisadores visitam famílias brasileiras para conhecer como é a alimentação das crianças

fonte: Ministério da Saúde

Desde o ano passado, equipes de entrevistadores estão batendo à porta de diversas famílias brasileiras para conhecer mais sobre a nutrição das crianças brasileiras. Esta ação faz parte de um estudo inédito que está em andamento desde março de 2019, chamado Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani). Já foram realizadas mais de 10 mil entrevistas domiciliares em 13 estados e no Distrito Federal. Neste ano, os pesquisadores percorrerão os 13 estados restantes (Pará, Ceará, Pernambuco, Alagoas, Paraíba, Sergipe, Rio Grande do Norte, Maranhão, Rio Grande do Sul, Goiás, São Paulo, Amapá e Piauí) para alcançar a meta de 15 mil domicílios.

A previsão era encerrar o estudo ainda no ano passado, contudo, o cronograma precisou ser alterado. Isso se deve a dificuldade de acesso a algumas regiões do país e, também, a disseminação de fake news, o que dificultou os pesquisadores serem recebidos nos domicílios selecionados. Por isso, o Ministério da Saúde está intensificando a divulgação da pesquisa, em parceria com os municípios, e reforçando a relevância deste estudo para a elaboração de políticas públicas para a promoção da saúde das crianças.

Os pesquisadores estarão devidamente identificados com camisas e crachás com o nome e a fotografia, além do logotipo do Ministério da Saúde. Assim que chegar no local, será explicado os procedimentos e entregue um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, com detalhes da pesquisa e orientações de como entrar em contato com a coordenação para tirar dúvidas, incluindo a opção gratuita de ligar para o número 0800 808 0990.

A coordenadora de Alimentação e Nutrição do Ministério da Saúde, Gisele Bortolini, reforça a importância de as famílias participarem do estudo e de colaborarem para que seja possível traçar um retrato atualizado da nutrição infantil no Brasil. “Já percorremos metade do país, mas ainda temos cerca de cinco mil entrevistas a serem realizadas. Estamos encontrando certa resistência para coletar os dados devido a mensagens falsas envolvendo o estudo”, explica. “A pesquisa é legítima, inédita e contribuirá para o melhor conhecimento dos hábitos alimentares das crianças brasileiras”, reforça Bortolini. A perspectiva é terminar a fase de coleta no primeiro semestre para, já no segundo semestre, divulgar os primeiros resultados.

O objetivo do Enani é avaliar as práticas de alimentação e aleitamento materno, além do estado nutricional e deficiências de micronutrientes em crianças brasileiras menores de cinco anos. Para isso, além de responder a questões sobre hábitos alimentares, peso e altura, também há coleta de sangue para participantes com mais de seis meses de vida.

Com esses exames será possível obter dados, pela primeira vez em todo território nacional, sobre o crescimento e desenvolvimento das crianças e fazer o mapeamento sanguíneo de 14 micronutrientes, como os minerais zinco e selênio e vitaminas do complexo B. Os questionamentos também abordam informações sobre amamentação, doação de leite humano, consumo de suplementos de vitaminas e minerais, habilidades culinárias, ambiente alimentar e condições sociais da família.

PARTICIPAÇÃO VOLUNTÁRIA E SEGURA

A participação na pesquisa é voluntária. Os pesquisadores que visitam os lares brasileiros estão identificados com camisas e crachás com o nome e a fotografia, além do logotipo do Ministério da Saúde. Para não ter dúvidas, o cidadão pode ligar para o telefone 0800 808 0990 gratuitamente ou acessar o site www.enani.nutricao.ufrj.br para confirmar a identidade do pesquisador.

Ao bater à porta, o entrevistador irá iniciar um questionário sobre saúde, verificar medidas de peso e altura das crianças e das mães biológicas e, ainda, coletar uma amostra de sangue das crianças com mais de seis meses de vida para verificar anemia e medir, além do ferro e ferritina, marcadores de inflamação, como proteína C reativa, as vitaminas do complexo B, minerais como zinco e selênios e micronutrientes importantes no organismo. Também será armazenada em um biorrepositório uma parcela do sangue para análises posteriores sobre marcadores genéticos e o perfil metabólico.

Este é um dos principais diferenciais do estudo, permitindo a obtenção de dados inéditos. As amostras são cuidadosamente coletadas, transportadas e analisadas. Os resultados dos exames são entregues para as famílias e, em caso de desnutrição, obesidade ou deficiência de micronutrientes, os participantes do estudo serão encaminhados para unidades de saúde próximas às suas casas.

As informações coletadas são sigilosas e, em hipótese alguma, os nomes das crianças ou dos seus responsáveis serão identificados. A realização da pesquisa segue metodologia científica e foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que é uma das instituições que coordenam o estudo.

O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (Enani) foi encomendado pelo Ministério da Saúde e é realizado com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Além da UFRJ, também participam da coordenação a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a Universidade Federal Fluminense (UFF) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

Ao todo, a iniciativa conta com a participação de 60 pesquisadores de 22 instituições acadêmicas públicas e privadas de todas as regiões do país.

porCIPERJ

Ajuste fiscal trouxe perdas de R$ 20 bi à saúde em 2019, diz economista

fonte: Folha de SP

No momento em que o país convive com chegada do novo coronavírus, explosão de casos de dengue, avanço do sarampo e tantas outras doenças que já fazem parte do dia a dia do brasileiro, vem a notícia de que a área da saúde perdeu R$ 20 bilhões em 2019.

Os dados constam de uma publicação do CNS (Conselho Nacional e Saúde) a partir da análise do economista Francisco Funcia, assessor técnico do conselho, e levam em conta o cenário desde que a emenda constitucional 95 foi aprovada, em dezembro de 2016.

A queda de recursos está relacionada à desvinculação do gasto mínimo de 15% da receita da União com a Saúde. Em 2017, quando a emenda passou a valer, os investimentos em serviços públicos de saúde representavam 15,77% da arrecadação da União. Já em 2019, os recursos para a área representaram 13,54%.

Segundo a metodologia de cálculo usada por Funcia, se em 2019 o governo tivesse aplicado o mesmo patamar que aplicou em 2017 (15% da receita corrente líquida de cada ano), a saúde teria um orçamento de cerca de R$ 142,8 bilhões, e não os R$ 122,6 bilhões aplicados. Ou seja, houve uma diminuição de R$ 20,19 bilhões.

É possível que haja contestação sobre a metodologia usada e o total de perdas, mas outras fontes também apontam para um desfinanciamento da saúde desde que a EC 95 entrou em vigor.

Dados do Relatório Resumido da Execução Orçamentária, da Secretaria do Tesouro Nacional, divulgados pelo O Globo, revelam que o novo regime fiscal estabelecido pela regra do teto de gastos trouxe perdas de R$ 9,05 bilhões para a saúde.

A regra do teto de gastos, que começou a vigorar em 2017, mudou a forma de correção do piso (valor mínimo a ser aplicado) em saúde. Até então, o valor mínimo de gastos na área estava vinculado à receita corrente líquida. Com a mudança, passou a ser corrigido pela inflação do ano anterior (acumulada em 12 meses até junho).

Pela norma anterior, deveriam ter sido aplicados na saúde 14,5% da receita corrente líquida de 2019 –o equivalente a R$ 131,32 bilhões, e não os R$ 122,269 bilhões que efetivamente foram. Ou seja, teria havido uma redução de cerca de R$ 9,05 bilhões.

As perdas causaram impactos em programas como o Farmácia Popular (de R$ 2,37 bilhões em 2019, contra R$ 2,54 bilhões no ano anterior). As despesas para fomento e pesquisa em ciência e tecnologia na área de saúde recuaram 27,4%, para R$ 139 milhões em 2019.

Os valores empenhados (autorizados) para vacinas e vacinação ficaram 12% menores, caindo de R$ 4,83 bilhões, em 2018, para R$ 4,25 bilhões no último ano. Nesse caso, somente 57% do limite autorizado para todo ano passado foi de fato gasto pelo Ministério da Saúde.

O economista e vice-presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (Abres), Carlos Ocké, endossa a análise de que o investimento público em saúde está diminuindo e alerta para a redução progressiva da chamada “renda per capita da saúde”.

O valor investido por pessoa, que chegou a R$ 595 em 2014, passou a ser de R$ 555, em 2020, segundo ele.

Isso ocorre no momento em que também há uma curva crescente dos custos de saúde associados ao envelhecimento populacional e uma necessidade de mais recursos.

A própria Secretaria do Tesouro Nacional projetou que o envelhecimento populacional exigirá investimentos adicionais de R$ 50,7 bilhões entre 2020 e 2027. De onde eles virão esses recursos ninguém sabe.

Em tempos de tantos ataques ao SUS e de um movimento em torno crescimento do mercado de planos privados de saúde, com produtos mais baratos e com menos coberturas, é bem oportuna a reportagem do meu colega Diogo Bercito sobre o perverso sistema de saúde americano, cujas contas impagáveis leva famílias à falência.

Durante epidemias, a diferença entre países com sistemas universais de saúde e os EUA fica ainda mais gritante, conforme reportagem do The New York Times, que mostra uma família com suspeita de coronavírus que recebeu uma conta de quase US$ 4.000 após procurar um serviço de saúde.

Sem o SUS, ou com um sistema de saúde cada vez mais pobre e enfraquecido, é a barbárie, como já disse Drauzio Varella.

porCIPERJ

Medicina fica mais feminina, mas ainda é desigual

fonte: Folha de SP

Ao mesmo tempo em que a medicina se torna cada vez mais feminina, a desigualdade salarial das médicas é maior do que a encontrada na média de todas as ocupações de mulheres no país.

Elas, que representam 45,6% dos 452.801 dos profissionais médicos do país, também continuam pouco presentes em cargos de liderança nos conselhos e entidades da categoria.

Em 2018, o rendimento médio das médicas em atividade no Brasil, com idades entre 25 e 49 anos, equivalia a 71,8% do recebido pelos médicos, segundo a PNAD (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) do IBGE: R$ 12.618 contra R$ 17.572. Nessa faixa etária, as médicas já são maioria: 53,2% dos profissionais ativos.

A diferença é maior do que a média geral de rendimento de todas mulheres ocupadas nessa faixa etária (R$ 2.050), que equivale a 79,5% do recebido pelos homens (R$ 2.579).

Os dados do IBGE, compilados a pedido da Folha pelo professor da USP Mario Scheffer, coordenador da Demografia Médica, corroboram estudo sobre o tema publicado na revista científica British Medical Journal em 2019.

O trabalho mostrou que a desigualdade de renda a favor dos médicos permaneceu mesmo após ajustes de variáveis, como especialidade, carga horária, anos de formado e local de trabalho.

“A feminização na medicina é só um fenômeno quantitativo, não quer dizer maior igualdade de gênero. A presença feminina está aumentando, mas isso não se reflete em igualdade de salários ou de maior presença no corpo docente das faculdades, nas entidades representativas e nos cargos de lideranças administrativas dos grandes hospitais”, diz Scheffer.

Tanto no CFM (Conselho Federal de Medicina) quanto na AMB (Associação Médica Brasileira), a presidência e todas as vice-presidências são ocupadas por homens.

As mulheres figuram a partir da secretaria-geral. No CFM, dos 11 cargos da diretoria, três são ocupados por mulheres. Atualmente, elas representam um quarto dos conselheiros médicos no país.

Para Dilza Teresinha Ambrós, secretária-geral do CFM, uma maior participação de médicas nas diretorias dos conselhos é só uma questão de tempo. “Ainda é pouco, mas temos avançado bastante.”

A composição da nova diretoria da centenária ANM (Academia Nacional de Medicina) é ainda mais discrepante. Todos os 15 integrantes, empossados na última terça (3) para o biênio 2020-2021, são homens.

“É inegável a necessidade de termos mais mulheres ocupando posições de destaque. Mas elas também precisam buscar essas oportunidades, se candidatarem”, afirma o oftalmologista paulista Rubens Berfort Filho, primeiro médico fora do Rio de Janeiro a assumir a presidência da ANM.

A cirurgiã Angelita Habr-Gama e a psiquiatra Carmita Abdo são algumas das médicas pioneiras em entidades representativas de suas áreas.

Gama presidiu as sociedades brasileira e latino-americana de coloproctologia e o Colégio Brasileiro de Cirurgia Digestiva. Abdo foi a primeira mulher a ocupar a presidência da ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), entre 2017 e 2019, e é secretária-geral da Associação Médica Brasileira.

“Eu nunca pleiteei a vida associativa, ela foi uma consequência da minha carreira acadêmica. Eu pertenço a alguns colegiados há muito tempo, mas uma coisa maior, como a presidência da ABP, só aconteceu na sexta década da minha vida”, diz Abdo, 70.

Segundo ela, é preciso vocação para ocupar cargos de liderança que exigem dedicação extra e, muitas vezes, colocam a pessoa numa posição solitária. “Você tem que tomar decisões, resolver impasses e diferenças. Entendo que muitas pessoas, homens e mulheres, não queiram isso.”

Uma das experiências que mais a agradou durante a gestão ABP foi a oportunidade de conhecer de perto a realidade da psiquiatria no país e receber muitas manifestações de carinho e respeito. “As meninas diziam: ‘você é minha inspiração’. Fiquei emocionada.”

A psiquiatra afirma que nunca se sentiu discriminada ou desvalorizada dentro da medicina por ser mulher. “Nunca esperei menos. A gente pode e deve perseguir o que deseja. Mas precisa ter a
autoestima no lugar.”

PIONEIRA EM CIRURGIA NA USP, ANGELITA GAMA DRIBLOU ‘NÃOS’

Primeira mulher titular em cirurgia da USP, a primeira a ser aceita pela sociedade americana de cirurgia e a primeira premiada pela sociedade europeia de cirurgia.

Desde 1952, quando entrou na Faculdade de Medicina da USP, aos 19 anos, Angelita Gama coleciona pioneirismos.

Neste domingo (8), a médica lança a biografia “O não não é resposta” (DBA Editora), escrita por Ignácio de Loyola Brandão. Na obra, ela relata as barreiras enfrentadas e as realizações na área cirúrgica, ainda hoje uma das com menor número de mulheres.

“O primeiro não que eu ouvi foi dos meus pais quando optei pela medicina e eles queriam que eu fosse professora como minhas irmãs. Depois, quando decidi pela cirurgia, o chefe da residência disse que era melhor eu ir para a área clínica, que a cirurgia era para homens. Fui em frente, prestei concurso e passei.”

Quando decidiu pela especialidade de coloproctologia voltou a enfrentar resistência. Após conseguir uma bolsa para estagiar em um hospital de Londres especializado em cirurgias colorretais, foi barrada inicialmente sob o argumento de que a instituição só aceitava homens. “Fui a primeira mulher a estagiar lá.”

Ao entrar para o mercado de trabalho, as coisas se tornaram mais simples, segundo ela. “Sempre trabalhei em pé de igualdade, no mesmo nível de trabalho dos homens, ou até mais”, afirma.

Casada há 56 anos com o também cirurgião Joaquim Gama, a médica diz que continua bem humorada e satisfeita com a vida, operando no mesmo ritmo de antes.

“Levanto às 6h da manhã e só volto pra casa à noite. Felizmente, tenho uma saúde muito boa, uma resistência física excelente. Aguento firme o meu trabalho em pé de igualdade com meus colegas até mais jovens.”

Para ela, que não tem filhos, as mulheres são tão boas quanto os homens no exercício profissional, mas, quando se tornam mães, tendem a dedicar um tempo menor à carreira e também enfrentam mais dificuldades para assumir cargos associativos.

“Em geral, as funções da maternidade acabam se tornando prioritárias para as mulheres. Eu nunca tive vocação maternal, mas sempre tive muita vocação para operar. Descobri muito cedo o meu dom.”

porCIPERJ

Síndrome metabólica em adolescentes é tema de pesquisa da Capes

fonte: Agência Brasil

Uma pesquisa da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) mostrou que adolescentes entre 12 a 17 anos de idade passam 3 horas por dia, em média, em frente a telas de computador, tablet, televisão, videogames e celular. A partir daí, os pesquisadores bolsistas da Capes estudaram uma relação este tempo sedentário e o desenvolvimento de síndrome metabólica.

“O nosso foco, no caso, para esse estudo, é síndrome metabólica, que é uma constelação de fatores de risco que envolvem obesidade abdominal, questões relacionadas a diabetes, colesterol, pressão arterial elevada”, disse à Agência Brasil o pesquisador Felipe Cureau, autor do estudo junto com a fisioterapeuta Camila Schaan. Ambos têm doutorado em endocrinologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A primeira parte desse trabalho foi concluída e publicado recentemente no periódico holandês International Journal of Behavioral Nutrition and Physical Activity.

O trabalho faz parte do Estudo de Riscos Cardiovasculares em Adolescentes (Erica) e utilizou dados de 36 mil adolescentes de todo o país, na faixa etária de 12 a 17 anos, durante 2013 e 2014. Apurou-se então que o tempo médio em frente a telas foi de 3 horas diárias. Felipe Cureau destacou, contudo, que foi percebida variação entre os entrevistados, desde jovens que preferiam não ficar diante de telas até adolescentes que passavam mais de 7 horas diante do computador ou celular.

Alimentação

A análise entre o tempo sedentário e o desenvolvimento de síndrome metabólica mostra que o comportamento alimentar que esses adolescentes tinham enquanto estavam ficavam no computador é muito importante, indicou Cureau. “Quanto maior o tempo em frente à tela, maior o risco para síndrome metabólica”. Ao todo, 2,6% dos jovens consultados apresentaram síndrome metabólica.

O pesquisador ressaltou que quando se avalia o que os jovens comem durante o tempo frente a telas, o que se constata é que, mesmo aqueles que ficam mais tempo, se não comerem nenhum tipo de petisco ou guloseima, eles acabam eliminando esse risco associado ao tempo de tela. Segundo Felipe Coureau, à medida que a pessoa fica mais tempo diante da tela, ela está mais exposta a propagandas e ao merchandising de alimentos ultraprocessados, como hambúrguer e petiscos em geral, e acaba ficando mais suscetível, em algum momento, a começar a consumir esse tipo de alimento.

“As duas coisas, para nós, parecem que estão bastante interligadas. É muito difícil que elas (pessoas) fiquem tanto tempo frente à tela e não comam nada”, indicou o pesquisador. “Comportamentos não saudáveis, e não simplesmente o fato de estar sentado, se associam com fatores de risco para doença cardiovascular em adolescentes”, reforçou Camila Schaan.

De acordo com Felipe Coureau, ao mesmo tempo que se deve evitar esse tipo de alimentação em frente à tela, é preciso limitar o tempo de tela para que essa exposição não propicie alimentação. Há alguns anos, Felipe Coureau estuda a questão da saúde dos adolescentes, especialmente comportamentos desses jovens e como eles se relacionam com problemas de saúde. Disse que até pouco tempo, os problemas eram observados apenas na população adulta mas, hoje, são muito frequentes entre os adolescentes. Entre eles, destacou obesidade, diabetes, hipertensão.

Tempo sedentário

Dentro do contexto de atividade física, passou-se a estudar o chamado tempo sedentário, em que as pessoas ficam vendo televisão, lendo, às vezes estudando. “E dentro da questão do tempo sedentário, surgiu a pesquisa”, disse Coureau. Como o sedentarismo pode resultar em uma morbidade ou distúrbio, os pesquisadores bolsistas da Capes dedicaram-se ao estudo sobre os adolescentes diante de telas com o objetivo de prevenir. “A ideia de estudar os adolescentes é para que a gente possa identificar de forma precoce e tentar prevenir uma doença, ou algum outro problema, antes que se espalhe em definitivo”.

Os resultados do estudo servem também como alerta aos pais. “A participação dos pais é fundamental, principalmente no que respeita à alimentação porque, normalmente, são eles os responsáveis pela alimentação dos filhos”.

Desdobramento

O estudo desenvolvido por Felipe Cureau e Camila Schaan já está tendo desdobramento. Eles começaram no ano passado a coletar dados de alguns dos adolescentes, como um estudo de corte, para ver se as questões abordadas na primeira coleta tiveram repercussão na vida dos jovens cinco anos depois, na fase em que eles estão na transição da adolescência para a idade adulta. Essa segunda etapa do trabalho está sendo realizada em quatro capitais (Porto Alegre, Rio de Janeiro, Brasília e Fortaleza) por pesquisadores das universidades federais do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Ceará, da Universidade de Brasília (UNB) e do Hospital das Clínicas de Porto Alegre, além de outras instituições.

A previsão é concluir essa segunda fase do estudo ainda este ano, prevendo-se a divulgação dos resultados ao longo de 2021. Quando essa pesquisa for encerrada, Felipe Coureau e Camila Schaan pretendem verificar se o que viram no momento anterior permanece, se isso gera uma gravidade maior ou se não tem grande influência ao longo da vida dos adolescentes entrevistados. “O acompanhamento te dá um melhor olhar”, disse Camila.

Os dois bolsistas da Capes querem, com o estudo, estimular os adolescentes brasileiros a terem uma vida mais saudável, com a realização de atividades físicas, e a fazerem melhores escolhas alimentares, evitando alimentos ultraprocessados e industrializados, a buscarem alimentação mais saudável no contexto familiar. “Isso é o que a gente sempre tenta passar como mensagem principal”.

A primeira etapa do estudo teve financiamento da Capes, do Ministério da Saúde e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), além de financiamentos locais e das universidades que estão sediando o estudo agora.

Políticas públicas

Camila Schaan afirmou que a meta é terminar o estudo e divulgar os resultados para a população. Ao mesmo tempo, ela espera que as conclusões possam ajudar o Ministério da Saúde na formulação de políticas públicas eficientes para esse segmento da sociedade, que sejam implementadas nas várias regiões brasileiras.

porCIPERJ

Após fim de parceria, Mais Médicos só tem dez profissionais cubanos

fonte: O Globo

Mais de um ano depois de Cuba anunciar o fim da parceria com o governo brasileiro para fornecer profissionais para o programa Mais Médicos, restam apenas dez cubanos hoje em atuação no Brasil. No auge, eles somavam milhares e eram o principal grupo, superando até mesmo os brasileiros. Atualmente, os estrangeiros mais numerosos no Mais Médicos são os venezuelanos. Eles são 91, de um total de 269 nascidos fora do Brasil, distribuídos por 25 nacionalidades diferentes.

Os números são do Ministério da Saúde e foram obtidos pelo site Fiquem Sabendo, por meio da Lei de Acesso à Informação. Em resposta ao GLOBO, a pasta explicou que os dez médicos cubanos chegaram ao Brasil através da parceria com o governo de Cuba. Depois do fim do acordo, eles retornaram ao programa graças a decisões judiciais. Os demais estrangeiros, inclusive os venezuelanos, fizeram o processo de inscrição individual.

No fim de 2018, a cooperação entre os dois países foi encerrada por decisão de Cuba. Na época, o Ministério da Saúde cubano alegou que o então presidente eleito Jair Bolsonaro, “com referências diretas, depreciativas e ameaçadoras à presença de nossos médicos, declarou e reiterou que modificará os termos e condições do Programa Mais Médicos, com desrespeito à Organização Pan-Americana da Saúde e o que foi acordado com Cuba”.

Cuba agora é apenas o quinto país de procedência dos médicos estrangeiros, ao lado do México, que também tem dez profissionais. À frente, além dos 91 venezuelanos, também há 59 argentinos, 24 uruguaios e 16 bolivianos. Do restante, boa parte é da América Latina e Caribe. Haiti, Honduras, República Dominicana, Paraguai, Peru, Colômbia, El Salvador, Panamá, Belize, Equador e Nicarágua reúnem 41 médicos.

Fora do continente, o maior contingente é da Alemanha: cinco profissionais. Outros quatro países da Europa — Espanha, Itália, Portugal e República Tcheca — forneceram juntos mais dez. Da África, há um de Benin e outro da Nigéria. Por fim, há um da Síria, no Oriente Médio.

A planilha fornecida pelo Ministério da Saúde por meio da Lei de Acesso à Informação mostra, entre brasileiros e estrangeiros, 58.042 médicos. Ao GLOBO, a pasta explicou que esse é todo o histórico de profissionais que foram homologados no programa. O número de médicos trabalhando atualmente é bem menor: 13.845. Em seu pico, o programa teve um pouco mais de 18 mil médicos.

porCIPERJ

ARTIGO: Os médicos não estão com burnout. Eles estão sofrendo de lesão moral

fonte: Stat News

por Simon G. Talbot, M.D., cirurgião plástico reconstrutivo no Brigham and Women’s Hospital e professor associado de cirurgia na Harvard Medical School; e Wendy Dean, M.D., é psiquiatra, vice-presidente de desenvolvimento de negócios e oficial médica sênior da Fundação Henry M. Jackson para o Avanço da Medicina Militar.

Os médicos nas linhas de frente dos cuidados de saúde hoje são às vezes descritos como indo para a batalha. É uma metáfora adequada. Os médicos, como soldados de combate, geralmente enfrentam uma ameaça profunda e não reconhecida ao seu bem-estar: a lesão moral.

A lesão moral é frequentemente descaracterizada. Nos veteranos de combate, é diagnosticado como estresse pós-traumático; entre os médicos, é retratado como burnout. Mas, sem entender a diferença crítica entre desgaste e dano moral, as feridas nunca cicatrizam e os médicos e pacientes continuam a sofrer as consequências.

O burnout é uma constelação de sintomas que incluem exaustão, cinismo e diminuição da produtividade. Mais da metade dos médicos relatam pelo menos um deles. Mas o conceito de burnout ressoa mal com os médicos: sugere uma falha de desenvoltura e resiliência, características que a maioria dos médicos aprimorou finamente durante décadas de treinamento intenso e trabalho exigente. Mesmo na Clínica Mayo, que acompanha, investiga e aborda o burnout há mais de uma década, um terço dos médicos relata seus sintomas.

Acreditamos que o desgaste é um sintoma de algo maior: nosso sistema de saúde quebrado. A rede cada vez mais complexa de alianças altamente conflituosas dos prestadores – para pacientes, para si próprio e para os empregadores – e sua lesão moral resultante pode estar levando o ecossistema de saúde a um ponto de inflexão e causando o colapso da resiliência.

O termo “dano moral” foi usado pela primeira vez para descrever as respostas dos soldados a suas ações na guerra. Representa “perpetuar, falhar em impedir, testemunhar ou aprender sobre atos que transgridem crenças e expectativas morais profundamente arraigadas”. A jornalista Diane Silver a descreve como “uma profunda ferida na alma que perfura a identidade de uma pessoa, o senso de moralidade e o relacionamento com a sociedade”.

A lesão moral dos cuidados de saúde não é a ofensa de matar outro ser humano no contexto de guerra. Está sendo incapaz de fornecer assistência e cura de alta qualidade no contexto dos cuidados de saúde.

A maioria dos médicos ingressa na medicina seguindo um chamado e não uma carreira. Eles entram em campo com o desejo de ajudar as pessoas. Muitos o abordam com zelo quase religioso, perdendo o sono perdido, perdendo anos na idade adulta, enormes custos de oportunidade, tensão familiar, instabilidade financeira, desrespeito à saúde pessoal e muitos outros desafios. Cada obstáculo oferece uma lição de resistência a serviço do objetivo que, a partir do terceiro ano da faculdade de medicina, concentra-se fortemente em garantir o melhor atendimento aos pacientes. Deixar de atender consistentemente às necessidades dos pacientes tem um profundo impacto no bem-estar do médico – esse é o ponto crucial da conseqüente lesão moral.

Os médicos são pessoas inteligentes, resistentes, duráveis ​​e engenhosas. Se houvesse uma maneira de MacGyver sair dessa situação trabalhando mais, de maneira mais inteligente ou diferente, eles já teriam feito isso.

Em um ambiente de assistência médica cada vez mais orientado para os negócios e com fins lucrativos, os médicos devem considerar uma infinidade de fatores além dos interesses dos pacientes ao decidir sobre o tratamento. Considerações financeiras – de hospitais, sistemas de saúde, seguradoras, pacientes e, às vezes, do próprio médico – levam a conflitos de interesse. Os registros eletrônicos de saúde, que distraem os encontros com os pacientes e fragmentam os cuidados, mas que são extraordinariamente eficazes no rastreamento da produtividade e de outras métricas de negócios, sobrecarregam os médicos ocupados com tarefas não relacionadas a proporcionar excelentes interações face a face. O espectro constante de litígios leva os médicos a super-testar, ler e reagir aos resultados – às vezes prejudicando ativamente os pacientes para evitar ações judiciais.

Os índices de satisfação do paciente e os sites de avaliação e avaliação do fornecedor podem fornecer aos pacientes mais informações sobre a escolha de um médico, um hospital ou um sistema de saúde. Mas eles também podem silenciar os médicos de fornecerem conselhos necessários, mas indesejáveis, e podem levar a um tratamento excessivo para manter alguns pacientes satisfeitos. As práticas comerciais podem levar os provedores a encaminhar pacientes em seus próprios sistemas, mesmo sabendo que isso atrasará o atendimento ou que seu equipamento ou equipe está abaixo do ideal.

Navegar um caminho ético entre esses motoristas intensamente concorrentes é emocional e moralmente desgastante. Ser pego continuamente entre o juramento de Hipócrates, uma década de treinamento e a realidade de obter lucro das pessoas mais doentes e vulneráveis ​​é uma demanda insustentável e irracional. Sentir rotineiramente o sofrimento, a angústia e a perda de incapacidade de prestar os cuidados de que os pacientes precisam é profundamente doloroso. Essas traições rotineiras e incessantes de assistência e confiança ao paciente são exemplos de “morte por mil cortes”. Qualquer um deles, entregue sozinho, pode curar. Mas repetidos diariamente, eles se fundem no dano moral dos cuidados de saúde.

Os médicos são pessoas inteligentes, resistentes, duráveis ​​e engenhosas. Se houvesse uma maneira de MacGyver sair dessa situação trabalhando mais, de maneira mais inteligente ou diferente, eles já teriam feito isso. Muitos médicos consideram deixar completamente os cuidados de saúde, mas a maioria não o faz por uma variedade de razões: pouco treinamento cruzado para carreiras alternativas, dívidas e um compromisso com seu chamado. E assim eles permanecem feridos, desengajados e cada vez mais sem esperança.

Para garantir que médicos compassivos, engajados e altamente qualificados estejam liderando o atendimento ao paciente, os executivos do sistema de saúde devem reconhecer e, em seguida, reconhecer que não se trata de esgotamento médico. Os médicos são os canários da mina de carvão dos serviços de saúde e estão se matando a taxas alarmantes (o dobro dos militares da ativa) sinalizando que algo está desesperadamente errado com o sistema.

A solução simples de estabelecer programas de bem-estar para médicos ou contratar agentes corporativos de bem-estar não resolverá o problema. Nem empurrará a solução para os provedores, alternando-os para o atendimento em equipe; criação de agendas flexíveis e conjuntos flutuantes para emergências de fornecedores; fazer com que os médicos pratiquem técnicas de atenção plena, meditação e relaxamento ou participem de terapia de comportamento cognitivo e treinamento de resiliência. Não precisamos de uma equipe do Code Lavender que distribua “informações sobre suporte preventivo e contínuo e distribua coisas como inaladores de aromaterapia, lanches saudáveis ​​e água” em resposta a crises de estresse emocional. Essas equipes fornecem o mesmo apoio que os socorristas fornecem em zonas de desastre, mas as “zonas de desastre” onde trabalham são as operações diárias em muitos dos principais centros médicos do país. Nenhuma dessas medidas é voltada para alterar os padrões institucionais que causam danos morais.

O que precisamos é de uma liderança disposta a reconhecer os custos humanos e os danos morais de várias alianças concorrentes. Precisamos de uma liderança que tenha a coragem de enfrentar e minimizar essas demandas concorrentes. Os médicos devem ser tratados com respeito, autonomia e autoridade para tomar decisões racionais, seguras, baseadas em evidências e financeiramente responsáveis. Os mandatos autoritários de cima para baixo sobre a prática médica são degradantes e, finalmente, ineficazes.

Precisamos de líderes que reconheçam que cuidar de seus médicos resulta em cuidadosos e compassivos com os pacientes, o que, em última análise, é um bom negócio. Médicos seniores, cujos conhecimentos e habilidades transcendem o próximo ciclo comercial, devem ser tratados com lealdade e não como um ativo depreciável e substituível.

Também precisamos que os pacientes perguntem o que é melhor para seus cuidados e depois exijam que sua seguradora ou hospital ou sistema de saúde os forneça – a mamografia digital, o cirurgião experiente, a transferência oportuna, a visita sem a distração do prontuário eletrônico – sem o melhor interesse da entidade comercial (seguradora, hospital, sistema de saúde ou médico) substituindo o que é melhor para o paciente.

Um mercado verdadeiramente livre de seguradoras e prestadores, sem que as obrigações financeiras sejam empurradas para os prestadores, permitiria a autorregulação e os cuidados dirigidos ao paciente. Esses objetivos devem visar a criação de ganhos mútuos, onde o bem-estar dos pacientes se correlaciona com o bem-estar dos profissionais. Dessa forma, podemos evitar o dano moral em curso associado ao negócio de assistência médica.

porCIPERJ

Confira plano de contingência para coronavírus no RJ

fonte: SES-RJ

CLIQUE AQUI E ACESSE O PLANO DE CONTINGÊNCIA

Em relação à confirmação dada pelo Ministério da Saúde sobre o caso do novo coronavírus confirmado em São Paulo, o secretário de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Edmar Santos, esclarece que o estado do Rio de Janeiro tem um plano de contingência para preparar as unidades integrado com os 92 municípios e a rede privada de saúde.

A SES-RJ já iniciou, desde o início de fevereiro, treinamento adequado aos profissionais de saúde em todo o estado, com notas técnicas atualizadas.

No dia 17/02, a secretaria realizou um grande workshop integrado com representantes da SES, secretarias municipais de saúde dos 92 municípios, hospitais universitários, hospitais militares e hospitais privados.

O plano de contingência será evoluído a cada etapa de enfrentamento do novo coronavírus, conforme planejado. Além disso, a secretaria irá intensificar campanhas de esclarecimento e orientação à população.

O secretário reitera que a população não precisa se alarmar, mas deve continuar a ter cuidados básicos de prevenção ao contágio:

* Proteger nariz e boca ao espirrar ou tossir
* Não compartilhar objetos de uso pessoal, como talheres e copos
* Lavar frequentemente as mãos, especialmente após espirrar ou tossir
* Evitar ambientes com muita aglomeração
* Utilizar álcool em gel nas mãos

porCIPERJ

Contra o coronavírus, Estados planejam atendimento domiciliar e suspensão de cirurgias

fonte: Estadão

A chegada ao País do novo coronavírus, que teve seu segundo caso confirmado em São Paulo neste sábado, 29, colocou a estrutura de saúde brasileira no nível “perigo iminente”, um estágio abaixo do limite para a declaração de emergência por circulação por contaminação interna da doença no País. Com 252 pacientes sob investigação em 15 Estados, mais o Distrito Federal, as secretarias estaduais de Saúde se preparam para enfrentar um eventual agravamento do quadro, planejando atendimento domiciliar e até a suspensão de tratamentos e cirurgias agendadas para a liberação eventual de leitos na rede hospitalar.

“Esse cancelamento de procedimentos eletivos é uma possibilidade extrema, sempre cogitada quando há muitos casos de urgência, seja dentro de uma situação de emergência de saúde pública ou não”, explica o presidente do Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass), Alberto Beltrame, secretário de Saúde do Pará. “Isso só ocorrerá se houver uma sobrecarga de casos graves, coisa que, neste momento, não há como estimar. Neste momento não há motivação para este tipo de medida.”

Com a maior concentração de casos suspeitos no País, o Estado de São Paulo tem 136 pacientes em avaliação, de acordo com levantamento disponível no site do Ministério da Saúde. De acordo com o governador João Doria (PSDB), o Estado “vai investir R$ 30 milhões em um programa de prevenção do coronavírus”, dos quais R$ 14 milhões serão destinados a uma campanha de conscientização a ser veiculada em meios de comunicação e redes sociais. A ação será iniciada na próxima semana. “Os R$ 16 milhões restantes serão utilizados para apoio operacional da Secretaria de Estado da Saúde”, informou.

O segundo colocado com maior concentração de casos suspeitos é o Rio Grande do Sul, com 27 pacientes em observação. São pessoas que tiveram viagem para a Europa e, no retorno ao Brasil, apresentaram febre e sintomas respiratórios. Ainda de acordo com as autoridades gaúchas, não há investimento em equipes para atendimento domiciliar.

Governadores do Sul e Sudeste devem pedir ajuda do Ministério da Saúde para o enfrentamento ao novo coronavírus, como mostrou o Estado neste sábado. De acordo com Beltrame, o pedido seria de R$ 1 bilhão e a ideia é usar o recurso para custear a instalação de leitos de UTI para atendimento de pacientes da nova doença.

Custos

Em Minas, porém, que contava 17 pacientes sob suspeita no sábado, as equipes técnicas do setor incluíram em seu Plano de Contingência a criação de times médicos e de enfermagem com até sete profissionais, incluindo um motorista, para atendimento de pacientes contaminados em casa. Pelo plano mineiro, cada uma dessas equipes extras teria um custo semanal de R$ 39 mil. “São necessários um coordenador médico; um coordenador de enfermagem; um médico plantonista por turno de 6 ou 12 horas; um enfermeiro plantonista por turno de 12 horas; um técnico em enfermagem plantonista por turno de 12 horas; um técnico de enfermagem para transporte na ambulância; e um motorista”, prevê o documento mineiro.

De acordo com o material enviado ao Ministério da Saúde, a “constituição de equipe de AD para funcionamento de 12 horas diárias todos os dias da semana” , sem o motorista, ficaria em R$ 30 mil, mais R$ 9,3 mil para remuneração de dois coordenadores, um médico e um enfermeiro. O plano do governo mineiro prevê ainda, no nível 3, com cenário agravado, a criação de um “hospital de campanha”. Para cada 15 leitos extras, segundo o documento, o plano prevê 18 profissionais, 6 deles médicos. Além disso, o documento mineiro estabelece uma lista de materiais como aparelho de pressão arterial, estetoscópio, máscaras N-95, máscaras cirúrgicas, termômetros, luvas, óculos de proteção, lanternas, kits para coleta de amostras, álcool, capotes e sacos plásticos para material infectado, além de formulários e receituários.

A preocupação com a presença do novo vírus cresceu também na Bahia, com nove casos suspeitos e quatro descartados. No início de fevereiro, durante a reunião do Conass em Brasília, que tratou dos planos de contingência, o secretário de Saúde, Fábio Vilas-Boas, defendeu que o repasse de recursos adicionais aos estados fosse na casa dos R$ 600 milhões para a intensificação do plano de emergência de vigilância sanitária no País.

Planejamento

“Como todo Plano de Contingência, são traçados vários cenários e temos de pensar em tudo, desde uma situação mais leve até situações mais críticas”, explica o presidente do Conass, comentando as medidas previstas nos planos estaduais. De acordo com Beltrame, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, “já adiantou a intenção de colocar mil UTIs extras no sistema, ou seja, mil conjuntos de equipamentos para reforçar o sistema, em caso de necessidade”.

Beltrame voltou a destacar que, embora o País não esteja vivendo uma situação de epidemia, o governo federal garantiu que repassaria os recursos necessários para o custeio. “O ministro não disse quanto. Mas estamos confiantes. Tenho dito que o Brasil tem uma vantagem em relação a maior parte dos demais países. Temos o SUS (Sistema Único de Saúde). Isso nos dá a articulação necessária entre todos os gestores para enfrentar uma situação de Emergência em Saúde Pública. Nos reunimos regularmente uma vez por mês. O SUS tem outra vantagem – gratuidade e universalidade do atendimento. Isso vale para todos. Atende a todos. Envolve inclusive a rede privada, que adota os mesmo critérios de vigilância, prevenção e eventual tratamento dos casos”, argumenta.

Vigilância

Beltrame conta que, no Pará, onde é secretário de Saúde, foi criado um comitê técnico, em 28 de janeiro. “Estamos trabalhando integradamente há um mês, preparando o sistema para dar respostas rápidas, eficientes e eficazes para uma eventual epidemia”, afirma. Ele lembra que além do aeroporto de Belém, “o Estado tem um porto importante, em Barcarena, por onde chegam navios para buscar minério”.

O secretário afirma ainda que há um acordo com a Vigilância Sanitária para que, na chegada dos navios, uma equipe vá a bordo para obter o diário da embarcação e ter acesso ao relatório médico da tripulação. “Assim, podemos preparar atendimento sem a necessidade de impedir qualquer desembarque. Não há restrição, mas acompanhamos tudo”, diz.

Beltrame recorda que, em seu Estado, foram identificados um homem e uma mulher, que chegaram da Itália e viajaram no mesmo voo do primeiro paciente de São Paulo com o coronavírus. “Estão sendo monitorados, por telefone, estão bem, sem sintomas, em casa”, revela.

Cirurgias

No Rio de Janeiro, as autoridades também desenharam um mapa da situação de cada uma das unidades hospitalares, número de leitos, localização e situação, classificando as situações por Nível Zero, 1, 2, 3 (contingência máxima). No caso de um agravamento rápido do quadro, instituições de saúde como o Hospital Anchieta contam com 60 leitos em fase de contratação. Nos Hospitais Municipal Ronaldo Gazolla, dos Servidores do Estado, Hospital da Lagoa e Hospital Alberto Torres, segundo o Plano de Contingência, pode haver “suspensão de cirurgias” programadas.

Na sexta-feira, 28, o secretário de Saúde do Rio, Edmar Santos, anunciou que o governo fluminense vai inaugurar, dentro de 30 ou 40 dias, um hospital com 75 leitos que poderão ser dedicados exclusivamente às vítimas do Covid-19. Ele não detalhou, no entanto, onde será a nova unidade. O Rio é o terceiro Estado em número de casos suspeitos, são 19.

O mapeamento do sistema ocorre também no Ceará. O Estado tem 145 hospitais com 1.475 respiradores e ventiladores, sendo 1.337 aparelhos em uso. A maior concentração de leitos e equipamentos está nas 44 unidades da capital, Fortaleza, mas o Estado tem uma rede com capacidade de 53 centros médicos nos quais há 110 leitos para isolamento de pacientes, 93 deles no SUS.

A orientação para as equipes médicas cearenses é a de que casos graves de infecção sigam para isolamento nos seguintes hospitais: São José de Doenças Infecciosas, de Fortaleza; Hospital Regional Norte, de Sobral; Hospital Regional do Sertão Central, de Quixeramobim; e Hospital Regional do Cariri, em Juazeiro do Norte.

Em Goiás, há cinco casos suspeitos. Já em Mato Grosso, um dos que não registram nem suspeitas da doença, o governo informou, em nota, que a estrutura hospitalar permanece em alerta, com o Hospital Universitário Júlio Müller como referência e com uma unidade de retaguarda, que é o Hospital Estadual Santa Casa.

Especialistas aprovam, mas incentivam também mudança de hábitos

Infectologistas ouvidos pelo Estado disseram que as ações dos planos de contingência dos Estados precisam levar em consideração os erros e acertos da estratégia adotada na China para conter o avanço do vírus. Epicentro da epidemia, algumas decisões adotadas pelas autoridades chinesas podem ter contribuído para a exaustão do sistema de saúde e a sensação de pânico na população.

Para os especialistas, o atendimento domiciliar previsto por alguns Estados é uma ótima opção para os casos de menor gravidade, poupa recursos financeiros e libera os leitos e recursos médicos para quadros mais graves – incluindo o de outras doenças. “Na China, parece ter havido a intenção de internar todos os casos suspeitos e confirmados e isso levou ao colapso do sistema, sem que conseguissem atender a toda a demanda. E ainda trouxe problemas para outros tratamentos de saúde. Por ser uma situação inédita, pensou-se que essa era a melhor opção”, avalia Francisco de Oliveira Junior, médico do Instituto de Infectologia Emílio Ribas.

Com as informações adquiridas atualmente sobre o impacto do vírus, se sabe que a maior parte das pessoas apresenta sintomas leves e sem complicações, podendo ser tratada em casa. Por isso, os especialistas avaliam como acertada a estratégia de atendimento domiciliar. No entanto, destacam que é preciso pensar em duas etapas para esse formato, com monitoramento ativo e passivo dos pacientes, de acordo com o total de casos confirmados.

Monitoramento ativo é o que tem ocorrido até esse momento no País, com as secretarias de Saúde ligando e visitando as pessoas com suspeita de terem contraído o coronavírus. Também é o que tem ocorrido com os dois casos confirmados da doença, de viajantes de São Paulo que contraíram o vírus na Itália  – ambos são acompanhados.

“Ligar periodicamente, perguntando se a pessoa melhorou ou piorou, perguntar sobre a temperatura e se houve algum novo sintoma, é muito eficaz. Mas pode não ser viável e sustentável se o número de contaminados foi muito alto”, diz Oliveira Junior. Nesse caso, segundo ele, pode ser criada uma central de atendimento para orientar a população e colher informações sobre o estado de saúde delas.

O infectologista Jean Gorinchteyn lembra que o atendimento domiciliar também pode aproveitar a estrutura e a experiência das equipes já existentes do programa de Saúde da Família. “É possível utilizar as equipes que já estão implementadas em determinadas cidades ou regiões dos grandes centros. Assim, as pessoas evitam grandes deslocamentos para os hospitais sem ficar negligenciadas.”

Outro ponto que os especialistas destacam dos planos de contingência são as campanhas de prevenção. Para os infectologistas, elas são uma das ações mais importantes no controle do coronavírus e também de outras doenças. “Temos uma oportunidade importante de introduzir novos hábitos à população e assim prevenir outros tipos de doença no futuro”, diz Oliveira Júnior.

Para Gorinchteyn, no entanto, é importante que as campanhas não foquem apenas em ações educativas e propagandas, mas também em um esforço mais ativo para induzir a mudança de hábitos na população.

“Seria interessante se ônibus e vagões do metrô tivessem dispensadores de álcool em gel nas portas. É uma prática importante para um ambiente de grande aglomeração e baixa circulação de ar. Na época do H1N1, práticas parecidas foram adotadas por restaurantes e lanchonetes e perduram até hoje e viraram rotina para muitas pessoas.”

porCIPERJ

Como o mercado global da saúde tem se movimentado para entregar qualidade

fonte: Saúde Business

Um relatório publicado em 2018 pelo The Lancet Global Health Commission sobre sistemas de saúde de alta qualidade constatou que 5,7 milhões de pessoas morrem em países de baixa e média renda todos os anos por cuidados de saúde de baixa qualidade em comparação com os 2,9 milhões que morrem por falta de acesso aos cuidados. Em outras palavras, em muitos países, uma pessoa tem uma chance maior de morrer por receber atendimento de baixa qualidade do que de ficar totalmente sem atendimento.

O apelo de se pagar a assistência à saúde pela qualidade e não pelo volume é poderoso e apropriado, mas como conseguir essa mudança continua sendo um desafio global. Apesar do interesse mundial, evidências de como implementar com sucesso modelos que prometem melhorar a qualidade do cuidado, como o de Accountable Care Organizations (ACOs), se mantêm limitadas.

Nos EUA, o Centers for Medicare and Medicaid Services (CMS) anunciou em setembro de 2019 que as ACOs geraram 739,4 milhões de dólares de economia líquida em 2018. “As ACOs têm economizado dinheiro desde o início”, disse Rob Mechanic, diretor executivo do Institute for Accountable Care. O diretor acredita que as ACOs tendem a ter um desempenho melhor quanto mais tempo estiverem no programa. “É uma indicação de que o CMS deve continuar investindo nesse modelo, porque foi o mais forte dos vários modelos de pagamento que eles testaram”, afirmou a Mechanic. Até 2017, as impressões americanas eram de que uma ampla gama de ACOs pode​riam melhorar a qualidade da assistência, mas menos ACOs combinaram com êxito a melhoria da qualidade com reduções significativas nas tendências de gastos.

Pesquisadores da Duke University, Imperial College London e da Primary Care Corporation em Doha, Qatar, identificaram elementos-chave da estrutura das ACOs e aplicaram esses princípios a pilotos no Nepal, na Alemanha e na Holanda, de acordo com um estudo publicado na Health Affairs. Mesmo abordando diferentes problemas na saúde, os pilotos ressaltaram a importância do compartilhamento de dados entre os players, para uma coordenação de cuidado sustentável, além de forte alinhamento entre os mesmos. Reforçou ainda que o cuidado centralizado no paciente precisa da mudança de local dos serviços: de hospitais para a comunidade.

No Reino Unido, o modelo de ACO usa outro nome: Integrated Care Systems (ICS) e tem sido utilizado pelo NHS desde 2016. A diferença para outros modelos é que eles têm trabalhado em conjunto com grupos que não de saúde, como instituições de caridade locais e grupos comunitários, ajudando as pessoas a terem vidas mais saudáveis por mais tempo a partir do enfrentamento de determinantes sociais. Em junho de 2019, outras três áreas foram designadas como ICS, o que significa que mais de um terço da população do país está agora coberto por um. Atualmente, são 14 pelo país.

No Brasil, a Saúde Suplementar deu seus primeiros passos nesta direção. A ASSEFAZ (Fundação Assistencial dos Servidores do Ministério da Fazenda) juntou empresas independentes de atenção primária, secundária, terciária e um programa focado em prevenção para formar uma das primeiras ACOs brasileiras. Já a Hospital Care, holding administradora de serviços de saúde, reuniu inicialmente prestadores de serviços de sua rede própria com o mesmo intuito. Este novo modelo de remuneração está em prática no Hospital Vera Cruz, de Campinas (SP), desenvolvendo a estratégia em cima do plano de saúde próprio Vera Cruz, que atualmente possui 30 mil usuários na região.

O modelo de remuneração é o instrumento para uma mudança no modelo assistencial. De acordo com a ANS estamos vivendo uma transição pois já temos medidas de qualidade da assistência disponíveis e já estamos realizando melhorias no processo de cuidado na Saúde Suplementar. O futuro se dará com o aprimoramento da qualidade do sistema, utilização de medidas por desfechos clínicos e proposições de cuidado coordenado como os das ACOs.

O modelo da ACO é altamente adaptável às circunstâncias locais e pode acomodar provedores e financiamentos, tornando-o apropriado para países com mercados mistos de assistência médica e para aqueles em que pagamento e provisão são divididos entre os setores público e privado.