Arquivo mensal maio 2020

porCIPERJ

CREMERJ divulga nota sobre lockdown

fonte: CREMERJ

O CREMERJ solicitou o acesso aos dados que embasam as decisões já tomadas pelo governo estadual na condução da pandemia e as futuras decisões.

Isto afeta diretamente a saúde da população e a rotina de trabalho dos Médicos.

Neste momento extremo, em que somos submetidos a condições de sobrecarga de trabalho, falta de equipamentos de proteção e mortes de dezenas de colegas, por estarem na linha de frente de atendimento à população, é necessário que os Médicos tenham representatividade. O governo do estado instituiu um conselho de notáveis com diversos Médicos e nenhum representante do CREMERJ.

Cumpre-nos lembrar que, ao Conselho Regional de Medicina do Estado do Rio de Janeiro, por imperativo legal, cabe zelar e trabalhar por todos os meios ao seu alcance, pelo perfeito desempenho ético da Medicina .

Notícias vindas da imprensa sugerem ser iminente a adoção do chamado “lockdown”.

Já temos dezenas de relatos de colegas Médicos, que na cidade de Niterói, foram dificultados de se dirigirem a hospitais para trabalharem por bloqueios policiais. É fundamental que se tenha um plano de ação, antes de se instituir medida tão radical, para permitir o trânsito de Médicos, profissionais de saúde e ambulâncias.

As diversas fiscalizações feitas pelo CREMERJ mostram um cenário de total desarticulação entre as três esferas de poder, que se traduzem neste caos de atendimento, que provoca mortes de dezenas de fluminenses por dia. Como disse a porta-voz da OMS, o lockdown jamais foi aconselhado pela Organização Mundial da Saúde, como sendo uma medida realizada por quem não foi capaz de se estruturar, para atender à grande demanda de pacientes, que já se sabia desde dezembro que ocorreria. Além disso, o CREMERJ precisa saber quais os planos do governo, para manter a população em casa por meses, sendo providas de suas necessidades básicas. E como serão mantidos os serviços de saúde funcionando, com RH e insumos prontamente disponíveis, neste longo período de tempo até o surgimento de uma vacina.

O CREMERJ deve ser informado e ouvido antes de qualquer medida, que afete diretamente a saúde da população e a de seus profissionais, para poder opinar e colaborar com a elaboração e instituição delas. E, principalmente, passar a experiência de quem conhece o dia a dia dos problemas, que assolam a saúde de nosso estado, por estarmos no front dessa guerra.

porCIPERJ

Parecer do CFM reitera garantia do sigilo das informações médicas

fonte: CFM

“Informações médicas são sigilosas e privativas do paciente”. A declaração consta da ementa do Parecer CFM nº 5/2020, divulgado na quinta-feira (7). O documento foi aprovado pelo Plenário do Conselho Federal de Medicina (CFM), em resposta à consulta apresentada pela Associação Médica Brasileira (AMB).

Em resposta, o CFM emitiu o Parecer, baseado em manifestação da Coordenação Jurídica da autarquia. Como argumento para a declaração emitida pelo Conselho é citada a Constituição Federal, que, em seu artigo 5º, tutela a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas e protege o sigilo na relação médico/paciente. Também é abordada a Resolução CFM nº 1658/2002, que normatiza a emissão de atestados.

O documento está disponível no Portal Médico, e pode ser acessado aqui.

porCIPERJ

ARTIGO: Infectar para salvar

fonte: Folha de SP

por Esper Kallás Médico infectologista, professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade.

No último domingo, Hélio Schwartsman trouxe uma interessante provocação em sua coluna na Folha. Questionou a realização de pesquisas com infecção experimental em humanos. Vou elaborar um pouco mais sobre o assunto.

É defensável realizar um estudo para dar um agente infeccioso a uma pessoa saudável? As informações colhidas poderiam ser extremamente valiosas. Poderíamos entender o período de incubação, de multiplicação viral no organismo, os sinais e sintomas que caracterizam a doença e o tempo transcorrido até a melhora e a cura. Mais do que isso, poderíamos testar medicamentos preventivos, tratamentos, vacinas e outras formas de alívio de sintomas.

Antes que o leitor se aborreça com tal proposição, são importantes algumas considerações.

A história tem exemplos deploráveis, incluindo formas deliberadas de uso de agentes infecciosos como armas. Experimentos terríveis foram descritos em campos de concentração, durante a Segunda Guerra Mundial, quando pessoas foram propositalmente infectadas pelo bacilo da tuberculose para que a doença fosse estudada, o que provocou a morte de pelo menos 200 pessoas.

Há também exemplos virtuosos. Um deles, ancorado em observações práticas, serviu de base para o descobrimento das vacinas. Em 1796, Edward Jenner inoculou James Phipps, um garoto de oito anos de idade, com o vírus da varíola bovina, que provocava vesículas na mão de ordenhadeiras. Semelhante, mas menos virulento que o vírus da varíola humana, conseguiu conferir proteção adequada ao garoto, que ficou imune a essa doença, responsável pela morte de 300 a 540 milhões de pessoas, somente no século 20.

Tais experimentos aumentaram numericamente nas últimas décadas, em situações cada vez mais controladas. Já foram feitos estudos com gripe, malária, dengue, cólera e febre tifóide. Em todos, foi escolhido um representante do agente com menor virulência e um grupo de voluntários com baixíssima chance de desenvolver doença grave. As informações obtidas em tais projetos são de grande importância, sugerindo que essa prática deva ser considerada para condições onde há maiores limitações na avaliação de prevenção ou tratamento, como sugerido em documento da Organização Mundial da Saúde.

Em 1996, na Universidade de Rochester, NY, ajudei a realizar um estudo que incluiu 60 jovens voluntários que receberam um vírus da gripe comum. Eles foram hospedados em um hotel da cidade onde metade deles começou a tomar, um dia antes, um novo remédio antiviral que estava em desenvolvimento. No dia seguinte, cada um recebeu instilação nasal de uma solução contendo o vírus. Todos os sintomas foram monitorados e documentados nos dias subsequentes.

Tudo ocorreu sem transtornos. Os que tiveram gripe apresentaram sintomas leves e suportáveis, como febre e tosse, e receberam tratamento sintomático apropriado até a cura. Experimentos como esse foram a base para o uso de um dos antivirais que usamos até hoje, pois a gripe não dispunha de tratamento específico àquela época.

Estamos diante de uma pandemia com grande quantidade de mortos e enorme impacto mundial, sem precedentes nos tempos recentes. O desenvolvimento urgente de novos medicamentos e possíveis vacinas é a única forma de superar tamanha crise, antes que a infecção alcance uma porcentagem ainda maior da população cobrando, dos mais vulneráveis, um alto preço.

Para provar que um medicamento funciona, é necessária a inclusão de centenas de pacientes. Para uma vacina, um estudo pode requerer milhares. Podemos esperar tanto tempo para percorrer tais etapas? O enfrentamento de uma pandemia como a da Covid-19 requer soluções rápidas.

Várias estratégias podem minimizar os riscos: escolher voluntários entre 18 e 30 anos, sem outros problemas de saúde, que residam em áreas onde há circulação do novo coronavírus (esse grupo apresenta taxa de complicações e risco de morte pela doença extremamente menores que a população em geral); recebê-los em um hospital durante o período de infecção experimental, minimizando a chance de transmissão para outros, além de oferecer todo o suporte disponível.

Faria, aqui, uma ressalva ao comentário de Hélio Schwartsman, no uso do termo “cobaia”.

A pesquisa clínica no Brasil é regida por normas rigorosas, monitoradas pela Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), que protege principalmente o participante, garantindo sua total liberdade em participar, ao mesmo tempo zelando pela proteção do voluntário. Aliás, nunca é demais enfatizar o quanto somos gratos aos voluntários de estudos de pesquisa. São contribuições inestimáveis para toda a coletividade.

Estudos que utilizem infecções experimentais pelo novo coronavírus podem apressar em vários meses o desenvolvimento de novos tratamentos e vacinas. Algo que pode salvar a vida de centenas de milhares de pessoas.

 

porCIPERJ

Sobrecarga e riscos pioram saúde mental de médicos e enfermeiros na pandemia

fonte: Folha de SP

O suicídio de uma médica de Nova York que atendia pacientes com Covid-19 chamou atenção para um problema ainda pouco debatido no Brasil: a piora da saúde mental dos profissionais da saúde em meio a pandemia.

Ainda não há estudos sobre isso, mas a percepção de entidades e de especialistas é que, com o aumento de mortes de colegas de trabalho pela doença, aliado ao medo do contágio e às exaustivas jornadas, quadros emocionais e psiquiátricos tendem a se agravar.

Nos últimos 50 dias, ao menos 32 servidores estaduais e municipais de saúde de São Paulo, sendo sete médicos, morreram infectados pelo novo coronavírus. Só no Hospital do Mandaqui (zona norte) foram três, um técnico de enfermagem e dois auxiliares.

Até a quarta (6), o Cofen (Conselho Federal de Enfermagem) contabilizava 73 mortes de profissionais pela Covid-19 no país. A maior parte (41) com menos de 60 anos. O município de São Paulo, lidera o ranking com 18 mortos.

“A equipe já está muito cansada pelo excesso de trabalho e se sente impotente diante das mortes de pacientes e de colegas. Vai dando aquele desespero porque a gente tem familiares e pode contaminá-los também”, afirma a secretária-geral do SindSaúde-SP (sindicato dos servidores estaduais), Célia Regina Costa.

Segundo ela, foi uma batalha conseguir que os EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) chegassem a todos os funcionários e agora será outra obter suporte emocional para os servidores que estão na linha de frente.

“Isso é necessário principalmente nos locais em que os colegas faleceram. No Mandaqui, tem uma equipe inteira traumatizada. De 11 colegas, dois deles faleceram. Eles sentem a morte muito próxima.”

Ela conta sobre uma fisioterapeuta que atuava na UTI do Hospital do Servidor Público Estadual que, assintomática e sem ser testada, seguiu trabalhando e indo para a casa. Com isso, contaminou a irmã, que morreu, e a mãe, que na UTI do Hospital das Clínicas. “Isso transforma a vida da pessoa. Como superar esse sofrimento sozinha?”

A enfermeira Renata Pietro, presidente do departamento de enfermagem da Amib (Associação de Medicina Intensiva), diz que os colegas estão com muito medo.

Pietro publicou nesta quarta (6) uma carta endereçada ao presidente Jair Bolsonaro em que relata o dilema vivido pelo pessoal da enfermagem, que soma 2,3 milhões de profissionais, a maior força de trabalho da saúde no país.

“Além de acumularmos todas as angústias do cidadão comum, estamos mais expostos ao risco de contaminação e lidando com falta de EPIs, sobrecarga de trabalho com jornadas exaustivas e ainda presenciamos colegas sendo agredidos fisicamente e psicologicamente durante o traslado até suas casas.”

Somado a essas questões, segundo ela, há profissionais que pertencem aos grupos de risco e que seguem na linha de frente porque não foram liberados para a quarentena.

“A questão psicológica tem causado um impacto grande. A sobrecarga física e mental tem sido absurda. As pessoas relatam esgotamento”, diz.

Segundo ela, embora haja várias iniciativas de ofertas de terapia online, os profissionais não têm tempo de buscar essa ajuda porque precisam conciliar as jornadas exaustivas com os afazeres domésticos quando chegam em casa.

O ideal, afirma, seria que esse suporte fosse oferecido dentro dos hospitais. “Estão todos aterrorizados com a quantidade de mortes. Tenho tentado levar algum conforto e otimismo por meio de lives, lembrando que 80% dos sintomáticos vão ter melhora.”

Esses desafios impostos pela Covid-19 vêm a se somar a outros quadros emocionais que já acompanham os profissionais de saúde, segundo a psiquiatra Carmita Abdo, secretária da AMB (Associação Médica Brasileira).

Ela afirma que essa população tradicionalmente apresenta taxas superiores de problemas mentais, como burnout, uso de drogas e suicídio, em relação à população geral pelas adversidades inerentes à área da saúde.

“Agora esses números tendem a se intensificar. Não temos dados consolidados mas sabemos que está aumentando muito o número de profissionais que precisam se afastar porque estão esgotados.”

Pesquisa realizada pela APM (Associação Paulista de Medicina) detectou que de um universo de 2.312 médicos ouvidos no país, 86,6% têm a percepção de que os colegas estão apreensivos, deprimidos, insatisfeitos e revoltados.

Segundo Abdo, vários centros médicos no país, como o HC da USP, têm oferecido suporte emocional para cuidadores, psicoterápíco e/ou medicamentoso, mas que é preciso vencer o estigma relacionado às questões de saúde mental.

“Esses profissionais ainda se sentem constrangidos em buscar um serviço dessa natureza, temendo se colocar como vulnerável ou frágil.”

Uma outra dificuldade anterior, explica a médica, é a de que as pessoas têm dificuldade de identificar que estão com algum problema mental. “Elas já trabalham dentro de um nível de pressão tamanho que isso parece natural. Quando não, preferem recorrer à automedicação.”

JOHNSON LANÇA PROGRAMA COM TERAPIA ONLINE

Uma iniciativa que será lançada no próximo dia 13 pela Johnson & Johnson Brasil oferecerá cuidado psicossocial a profissionais da saúde pública e privada de todo o país, especialmente médicos e enfermeiros.

Numa primeira fase, serão ofertadas 7.600 sessões gratuitas de terapia online. Os profissionais poderão baixar os aplicativos e ter acesso aos serviços de apoio emocional e psicológico oferecidos por plataformas digitais.

Segundo Fabricio Campolina, da Johnson & Johnson, a Covid-19 trouxe desafios mesmo aqueles profissionais preparados para atuar em situações emergenciais.

Ele explica que o conteúdo do programa foi adaptado para dialogar com as angústias e dilemas vivenciados atualmente pelos profissionais.

Afirma que a meta é conseguir mais parceiros, como secretarias de saúde e associações de profissionais, para que a iniciativa seja ampliada, inclusive envolvendo psiquiatras em casos que só a ajuda terapêutica não for suficiente.

O programa é feito em parceria com o hub de inovação Distrito e as startups Moodar e TNH Health. A Moodar é uma plataforma de teleterapia, acompanhada por uma equipe de psicólogos.

Já TNH Health faz uso de inteligência artificial para simular conversas, com informações e conteúdo para problemas de saúde emocional como depressão e ansiedade.

Além de um check-up do estado de saúde, o profissional receberá dicas para lidar com situações de estresse e pressões do dia a dia, e exercícios de autocuidado.

“Curiosamente, a gente não tem observado que, ao conversar com um robô de inteligência artificial, a pessoa veja menor valor. Ao contrário, ela se sente mais à vontade de falar dos seus problemas.”

Os profissionais poderão ter acesso ao programa por meio do site: //cuidandodequemcuidadenos.com.br/.​

porCIPERJ

ARTIGO: o carrossel de emoções de médicos da emergência do Hospital das Clínicas da USP

fonte: Folha de SP

por

Rodrigo Antonio Brandão Neto

Médico supervisor de Emergências Clínicas do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP

Irineu Tadeu Velasco

Professor titular de Emergências Clínicas da FMUSP, coordenador do projeto Fapesp “Marcadores de diagnóstico e prognóstico em pacientes graves atendidos em serviço de emergência”

A pandemia do vírus SARS-CoV-2 representa o maior desafio de toda uma geração de profissionais da área da saúde. O Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP é um dos maiores campos de enfrentamento da crise no país.

Nossa equipe na emergência do HC tinha 28 médicos antes da pandemia. Por pertencerem ao grupo etário de maior de risco, quatro se afastaram —entre eles um de nós, o dr. Irineu Velasco, que permanece online na coordenação dos trabalhos. Por causa do tremendo aumento de atendimentos, contratamos 17 médicos. E todos tivemos que aumentar o ritmo de trabalho —alguns permanecendo até 60 horas semanais na emergência.

Antes da pandemia, o HC atendia de 20 a 30 casos de baixa complexidade por dia. Hoje quase todos são complexos. Estamos recebendo 60 casos graves por dia.

Um caso emblemático foi o de um paciente de 64 anos obeso, que evoluiu com piora rápida do padrão respiratório e foi para a sala de emergência, reservada aos casos de maior gravidade para intubação. Naquele momento, parte da equipe transportava outro paciente à UTI. Mesmo com a equipe reduzida, tivemos que realizar uma intubação.

Nosso material de proteção inclui um face shield. Como os dois médicos usam óculos, durante o procedimento os óculos embaçaram com a combinação de máscara e face shield. Assim, não tivemos sucesso. Na segunda tentativa, um dos médicos retirou deliberadamente a proteção facial para enxergar melhor, e conseguiu realizar o procedimento.

Noutra ocasião, chegaram quatro pacientes intubados de uma só vez. Não tínhamos espaço nem ventiladores para receber todos ao mesmo tempo. Tivemos que deslocar alguns pacientes em ambulâncias para a unidade de cuidados intensivos. No processo de arrumar o local, um dos pacientes perdeu o tubo orotraqueal. A médica da ambulância pediu socorro. Um médico da equipe correu a ajudar e, na pressa, mesmo sem face shield, reintubou o paciente.

Um terceiro caso emblemático se deu com um profissional da saúde pai de gêmeas de poucos meses. Ele havia decidido não se isolar, pois temia perder o emprego. Entrou na emergência em situação grave e foi intubado. Antes do procedimento, disse: “minhas filhas iriam preferir que eu estivesse desempregado do que agora correndo risco de vida.” Ele sobreviveu.

Desde o início da pandemia, três médicos foram afastados da emergência por apresentarem sintomas respiratórios. Dois já voltaram. O terceiro foi aquele que tirou o face shield durante a intubação. Ele já está bem.

Nos primeiros dias, era nítido que alguns médicos tinham receio de entrar na área dos pacientes com Covid —que logo veio a tomar conta de todo o pronto-socorro. Houve momentos que vários colegas partilhavam notícias de colegas médicos em outros países que estavam morrendo. No entanto, em pouco tempo isso parou e tornou-se nítido que o moral da equipe se tornara elevado.

Houve casos nítidos de médicos com exaustão e sintomas de estresse. No nosso grupo de WhatsApp, percebe-se que muitos da equipe passam por um carrossel de emoções, que vão do medo e da preocupação ao desprendimento e à dedicação.

Além da estafa e do estresse, corremos risco contaminação devido à grande exposição ao vírus. Mesmo com a proteção adequada, o contágio é quase inevitável. Todos sabem disso. A esse respeito, quando solicitamos à equipe que aumentasse o horário de trabalho, uma médica teve reação muito negativa. Disse que não podiam obrigá-la, que o hospital esperava que morrêssemos por ele, que era errado.

Explicamos que não iríamos requisitar nada que nós mesmos não estivéssemos fazendo, e que o momento exigia sacrifício. Deixamos em aberto a possibilidade de mudar para o pronto-socorro do Instituto do Coração, onde a chance de infecção é mais baixa. Após alguns dias, aquela médica nos procurou. Disse estar preocupada e rezando pela equipe todos os dias. Disse que entendia que tinha de fazer mais pela equipe e pela situação. No dia seguinte, retornou à emergência, aumentou seus horários e pegou plantões no fim de semana.

porCIPERJ

Coronavírus: estudo com coquetel de remédios tem bons resultados contra a Covid-19, mostra Lancet

fonte: BBC Brasil

A nova edição do periódico médico Lancet trará neste sábado (9) resultados “animadores” de testes clínicos com uma combinação tripla das substâncias interferon beta 1-b, lopinavir-ritonavir e ribavirin em 127 pacientes adultos diagnosticados com Covid-19 e tratados em seis hospitais públicos de Hong Kong.

Por ser um estudo do tipo clínico randomizado controlado, por já envolver testes com humanos e por ter passado por peer review (uma revisão independente por especialistas que não são os mesmos a assinar o artigo), trata-se de uma publicação com critérios de excelência na pesquisa científica.

O artigo, assinado por mais de 40 cientistas liderados pelo professor da Universidade de Hong Kong Kwok-Yung Yuen, mostra que a combinação tripla eliminou o coronavírus em média sete dias após o início do tratamento —tempo significativamente menor do que o grupo controle, que foi tratado apenas com lopinavir-ritonavir e precisou de 12 dias para que o vírus não pudesse mais ser detectado em teste molecular RT-PCR.

O grupo que recebeu a combinação interferon beta 1-b, lopinavir-ritonavir e ribavirin tinha 86 pacientes; e o grupo controle, 41.

Os autores também perceberam melhores resultados da combinação tripla no tempo para desaparecimento de sintomas (quatro dias, versus oito no grupo controle); e para alta do hospital (nove dias versus 14,5).

CAUTELA COM OS RESULTADOS

Os pacientes envolvidos tinham casos leves e moderados de Covid-19 e receberam tratamento por 14 dias. Os efeitos adversos foram considerados leves e semelhantes nos dois grupos (relatado por cerca de metade dos participantes de cada grupo), incluindo principalmente diarreia, febre e náuseas.

“Apesar destes resultados animadores, precisamos confirmar em uma fase mais ampla, a 3, que o interferon beta-1b sozinho ou em combinação com outros medicamentos é eficaz em doentes mais graves”, afirmou Kwok-Yung Yuen em comunicado à imprensa.

Os resultados divulgados agora correspondem ao que é classificado como fase 2 de estudos clínicos, envolvendo algumas centenas de pacientes doentes com a patologia para a qual se busca tratamento.

Ele também é caracterizado como um estudo randomizado controlado porque as pessoas testadas foram divididas aleatoriamente em um grupo que recebe o tratamento em questão; e um grupo controle, que recebe outro tratamento —neste caso, a combinação lopinavir-ritonavir, apenas.

Os pacientes são recrutados aleatoriamente para evitar que haja um viés de confirmação (uma tendência de interpretar ou orientar os resultados de modo que confirme a hipótese inicial ou as certezas do pesquisador).

Outra característica deste estudo é que ele foi open label, ou seja, tanto os pesquisadores quanto participantes tinham conhecimento dos tratamentos recebidos e não havia um grupo recebendo placebo —isto é considerado uma limitação pelos próprios autores.

Os 127 pacientes envolvidos foram diagnosticados com Covid-19 através de testes e foram internados entre 10 de fevereiro e 20 de março —em Hong Kong, toda pessoa que tem resultado positivo para o novo coronavírus é hospitalizada.

O grupo teste recebeu uma combinação de lopinavir-ritonavir (400mg/100mg) e ribavirin (400mg) a cada 12 horas, além de três doses injetadas de interferon beta-1b em dias alternados; já o grupo controle recebeu apenas o lopinavir-ritonavir a cada 12 horas.

Neste período, eles continuaram recebendo tratamento padrão para covid-19, como ventilação, diálise e antibióticos.

Diferente de outras síndromes respiratórias, como Sars e Mers, em que antivirais podem combater o vírus antes do pico dos sintomas (entre 7 a 10 dias após o início), na Covid-19, o aumento da carga viral coincide com a piora dos sintomas, logo nos primeiros dias da doença.

Isso é semelhante ao que ocorre com a influenza, sobre a qual já se sabe que uma combinação medicamentosa, em vez de apenas um medicamento, por ser mais eficaz. Por isso a aposta na combinação tripla interferon beta 1-b, lopinavir-ritonavir e ribavirin.

No surto de Sars em 2003, a combinação lopinavir-ritonavir (normalmente usada contra o HIV) e o ribavirin (usado contra a hepatite C) reduziu significativamente a ocorrência de insuficiência respiratória e mortes em pacientes hospitalizados. Já o interferon beta 1-b, desenvolvido para tratar da esclerose múltipla, também levou à redução da carga viral e melhora nos pulmões em testes com animais para Mers.

“Essas descobertas sugerem que o interferon beta 1-b pode ser um componente essencial desta combinação de tratamentos e é válido investigá-lo mais no tratamento da Covid-19”, diz a coautora Jenny Lo, do Hospital Ruttonjee, em Hong Kong.

“Os interferons são proteínas que ocorrem naturalmente, produzidas em reação a uma infecção viral. A esperança é que o interferon beta-1b aumente a capacidade do organismo de combater o novo coronavírus”

Fora da equipe responsável pela publicação no Lancet, Sarah Shalhoub, pesquisadora da Universidade Ocidental do Canadá, enviou por escrito à imprensa um comentário sobre o artigo.

“A maioria dos estudos publicados até agora foram do tipo retrospectivos ou observacionais. Portanto, esse estudo controlado e randomizado, com objetivo prospectivo, agrega um valor significativo ao acúmulo de evidências sobre tratamentos, eliminando uma série de limitações inerentes aos estudos retrospectivos. ”

“No entanto, como os autores reconhecem, são necessários estudos futuros para examinar a eficácia do interferon beta-1b sozinho ou em combinação com outros medicamentos para tratar pacientes graves com covid-19, além de uma comparação com placebo.”

porCIPERJ

Uso de dados pessoais em pandemia deve ser restrito à saúde, dizem pesquisadores

fonte: Faperj

A necessidade de monitoramento do número de infectados, das taxas de mortalidade e de ocupação dos hospitais é inevitável para o controle da pandemia e diversas empresas, principalmente de telefonia, passaram a divulgar serviços de localização e comportamento. Se por um lado a possibilidade de monitorar o avanço do coronavírus e o respeito ao isolamento é vista com bons olhos, por outro, acende a discussão sobre como é e será feita a coleta de dados, respeito à privacidade e o destino destes dados.

O diretor do Instituto de Comunicação, Informação e Tecnologia da Fundação Oswaldo Cruz (Icict/Fiocruz), Rodrigo Murtinho, entende que há uma falsa dicotomia entre o monitoramento em relação à saúde e a privacidade, mas é preciso ter cuidado. “É possível monitorar a saúde da população através de registros e cruzamentos de diferentes dados sem necessariamente expor a privacidade dos cidadãos. Boa parte das plataformas e painéis utilizados para sistematizar informações para toma de decisões partem de dados secundários, anonimizados. Mas há situações em que o monitoramento e o tratamento de dados podem levar à violação da privacidade”, explica o Murtinho que realiza pesquisas na área de Políticas Públicas de Comunicação, Saúde e Direitos Humanos.

Murtinho ressalta que no campo da saúde a preocupação com a proteção dos dados e a privacidade das pessoas não é uma novidade. “A Lei Geral de Proteção de Dados reforça ainda mais os princípios que norteiam a atuação dos conselhos de ética em pesquisa, estruturados em torno da Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep). Há muito tempo as pesquisas que envolvem seres humanos têm uma regulação específica”, diz. Ele explica que, nesse momento, a Conep está funcionando em regime de tramitação prioritária e tem um prazo de 72 horas para analisar pesquisas relacionadas ao Coronavírus.

Professora do Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Eco-UFRJ), Fernanda Glória Bruno, que recebe apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado da FAPERJ, também enfatiza a necessidade dos estudos e coleta de dados serem de uso exclusivo para políticas de saúde, com finalidades muito claras, tempo determinado e com interdição para qualquer uso discriminatórios. “Dados de saúde são muito sensíveis e podem deixar as pessoas em situações de extrema vulnerabilidade”, pondera. Para ambos os pesquisadores, a aprovação no começo de abril para o segundo adiamento da entrada em vigor da Lei Geral de Proteção de Dados vai dificultar que estes cuidados sejam tomados. Inicialmente prevista para janeiro deste ano, a entrada em vigor foi adiada para agosto e agora para janeiro de 2021.

Legislação

A Lei Geral de Proteção de Dados foi aprovada em 2018 após grande mobilização da sociedade civil e ganhou nova redação em 2019. Para Fernanda, um dos destaques da lei é a necessidade de uma autorização consciente e esclarecida de que seus dados estão sendo utilizados para tais finalidades e por quais empresas. Dados pessoais como origem racial ou étnica, convicção religiosa, opinião política, filiação a sindicato ou à organização de caráter religioso, filosófico ou político, dado referente à saúde ou vida sexual, dado genético ou biométrico são considerados sensíveis pela LGPD e não podem ser divulgados de forma indiscriminada. Também foi aprovada por Câmara dos Deputados e Senado no final de 2019 a Proposta de Emenda Constitucional que inclui o direito à proteção de dados como direito fundamental previsto na Constituição. A proposta ainda precisa de uma nova aprovação em plenário.

Com a nova lei, a rotina de informar o número de Cadastro de Pessoa Física (CPF) para ganhar descontos em medicamentos em uma farmácia, deve passar por um esclarecimento sobre o destino das informações coletadas e o consentimento do cliente tanto para o tratamento como para a transferência destes dados para terceiros. Prática comum, mas ilegal, entre parceiros comerciais. “O compartilhamento desses dados com os planos de saúde é um exemplo clássico de como o uso indevido dos dados pessoais pode afetar negativamente a vida dos cidadãos. Ao projetar a possibilidade de desenvolvimento de doenças graves e precoces, a partir da associação de informações sobre o perfil de consumo de uma pessoa em farmácias com dados sobre a saúde de parentes do mesmo grupo familiar, uma empresa de plano ou seguro de saúde pode discriminar um beneficiário, promovendo aumentos extorsivos para obrigá-lo a buscar outro convênio”, completa Murtinho.

A compra de um número de celular com determinada operadora também é um momento em que consentimos o uso de nossos dados sem expresso consentimento. Dados que agora estão sendo oferecidos para os governos como forma de monitorar o cumprimento do isolamento em diversas cidades. “De certa forma, a pandemia abriu a caixa-preta do monitoramento de dados e deixou um pouco mais evidente para o cidadão comum a existência dessa captação. Agora, temos uma sociedade com muito medo e mobilizada para conter o coronavírus e com uma tendência a aceitar formas de monitoramento mais invasivas. Na realidade, já vivíamos uma certa naturalização do monitoramento de nossos dados e comportamentos em troca de serviços, praticidade, conforto; agora, temos o apelo de estarmos salvando vidas. É preciso ver que há uma armadilha aí, uma falsa escolha, pois não precisamos abrir mão da proteção de nossos dados para garantir a saúde; podemos ter as duas coisas, avalia Bruno.

Para Murtinho, estamos vivendo um período em que os recursos digitais estão sendo utilizados com cada vez mais intensidade, nas diversas atividades, gerando inúmeros bancos de dados com informações pessoais. “A entrada em vigor da LGPD é fundamental, pois não temos formas efetivas de regulação que garantam a proteção dos dados e, desta forma, os agentes públicos e privados ficam mais livres para coletar, tratar, transferir, e promover cruzamentos de dados sem autorização expressa dos verdadeiros donos dessas informações, o cidadão. Mesmo diante das necessidades específicas para o combate à pandemia, existe a chance de se avançar em um monitoramento excessivo. É preciso que a sociedade tenha uma visão crítica sobre essas estratégias e sobre as necessidades efetivas de monitoramento que expõem a privacidade das pessoas”, diz o pesquisador do Icict. Ele lembra que a LGPD foi inspirada na legislação da União Europeia, que já está em vigor.

Impacto pessoal e coletivo

Fernanda também é a atual coordenadora do MediaLab da UFRJ, laboratório que tem se dedicado a investigar os efeitos do bigdata, coleta massiva de dados, em nossa sociedade. Para a pesquisadora, a sociedade civil está em uma relação de desigualdade diante da capacidade de captação de dados das grandes corporações.

Para além da violação da privacidade individual, ela destaca a dimensão social e coletiva do efeito da personalização. De acordo com a pesquisadora, ainda que os dados sejam totalmente anonimizados, os padrões encontrados pelos algoritmos podem influenciar em tomadas de decisões individuais a partir do perfil de gênero, etnia, faixa de renda e gostos expressados nas redes. “Por um lado, a personalização é interessante, seja de anúncios, seja de recomendação, mas ao mesmo tempo não consigo ver nem dimensionar o que não é mostrado para mim por não se encaixar no perfil que estou enquadrada. Os algoritmos definem o tipo de paisagem informacional por onde navegamos e influenciam naquilo que tenho acesso”, comenta.

Se por um lado algumas sugestões de sites, notícias, produtos ou serviços parecem ter sido escolhidos sob medida, Fernanda também alerta para um aspecto nefasto desse excesso de enquadramento. “Pesquisas já mostraram o poder de viés das buscas. Um dos exemplos marcantes é a busca por emprego exibir resultados de menor remuneração para o público feminino”, diz. Outro alerta é para o espectro das opiniões que estamos sujeitos a aceitar com mais facilidade. “No espectro político, a ultrassegmentação dos conteúdos também é problemática e há hipóteses de que ela tenha uma parcela de influência na polarização política que vivemos hoje, por exemplo. Claro que a questão é mais complexa, mas os efeitos coletivos e políticos dessa mediação algorítmica do debate e da paisagem política é fundamental. Pois há uma mediação que é praticamente invisível e é ignorada por um número enorme de pessoas. Se não conheço, não consigo negociar, questionar”, finaliza.

porCIPERJ

Inscrições para prêmio Mulheres na Ciência podem ser feitas até 22 de maio

fonte: Faperj

Foram prorrogadas até o dia 22 de maio as inscrições para o programa Para Mulheres na Ciência, que este ano comemora 15 anos no Brasil. Realizado pela L´Oréal, em parceria com a Unesco no Brasil e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), o prêmio tem como objetivo promover e reconhecer a participação da mulher na ciência, favorecendo o equilíbrio dos gêneros no cenário brasileiro.

Todo ano, na edição local, sete jovens pesquisadoras das áreas de Ciências da Vida, Ciências Físicas, Ciências Químicas e Matemática são contempladas com uma bolsa-auxílio de R$ 50 mil cada, para dar prosseguimento aos seus estudos. As vencedoras serão conhecidas a partir de agosto.

Para participar, é necessário que a candidata tenha concluído o doutorado a partir de 1° de janeiro de 2013, tenha residência estável no Brasil, desenvolva projetos de pesquisa em instituições nacionais, entre outros requisitos.

Ao longo destes 15 anos, o prêmio Para Mulheres na Ciência já reconheceu e incentivou 96 cientistas brasileiras, premiando a relevância dos seus trabalhos, com a distribuição mais de R$ 4,2 milhões em bolsas-auxílio. O regulamento completo e mais informações sobre o programa estão disponíveis no site do prêmio.

Mais informações:  www.paramulheresnaciencia.com.br

porCIPERJ

CREMERJ divulga nota de esclarecimento e repúdio à remuneração de Telemedicina proposta por algumas operadoras de saúde

fonte: CREMERJ

O CREMERJ vem a público apresentar seu repúdio à remuneração de telemedicina proposta por algumas operadoras / planos de saúde.

Como fundamentação, segue abaixo parte do texto de nossa assessoria jurídica sobre o tema:

Neste contexto de pandemia caracterizado pela recomendação de isolamento social, afigurou-se urgente a edição de uma Lei para versar sobre a realização de Telemedicina. A Lei Federal nº 3.9898 de 15/04/2020, anuncia que “dispõe sobre o uso da telemedicina especialmente durante a crise causada pelo coronavírus (SARS-CoV-2).”

Contudo, a referida Lei limita-se a autorizar, em caráter emergencial, a prática da Telemedicina durante a crise ocasionada pelo Covid-19, definindo-a como o exercício da medicina mediada por tecnologias. Trata-se de prescrições genéricas que carecem de regulamentação que permitam a prática com segurança ao médico e à sociedade.

Seu artigo 5º especialmente, deixa clara a necessidade de regulamentação quanto às especificidades da prática do ato e da ética médica. Transcreve-se:

“Art. 5º A prestação de serviço de telemedicina seguirá os padrões normativos e éticos usuais do atendimento presencial, (…)”

Neste particular, cumpre ao respectivo Conselho de Fiscalização Profissional – CRMs – regulamentar a matéria de acordo com o que preconiza o Código de Ética Médica.

O Poder regulamentar é a prerrogativa conferida à Administração Pública de editar atos gerais para complementar as leis em sentido estrito, ou seja, aquelas emandas do Poder Legislativo – possibilitando sua efetiva aplicação. Seu alcance é de norma complementar à lei,  não podendo criar direitos ou obrigações mas tão somente, regulamentar a Lei, sob pena de invadir competência do Poder Legislativo, característica do sistema tripartite de poderes.

Justamente sob esta ótica encontra-se a Resolução CREMERJ nº 305/2020. Embora editada e vigente pouco antes da Lei Federal nº 3.9898, é plenamente compatível e foi amparada pela legislação. A normativa infralegal é, portanto, decorrente do Poder Regulamentar conferido aos CRMs para viabilizar o cumprimento das Leis.

Com a necessidade imediata de manutenção dos serviços de saúde em meio à pandemia, tornou-se inevitável a prática da medicina por meio digitais, nos termos definidos pelas normas vigentes já expostas.

No entanto, em tempos de mudança e instabilidade nos mais diversos setores, surge-se o questionamento sobre a forma de remuneração do médico que atenda por meio da telemedicina, indagação esta motivada principalmente pela notícia de recusa de pagamento de honorários médicos pelas operadoras de plano de saúde.

A Lei nº 13.989/2020 se preocupou em abordar sobre a remuneração do médico, deixando claro que não compete ao Poder Público o pagamento pelos serviços prestados por telemedicina, vejamos:

Art. 5º A prestação de serviço de telemedicina seguirá os padrões normativos e éticos usuais do atendimento presencial, inclusive em relação à contraprestação financeira pelo serviço prestado, não cabendo ao poder público custear ou pagar por tais atividades quando não for exclusivamente serviço prestado ao Sistema Único de Saúde (SUS).

Pela leitura do dispositivo legal fica explícito que a remuneração do médico que presta serviço por meio da telemedicina deve permanecer seguindo os mesmos critérios de um atendimento presencial. Vale dizer que a medicina também compreende uma atividade de cunho privado e exige contraprestação ao profissional que presta seus serviços em caráter particular.

A Resolução CREMERJ nº 305/2020, por sua vez, também corrobora com o destacado na legislação e deixa a critério do médico a cobrança de honorários no uso da telemedicina de acordo com o que fora ajustado com o paciente previamente, vejamos:

Art. 8º Fica a critério médico a cobrança de seus honorários conforme valores definidos previamente à consulta, sendo possível a utilização de termo de consentimento.

Neste contexto, merece destaque o Código de Ética Médica, norma balizadora da conduta ética da profissão, que ao discorrer sobre princípios fundamentais do exercício da medicina afirma que:

III – Para exercer a medicina com honra e dignidade, o médico necessita ter boas condições de trabalho e ser remunerado de forma justa.

Em seguida, em seu Capítulo II, o Código de Ética Médica afirma em seu inciso X que é direito do médico estabelecer seus honorários de forma justa e digna.

Percebe-se que a regulamentação da telemedicina em nada alterou a forma de pagamento dos serviços médicos, que devem continuar com habitualidade e na mesma medida de uma consulta presencial. A disposição é tão inequívoca que fora repetida por todas as normativas que tratam da telemedicina e pelo Código de Ética Médica.

A negativa ou forma discriminatória com redução de pagamento de honorários médicos que atendem por meio de telemedicina deve ser prontamente revista, principalmente quando emanadas por operadoras de plano de saúde.

Vale dizer que o descumprimento da norma vigente no que tange à remuneração profissional pode corresponder a prática de cartel, por pressupor acordo implícito entre as operadoras de plano de saúde para não remunerarem os médicos em uso da telemedicina.

A Lei nº 8.137/90 dispõe que constitui crime contra a ordem econômica punível com reclusão de 2 a 5 anos e multa o abuso do poder econômico, dominando o mercado ou eliminando, total ou parcialmente, a concorrência mediante qualquer forma de ajuste ou acordo de empresas e inclui também como crime a formação de acordo, convênio, ajuste ou aliança entre ofertantes, visando à fixação artificial de preços ou quantidades vendidas ou produzidas.

Além da conduta supostamente corresponder a prática de crime, também dá indícios de infração administrativa, nos moldes descritos no art. 36 da Lei nº 12.5529/11, que elenca extensa lista de infrações à ordem econômica, puníveis com multa e sanções condizentes com a ação danosa.

Por fim, destaca-se que a recusa do pagamento de honorários médicos decorrentes do serviço prestado por meio de telemedicina pode também indicar infração ética pelo responsável técnico da unidade inscrito nos Conselhos Regionais de Medicina, nos termos dos arts. 18, 19, 20 e 21 do Código de Ética Médica, que diz ser vedado ao médico:

Art. 18. Desobedecer aos acórdãos e às resoluções dos Conselhos Federal e Regionais de Medicina ou desrespeitá-los.

Art. 19. Deixar de assegurar, quando investido em cargo ou função de direção, os direitos dos médicos e as demais condições adequadas para o desempenho ético-profissional da medicina.

Art. 20. Permitir que interesses pecuniários, políticos, religiosos ou de quaisquer outras ordens, do seu empregador ou superior hierárquico ou do financiador público ou privado da assistência à saúde, interfiram na escolha dos melhores meios de prevenção, diagnóstico ou tratamento disponíveis e cientificamente reconhecidos no interesse da saúde do paciente ou da sociedade.

Art. 21. Deixar de colaborar com as autoridades sanitárias ou infringir a legislação pertinente.

Sendo assim, não há embasamento jurídico para a recusa de remuneração por serviços médicos prestados mediante o uso da telemedico.

Concluímos que a telemedicina se faz necessária em época de pandemia declarada e foi devidamente autorizada por meio da Lei nº 13.989/2020, que garante o pagamento de remuneração ao médico de presta seus serviços de forma virtual, tal como seria feito em um atendimento presencial. A Resolução CREMERJ nº 305/2020 também disciplina a questão e ratifica a cobrança de honorários pelo serviço prestado, desde que previamente informado ao paciente.

Portanto a negativa ou forma discriminatória com redução de pagamento de honorários médicos pelas operadoras de plano de saúde, além de constituir descumprimento legal, também pode corresponder a crime e infração administrativa, além de ir de encontro com os preceitos contidos no Código de Ética Médica, devendo ser revista de imediato.

Rio de Janeiro, 04 de maio de 2020

SYLVIO SERGIO NEVES PROVENZANO

Presidente

porCIPERJ

Coronavírus: pandemia provoca redução no número de transplantes e doadores de órgãos

fonte: BBC

Há pouco mais de três anos, a bibliotecária Letícia dos Santos Nascimento, de 40 anos, moradora de São Paulo, entrou para a fila do transplante. Desde os 11 anos, ela sofre de glomerulonefrite, inflamação do glomérulo, parte do rim responsável pela filtragem do sangue e a formação da urina.

Depois de vários tratamentos, em 1999 seus rins pararam de funcionar completamente e ela teve de iniciar a hemodiálise (procedimento que limpa e filtra o sangue). Em 2002, fez o primeiro transplante, tendo a mãe como doadora viva. Porém, seu corpo nunca aceitou muito bem o novo órgão e nem os medicamentos que precisava tomar.

Quase 15 anos depois, retomou a hemodiálise e agora aguarda um doador compatível — no Brasil, pelos dados de dezembro de 2019 do Registro Brasileiro de Transplantes (RBT), são mais 37,9 mil pacientes ativos na mesma situação.

A grande questão é que, pelo menos por enquanto, a pandemia causada pelo novo coronavírus está afetando a realização deste tipo de procedimento em todo o país.

Segundo a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) e o Sistema Nacional de Transplantes (SNT), a diminuição no número de doadores, entre 1º de março e 18 de abril, na comparação com o mesmo período do ano passado, é de 9% e a no de transplantes, 20%.

“Eu até prefiro que a cirurgia não aconteça agora, pois não gostaria de ficar no hospital no meio desse caos todo. O problema é que meu transplante certamente vai demorar ainda mais, e isso assusta um pouco”, comenta a bibliotecária. “Enquanto o dia não chega, sigo com a hemodiálise, que faço três vezes por semana, e é o único motivo para eu sair de casa”, acrescenta.

Razões para as quedas

São muitas as razões que explicam a queda no índice de doadores e de transplantes realizados no Brasil neste período de pandemia.

Uma delas, segundo José Huygens Garcia, presidente da ABTO, é a restrição de leitos em alguns Estados e cidades. “À medida que o coronavírus avança, são necessários mais leitos nos hospitais, inclusive na UTI, e isso dificulta a realização dos procedimentos.”

Apesar disso, o médico ressalta que vários centros de transplantes não estão na retaguarda da covid-19 e, portanto, continuam operando.

“A ABTO, inclusive, recomenda manter os transplantes ativos o quanto for possível. Os de fígado, coração e pulmão são vitais. Eles salvam a vida da maioria dos pacientes, que, se não transplantados, sucumbirão em semanas ou meses”, afirma. “No Ceará, por exemplo, já perdemos este ano 12 que estavam na fila aguardando um fígado novo”, acrescenta.

No caso dos renais, Garcia diz que uma suspensão possivelmente aumentaria a lista de espera para diálise, causando dois problemas: “O primeiro é que, se as vagas não forem disponibilizadas, essas pessoas também irão sucumbir, e segundo, mesmo fazendo a diálise, os doentes têm uma chance maior de adquirir doenças virais, por estarem no grupo de risco, terem de se deslocar três vezes na semana, às vezes pegando transporte público lotado, e dividir unidades com aglomerados de pacientes por várias horas”.

Os demais transplantes, como de córnea e pâncreas, o presidente da entidade relata que podem até ser postergados, mas não abolidos completamente.

Outro ponto que tem interferido na realização dos procedimentos, indica Omar Cançado Lopes, coordenador do MG Transplantes, órgão responsável pela política de transplante no Estado de Minas Gerais, é a diminuição dos casos de trauma, como acidentes de trânsito, em função do isolamento social.

“A estimativa na minha região é de queda de 55%, mas acredito que esse índice seja parecido no Brasil todo. O impacto disso no número de transplantes é direto porque essas vítimas são responsáveis por entre 40% e 50% das doações de órgãos e tecidos”, afirma o médico.

A negação familiar também tem sido apontada como um fator importante. “A recomendação do Ministério da Saúde, e apoiada pela ABTO, é de que todo potencial doador seja testado para covid-19 — em caso afirmativo, ele deve ser descartado. Só que o resultado dos exames tem demorado, no mínimo, 12 horas para sair, e muitas famílias não querem esperar esse tempo todo, para não retardar o velório e o funeral”, pontua Garcia.

O médico adianta que a entidade que preside está lutando para que os testes tenham prioridade, justamente para evitar as negativas e as desistências: “Entendemos o drama acarretado pela pandemia atual, mas não podemos deixar a alma do transplante morrer. Milhares de pacientes dependem da doação de órgãos e, consequentemente, dos transplantes para sobreviverem”.

Para Lopes, do MG Transplantes, é fundamental que as pessoas se conscientizem sobre a importância do tema. “Nesse momento, especialmente, precisamos contar com a solidariedade das famílias em autorizar a doação, uma vez que teremos menos possíveis doadores”, avalia, destacando que, em Minas Gerais, a queda no número de procedimentos já chega a 30%.

Leon Alvin, nefrologista do Hospital Leforte Liberdade, de São Paulo, pondera que a suspensão da doação de órgão de doador vivo, quando considerada eletiva (não urgente), é mais um fator que explica a queda.

“Esse tipo de procedimento foi paralisado para evitar expor o doador e, principalmente, o receptor, ao risco do coronavírus”, explica o médico.

O hospital onde ela atua, inclusive, tem sentido bastante os efeitos da pandemia. Lá, para se ter uma ideia, entre janeiro e abril de 2019, foram realizados 72 transplantes (rim, fígado e pâncreas). Este ano, no mesmo período, foram 46.

Recomendações para os pacientes que estão na fila do transplante

Enquanto aguardam o transplante, a principal recomendação para os pacientes que estão na fila, por fazerem parte do grupo de alto risco do coronavírus, é que se mantenham isolados o máximo possível e redobrem os cuidados no dia a dia, até mesmo dentro de casa.

Justamente o que tem feito Letícia, e também o comerciante José Antônio de Oliveira, de 51 anos. Morador de Belo Horizonte, ele está na lista há pouco mais de um mês devido à complicações (câncer no fígado e cirrose hepática) decorrentes da hepatite C.

Segundo associação do setor, a pandemia do novo coronavírus fez o número de doadores cair 9% e de transplante, 20%.

“Só saio para fazer exames e passar por consultas, e sempre uso máscara. Também fico longe de aglomerações e uso álcool em gel o tempo todo. Quando retorno, vou direto tomar banho e trocar de roupa. Eu e minha família também evitamos ficar muito perto, nos abraçar ou beijar. Nossos hábitos mudaram”, relata.

Os hospitais também têm tomado suas precauções. O Leforte Liberdade, por exemplo, está trocando as consultas presenciais pelas online, sempre que possível.

“Aqui, recebemos apenas os pacientes que têm muita necessidade. Para os que precisam fazer exames, temos alguns horários reservados e um setor específico, separado dos demais. Uma vez lá, coletamos o material o mais rápido possível e, depois, passamos os resultados por chamada de vídeo”, informa Alvin.

Ele complementa: “Temos de proteger esses pacientes ao máximo, pois, como fazem parte do grupo de risco da covid-19, as chances de terem as manifestações mais graves da doença são maiores, e as de virem a óbito também”.

Se mesmo com todos os cuidados a pessoa que aguarda a doação de órgão apresentar algum sintoma da contaminação pelo coronavírus — ou mesmo qualquer sinal de piora da doença já existente —, a orientação da ABTO é entrar em contato imediatamente com a equipe responsável pelo transplante ou com o sistema de saúde da cidade.