Arquivo mensal julho 2020

porCIPERJ

Na Justiça, decisões reforçam a necessidade de aprovação no Revalida para formado no estrangeiro exercer a medicina no País

fonte: CFM

Decisões recentes da Justiça têm reafirmado que só podem ser considerados médicos aqueles que se formaram no exterior, passaram em exame conduzido pelo Ministério da Educação para revalidação de diplomas e se inscreveram nos Conselhos Regionais da Medicina (CRMs).

Contudo, alguns governadores e prefeitos têm tentado burlar as exigências legais e conduzir processos administrativos próprios para contratar portadores de diplomas médicos obtidos em outros países e que não conseguiram cumprir as etapas previstas. Contra essas atitudes, o Conselho Federal de Medicina (CFM), com o apoio dos Regionais (CRMs) e de outras entidades médicas, tem buscado na Justiça defesa contra as irregularidades.

Umas das últimas quedas de braço aconteceu na Bahia, onde a 14ª Vara Federal Cível da Seção Judiciária local acatou a argumentação do CFM para suspender a criação da Brigada Emergencial de Saúde do Nordeste (Brigada SUS/NE). Instituída por meio de uma Resolução do chamado Consórcio Nordeste, a iniciativa pretendia viabilizar que estados realizassem exames próprios de revalidação de diplomas de medicina obtidos no exterior, ignorando determinações legais que estabelecem o Ministério da Educação.

Segundo o entendimento da juíza federal Cynthia de Araújo Lima Lopes, o Consórcio estava afrontando a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação e a Lei que instituiu o Revalida. A norma invadia ainda a competência legislativa reservada privativamente à União, ao dispensar requisitos para revalidação de diplomas de curso superior. Na sua decisão, a juíza afirmou que a possibilidade iminente de inserção no mercado de trabalho de profissionais médicos não qualificados configuraria um risco para a população.

Acre – Outra decisão teve origem no Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), em Brasília (DF), que, em 21 de maio, impediu o governo do Acre de contratar candidatos não aprovados no Revalida. Dias antes, a justiça federal do Estado havia autorizado a expedição de licença provisória para a atuação durante o período de calamidade pública de profissionais sem habilitação.

O juiz Federal Rodrigo Navarro de Oliveira, do TRF-1, acatou a argumentação do Conselho Regional de Medicina do Acre (CRM-AC) e da União, determinando a suspensão do ato em primeira instância. Na sentença destacou que “a denominação de ‘médico’ é privativa dos graduados em cursos superiores de Medicina, e o exercício da profissão, dos inscritos no Conselho Regional de Medicina com jurisdição na respectiva unidade da Federação”. Para o magistrado, é imprescindível que os pretendentes ao exercício da profissão cumpram com as exigências estabelecidas pelo sistema conselhal.

Amapá – Também em maio, a 6ª Vara Federal Cível do Amapá manteve a exigência do Revalida para médicos formados no exterior. Prefeituras de 15 municípios amapaenses haviam ingressado na Justiça para contratar médicos sem Revalida para atuarem no combate à Covid-19. No entendimento do Judiciário, médicos poderão ser contratados em caráter temporário ou emergencial somente após a realização do exame, conforme prevê a legislação em vigor.

“O pronunciamento judicial é claro no sentido de que os profissionais, cubanos ou estrangeiros, desde que submetidos ao Revalida (…) poderão ser contratados”, diz trecho da decisão judicial.

São Paulo – No dia 14 de maio, a 17ª Vara Cível Federal de São Paulo também acolheu pedido do CFM e manteve a exigência do Revalida em todo o país. De acordo com a liminar concedida pelo juiz Marcelo Guerra Martins, a situação de pandemia não justifica “permitir a contratação de profissionais médicos que não atendam a requisitos legais”. Com a decisão, ficou suspensa a ação civil pública movida pela Defensoria Pública da União (DPU), que buscava impor ao Governo Federal, em caráter excepcional e temporário, que viabilizasse a contratação de brasileiros e estrangeiros habilitados para o exercício da medicina no exterior sem a necessidade do Revalida.

Para o magistrado, “conforme bem exposto pelo CFM”, através do Revalida, é possível reduzir o risco de expor pacientes a profissionais sem a devida qualificação. Segundo ele, o exame tem como objetivo verificar a aquisição de conhecimentos, habilidades e competências requeridos para o exercício profissional adequado aos princípios e às necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS), em nível equivalente ao exigido dos médicos formados no Brasil. A Coordenação Jurídica do CFM (Cojur) tem trabalhado para que a decisão da 17ª Vara Cível de São Paulo tenha validade em todo o território nacional.

Roraima – Um dos últimos casos de excesso no que se refere ao cumprimento do Revalida ocorreu em Roraima. O Governo local anunciou a pretensão de contratar médicos formados no exterior sem registro no Conselho Regional de Medicina de Roraima (CRM-RR) para atuarem em um hospital de campanha destinado a pacientes com Covid-19.

Juntos o CFM, o CRM-RR e ao Sindicato dos Médicos de Roraima (Sindmed-RR) tentam na Justiça para barrar essas contratações. Além do apoio jurídico, o presidente do CFM, Mauro Ribeiro, gravou um vídeo em que presta apoio aos médicos de Roraima e coloca a autarquia à disposição dessa luta “que é de todos os médicos brasileiros”.

O presidente ressaltou que a luta hoje travada pelo CRM-RR e pelo Sindimed-RR, com o apoio do CFM, é de interesse de todos os médicos brasileiros. “Um dos pilares do movimento médico brasileiro é que o médico para trabalhar no Brasil tem de estar registrado no CRM. Não abrimos mão. O que está acontecendo em Roraima é de fundamental importância para o movimento médico de todo o Brasil. Vamos fazer de tudo para barrar essa agressão”, afirmou Mauro Ribeiro no vídeo.

“Essa é mais uma tentativa de agressão à medicina brasileira, mais um casuísmo causado pelas autoridades locais no sentido de trazer supostos médicos formados no exterior para atuarem no território brasileiro, sem a competência para tanto”, afirmou. O presidente do CFM lembrou que em outubro o Inep fará um novo Revalida, quando os médicos formados no exterior poderão fazer as provas, comprovar suas habilidades e, se aprovados, registrarem-se nos CRMs e começarem a atuar no país.

porCIPERJ

OMS divulga novas diretrizes para enfrentamento da pandemia

fonte: Agência Brasil

O diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, anunciou na última semana que a organização atualizou a resposta à pandemia. Segundo Guebreyesus, cinco novas diretrizes guiarão as decisões e recomendações repassadas a todos os países a partir de agora.

“Há seis meses, nenhum de nós poderia imaginar como o nosso mundo, e nossas vidas, seriam jogadas em tantas incertezas por esse novo vírus. Nesses seis meses, a OMS e nossos parceiros trabalharam incessantemente para ajudar todos os países na resposta a esse novo vírus”, disse.

As diretrizes anunciadas pelo médico são o empoderamento de comunidades, a supressão da transmissão, o salvamento de vidas, a aceleração de pesquisas e a liderança política. Segundo Ghebreyesus, as diretrizes são resultado de trabalho conjunto entre pesquisadores, clínicos e especialistas para “destilar ciência em evolução para gerar conhecimento”.

Dexametasona

Durante a apresentação das novas diretrizes, o diretor-geral da OMS citou um medicamento específico, a dexametasona, quando se referiu ao salvamento de vidas. A OMS já havia se manifestado sobre os efeitos da medicação em casos graves da covid-19. Segundo estudos iniciais, o corticosteróide reduziu em até 30% as mortes em pacientes que desenvolveram o sintoma mais agressivo da covid-19, a síndrome respiratória aguda grave (SRAG). “Prover oxigênio e dexametasona para pessoas com doença severa e em estado crítico salva vidas”, argumentou.

A dexametasona é um medicamento que circula desde a década de 1960, e é prescrita para reduzir a resposta inflamatória do corpo em doenças autoimunes. A droga também é utilizada para tratar certos tipos de câncer, como lúpus. A dexametasona não possui patente ativa, sendo um medicamento de baixo custo e amplamente acessível em diversas localidades.

Segunda onda

O chefe da OMS voltou a alertar que ainda há muitas pessoas suscetíveis e que ainda há muitos lugares que não foram afetados pela presença do vírus, o que possibilita uma nova escalada no contágio. “Alguns países estão passando por um aumento de casos durante a reabertura das economias e das sociedades, mas a dura realidade é [que] não estamos nem perto do final. Apesar do progresso de muitos países, globalmente a pandemia está se acelerando. Estamos todos juntos e ficaremos juntos durante toda essa longa jornada”.

porCIPERJ

Com saúde básica, cidades conseguem frear Covid-19

fonte: Folha de SP

Com dores de cabeça e no corpo, perda do olfato e do paladar, vômito e febre, a secretária Ariana dos Santos, 27, de São Caetano do Sul, ligou para um 0800. Foi orientada sobre o que deveria fazer e recebeu em casa um kit de autocoleta de secreções da garganta e do nariz para o teste da Covid-19.

Em 48 horas, foi avisada que o resultado deu positivo e teve que se isolar por 14 dias. Durante o período, esteve monitorada a distância por profissionais da saúde.

“Como tinha um número de telefone para acionar caso tivesse qualquer problema, fiquei mais tranquila. Me recuperei em casa, tive sorte”, diz.

O teste domiciliar feito pela Prefeitura de São Caetano do Sul (SP), em parceria com a universidade municipal (USCS), é um dos exemplos de cuidados oferecidos na atenção primária à saúde (APS), a porta de entrada do SUS.

Entre as iniciativas adotadas durante a emergência sanitária, há também monitoramento de doentes crônicos, principal grupo de risco para complicações e morte pela infecção. O agravamento dessas condições se devem a uma sobrecarga do SUS após a pandemia, a chamada terceira onda.

Mais de mil experiências em atenção primária estão concorrendo a uma premiação da Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) e do Ministério da Saúde. As inscrições se encerram no próximo dia 15.

Em São Caetano, há cinco programas de testagem, entre eles, o domiciliar que atendeu Ariana, um em sistema de drive-thru, em que pacientes fazem o teste no carro, e um outro em bloqueios de trânsito (barreiras sanitárias). Ao todo, foram testadas mais de 38 mil pessoas, o que representa 24% da população.

No caso de resultado positivo na testagem domiciliar, por exemplo, um médico da atenção primária vai até a casa do paciente, faz avaliação clínica e mede o nível de oxigênio no sangue (oximetria).

“Tivemos casos encaminhados direto para internação”, diz a secretária municipal da Saúde, Regina Zetone.

Nos bloqueios de trânsito, é aferida a temperatura de motoristas e passageiros. Quem tiver febre e alteração nos níveis de oxigênio é submetido ao teste rápido no local. Caso o resultado seja positivo, o morador é atendido em uma carreta ao lado do Hospital Municipal de Emergências.

São Caetano também é o primeiro município do Brasil a testar idosos, inclusive os que vivem em asilos. A cidade possui um dos maiores índices de longevidade do país (78 anos) e tem 21% da população de idosos (cerca de 34 mil).

Para Zetone, o cuidado ofertado pela atenção primária e os testes em massa são os responsáveis pelas baixas taxas de letalidade e de ocupação de UTIs pela Covid-19 (que chegou a 60% e hoje está em 28%).

Até o último dia 30, a cidade tinha 1.924 casos confirmados, com uma taxa de letalidade de 4,4% (86 mortos). “Pelo perfil mais envelhecido da nossa população, poderia se esperar um cenário muito pior”, diz a secretária.

As unidades básicas de saúde permaneceram abertas, mas com fluxos diferentes para quem tiver sintomas gripais. Para não terem que ir até as unidades de saúde, idosos receberam seus medicamentos em casa e tiveram a validade de suas receitas ampliadas.

Em Belo Horizonte (MG), também houve uma iniciativa de manter o cuidado com doentes crônicos, como diabéticos e hipertensos.

Segundo a médica de família e comunidade Juliana Santos, da gerência da APS da Secretaria Municipal de Saúde, desde o início da pandemia, em março, os usuários deixaram de procurar por atendimentos nas unidades de saúde. Por isso, foi elaborada uma lista com os dados dos que tinham condições crônicas mais complexas. Esse material foi distribuído a todas as equipes de saúde da família.

“Se o usuário estiver dentro de um período de controle adequado é oferecido para ele o teleatendimento. Se não estiver controlado ou se estiver há mais de três meses sem consulta, a equipe chama para consulta presencial”, explica.

Foram agregados à listagem os usuários acamados, os egressos de hospitais e os com uso de medicamentos controlados.

De acordo com Maria José Evangelista, assessora técnica do Conass, há uma preocupação com a terceira onda que virá pós-pandemia.

“Em muitos municípios, está havendo um descontrole de quem tem hipertensão, diabetes, dos idosos que frequentam as unidades”, disse ela em debate online do Portal da Inovação na Gestão do SUS.

O médico Renato Tasca, coordenador de sistemas e serviços de saúde da Opas no Brasil, lembra que experiências de países que fecharam a APS para colocar os profissionais de saúde nos hospitais de campanha, como a Itália e a Espanha, foram dramáticas.

Elas causaram a interrupção do cuidado às pessoas com sintomas leves de Covid-19 e também àquelas que dependem da atenção primária.

Quatro dias após confirmar o primeiro caso de Covid-19, a prefeitura de Florianópolis(SC) lançou um serviço de atendimento clínico por telefone. As equipes de saúde da família receberam celulares para atender os usuários e responder mensagens pela WhatsApp.

Em abril, primeiro mês do serviço, foram mais de 40 mil atendimentos. Desses, ao menos 7.000 eram pessoas com sintomas gripais e que deixaram de circular pela cidade em busca de consulta presencial.

No entanto, o atendimento por telefone não fechou as portas das unidades de saúde. Segundo João Silveira gerente de atenção primária da Secretaria da Saúde de Florianópolis, foram criados fluxos diferenciados, com salas específicas para pacientes com sintomas respiratórios.

Ao receber e triar os casos leves na atenção primária, a pressão sobre os hospitais é reduzida. O sucesso não aparece nos indicadores, diz Filipe Perini, gerente de integração assistencial da secretaria.
“Ninguém diz os leitos de UTI que a APS evitou, ninguém diz as mortes que ela evitou, justamente porque ela conseguiu detectar os casos de uma maneira rápida ou precoce”, afirma.

Em Teresina (PI), a prefeitura reservou 23 unidades básicas de saúde, de um total de 90, para atender aos pacientes suspeitos e confirmados de Covid-19. Nas unidades e nas visitas domiciliares são testadas cerca de mil pessoas por dia.

Cerca de 27% dos testes são positivos. Os dados são enviados para um sistema que importa a lista de casos confirmados das redes pública e privada.

A relação dos pacientes é enviada para um grupo de enfermeiros, que monitora os sintomáticos e identifica os contatos a serem testados.

A capital do Piauí trabalha com um número de Whatsapp em que é possível agendar o teste de Covid-19.

“A gente conseguiu evitar a circulação de pessoas possivelmente infectadas e o agravamento do quadro da infecção”, diz Andréia Sena, da diretoria de atenção básica da Fundação Municipal de Saúde (FMS)

Na clínica da família Ana Maria Conceição dos Santos Correia, na zona norte do Rio de Janeiro, um profissional da saúde fica na parte externa da unidade e direciona para uma sala de isolamento os usuários com sintomas respiratórios.

Segundo o médico de família e comunidade Marcio Silva, os suspeitos de Covid-19 são cadastrados em uma planilha de telemonitoramento e localizados no mapa do bairro. “Se a pessoa piora, a gente a inclui na rota de visita domiciliar ou a encaminha para uma UPA”, conta.

​Com a ferramenta de georreferenciamento, os profissionais elaboraram estratégias diferentes de acordo com o perfil de usuários, de vídeos sobre contraceptivos para as redes sociais à arrecadação de alimentos para as famílias mais vulneráveis.

porCIPERJ

Na linha de frente da Covid-19, residentes querem repor o período na formação

fonte: Folha de SP

Deslocados para atuar na linha de frente no tratamento ao novo coronavírus, médicos residentes deixaram de lado o aprendizado prático da sua área de especialização para tratar apenas dos doentes por Covid-19. Agora, eles temem que o tempo dedicado ao combate à pandemia prejudique a formação, já que o período pode não ser reposto.

É o caso de Sérgio Duarte, 29, que faz residência em urologia no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Ele foi deslocado para atuar na enfermaria e, desde março, calcula que teve uma redução de cerca de 70% nas atividades que deveria realizar originalmente. A previsão de voltar à normalidade é setembro.

“Minha especialidade tinha cerca de 10 a 15 cirurgias por dia e atualmente estamos tendo 3 a 4 no máximo, só de urgência. Isso gerou um acúmulo de pacientes aguardando e prejudicou a nossa formação como especialistas”, diz ele.

No HC, um dos hospitais de referência no tratamento da Covid-19 no estado com maior número de casos e vítimas do país, foi feita uma força-tarefa e todos os residentes foram mobilizados direta ou indiretamente para atuar no enfrentamento da pandemia.

A mudança prejudicou com mais força algumas áreas, como ginecologia, pediatria, cirurgia e oftalmologia, por exemplo.

Agora, com a redução de casos na capital paulista, o complexo hospitalar ligado à USP [Universidade de São Paulo] começa a se desmobilizar. E a posição do hospital, segundo os médicos residentes, é de que o período não será reposto. A próxima formatura é em fevereiro de 2021.

A residência é uma modalidade de pós-graduação, sob a forma de curso de especialização em instituições de saúde, costumam ter duração de dois ou três anos, são remuneradas com uma bolsa paga pelo Ministério da Saúde ou pelas secretarias estaduais da Saúde e conferem o título de especialista aos médicos.

“Sempre nos colocamos à disposição para ajudar nesse momento sem precendentes. É nosso papel como médico. Mas isso não pode servir de desculpa para não termos a formação adequada”, afirma Duarte, que se contaminou com o novo coronavírus no fim de abril.

Ao menos 214 médicos residentes do HC se infectaram, o que corresponde a 12,5% do total de 1.700. Alguns chegaram a ser internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas não houve mortes.

Para Renata Mencacci, 25, que coordena a Associação de Médicos Residentes da USP, o Hospital das Clínicas foi o mais afetado do estado com o aumento de pacientes e a necessidade de redistribuição de tarefas, mas profissionais de outros hospitais pelo país devem sentir o mesmo impacto nos próximos meses.

“Pedimos que estendessem o prazo da formatura. Isso envolveria adiar a entrada de novos residentes e garantir a extensão da bolsa. A resposta que recebemos é de que fariam no máximo uma reposição voluntária. Mas esse é o nosso trabalho, nós precisamos do dinheiro”, afirma Mencacci, que deveria ter feito nos últimos meses gastrocirurgias, cirúrgias de cabeça e pescoço e plásticas. Não fez.

“Me deixa preocupada saber que agora eu vou ter uma formação prejudicada, que esses procedimentos serão feitos de forma deficitária, por um tempo encurtado. Isso vai ter repercussão no meu futuro e, em consequência, para o sistema de saúde. Vou ser uma média pior”, diz ela.

No início de junho, a Comissão Nacional de Residência Médica (CNRM), órgão do Ministério da Educação que decide as diretrizes sobre o tema para todo o país, divulgou uma nota onde afirma que os programas de residência, “antes planejados para acontecer em etapas anuais e executado em rodízios ou estágios, necessitará de flexibilidade na estrutura do programa para se adequar à realidade sócio-sanitário do momento”.

A reposição de atividades não desenvolvidas por conta da pandemia, segue o documento, “uma vez retomada a normalidade, será objeto de análise e decisão posterior pela CNRM”.

Informalmente, no entanto, a comissão indicou que não deve haver reposição, com todos os programas sendo concluídos no fim de fevereiro de 2021. O residente que se sentir prejudicado poderia até repor o período, mas como voluntário.

“Há uma letargia do Ministério da Educação, que não define nada sobre o assunto. Isso gera insegurança entre os gestores públicos e entre os médicos”, diz Arthur Sapia, presidente da Associação dos Médicos Residentes do Estado de São Paulo e secretário-geral da Associação Nacional dos Médicos Residentes.

No estado, segundo Sapia, metade dos residentes dizem sentir necessidade de repor o período. “É heterogêneo, algumas áreas não precisam. Mas imagina um neurocirurgião que perdeu cinco meses da sua formação? A maior prejudicada é a própria população”, afirma.

Tanto o Ministério da Educação quanto o Ministério da Saúde vivem momentos de instabilidade na gestão, com troca de titulares pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Em meio à pandemia, a pasta da Saúde já teve três ministros e o MEC, dois. O último deixou o cargo antes mesmo da cerimônia de posse.

porCIPERJ

Estudo analisa a saúde mental dos profissionais em ambiente hospitalar durante a pandemia

fonte: Faperj

A pandemia causada pelo novo coronavírus impôs mudanças à rotina de toda a população, gerando uma onda de distúrbios psicológicos associados ao estresse, como depressão e ansiedade. No mês de março, cerca de 2,6 bilhões de pessoas em todo o mundo entraram em quarentena — o equivalente a aproximadamente um terço da população global. Até o momento, estima-se que houve 60.713 óbitos apenas no Brasil, segundo boletim divulgado pelo Ministério da Saúde nesta quarta-feira, 1º de julho, fora os casos subnotificados. Para os profissionais da área de Saúde, que estão na linha de frente do combate à Covid-19, os impactos psicológicos podem ser ainda mais graves. Com o objetivo de analisar a ocorrência e predisposição desse grupo a desenvolver o transtorno de estresse pós-traumático, um grupo de pesquisa multidisciplinar coordenado pelas neurocientistas Leticia Oliveira e Mirtes Pereira, ambas da Universidade Federal Fluminense (UFF), está avaliando a saúde mental dos trabalhadores de hospitais e Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) de todo o País, no projeto PSIcovidA (www.psicovida.org).

O contexto atual é especialmente difícil para os profissionais que lidam diretamente com a doença em ambiente hospitalar. “O testemunho de diversas mortes em um curto espaço de tempo, a dificuldade de acesso a Equipamentos para Proteção Individual (EPIs), o medo de contaminação pelo vírus e de sua transmissão aos familiares, o isolamento e o trabalho exaustivo fazem com que a saúde mental destes profissionais possa ser abalada de maneira grave e definitiva”, contextualiza Leticia. “Esse projeto de pesquisa propõe investigar, inicialmente por meio de um questionário disponível no site do projeto, a saúde mental dos profissionais que trabalham no ambiente hospitalar e nas UPAs, desde médicos, enfermeiros e técnicos, incluindo outras categorias, como recepcionistas e prestadores de serviço que vivem a rotina hospitalar”, acrescentou.

A partir da coleta de dados, a equipe do projeto — formada por neurocientistas, psiquiatras, epidemiologistas e psicólogos — espera gerar evidências científicas para auxiliar os gestores públicos na formulação de políticas de prevenção e acompanhamento da saúde mental dos profissionais de Saúde. “Precisamos elaborar políticas públicas que minimizem o sofrimento e reduzam o desenvolvimento de patologias graves nesse grupo de profissionais, especialmente o transtorno do estresse pós-traumático. Para isso, é importante termos um embasamento científico da situação”, justificou Mirtes, que coordena junto com as professoras Leticia e Isabel David o Laboratório de Neurofisiologia do Comportamento (Labnec), do Instituto Biomédico da UFF. As três pesquisadoras receberam apoio da FAPERJ para a realização de suas pesquisas por meio do programa Cientista do Nosso Estado.

O trabalho envolve uma colaboração entre pesquisadores da UFF, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio). Antes da pandemia, o grupo já vinha há alguns anos trabalhando com a investigação dos sintomas do transtorno do estresse pós-traumático em decorrência de outras circunstâncias, como a violência urbana. “Esse transtorno pode ter como comorbidade a depressão, mas ele é diferente. Trata-se de uma doença psiquiátrica considerada uma sequela importante em pessoas expostas a situações de risco de vida, violência física ou sexual”, explicou o psiquiatra William Berger, coordenador na Pós-graduação em Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub).

De acordo com Berger, o transtorno do estresse pós-traumático tem quatro grupos de sintomas: a Revivência (a pessoa tem flashbacks da situação que gerou trauma); o Comportamento evitativo (o paciente não consegue voltar ao local onde ocorreu a situação em questão e, no caso do profissional de saúde que sofre dessa doença durante a pandemia, ele não consegue voltar ao hospital, apresentando sintomas físicos como tremores e angústia quando se aproxima do local de trabalho); as Cognições negativas (são o sentimento de culpa pelo fato ocorrido e, no caso, o profissional de Saúde se culpa porque perdeu um paciente com Covid-19); e a Hiperexcitabilidade (episódios de raiva intensa, preocupação, insônia, dificuldade de concentração e hipervigilância, nos quais a pessoa apresenta uma resposta de sobressalto exagerada, tem sintomas de noradrenalina no corpo o tempo todo, como se estivesse sempre reagindo a uma situação de perigo).

Leticia explica que nem todas as pessoas submetidas a situações traumáticas vão desenvolver esse transtorno, mas que é importante conhecer os fatores que favorecem o seu desenvolvimento e também os fatores que podem contribuir para que elas não desenvolvam essa doença psiquiátrica. “Sabemos que, entre as pessoas que passam por situações de trauma, cerca de 10% desenvolve esse transtorno. A pesquisa vai ajudar a entendermos, dentro da realidade dos profissionais de Saúde, qual a média daqueles que a desenvolvem e que fatores geram mais vulnerabilidade ou não. Como o isolamento social, vivido mais intensamente pelos profissionais de Saúde, que já trabalham em longas escalas de plantão, por exemplo, pode ser uma variável que se relaciona ao desenvolvimento do transtorno? Ou ainda, as pessoas que apresentam imobilidade tônica, ou seja, que ficam com o corpo literalmente paralisado, sem ação, diante de uma situação de risco, têm mais propensão a desenvolver o transtorno? Verificaremos essas e outras variáveis”, detalhou.

Um dado que reforça a importância do estudo é a experiência chinesa durante a pandemia. “Em diversos estudos publicados por pesquisadores chineses, divulgou-se que 70% dos profissionais de Saúde em atividade na China durante a pandemia apresentaram sintomas compatíveis aos do transtorno de estresse pós-traumático. No Brasil, ainda não temos conhecimento dessa estatística”, justificou Berger. “Estamos passando por uma situação nova na história da humanidade. Mesmo após o fim da pandemia de coronavírus, ainda teremos uma epidemia paralela de doenças mentais, não só pela insegurança de adquirir a doença, mas pela perda de amigos, familiares e efeitos da quarentena. Essa pesquisa vai gerar indicadores de como isso está afetando a população que lida diretamente com pacientes com Covid-19 e que medidas devem ser tomadas de saúde pública, suporte farmacológico e atendimento psicoterápico, agindo também de maneira preventiva”, completou Mirtes.

O projeto é tema da tese de doutorado em desenvolvimento por Camila Gama, orientanda de Leticia e Mirtes na UFF. Também participam do grupo: o psiquiatra Mauro Mendlowicz, professor da UFF; a professora Eliane Volchan, chefe do Laboratório de Neurobiologia do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da UFRJ (IBCCF) e membro do Laboratório Integrado de Pesquisa do Estresse (Linpes/UFRJ) do Instituto de Psiquiatria da UFRJ (Ipub); o professor Ivan Figueira, da Faculdade de Medicina da UFRJ; a médica Mariana da Luz, assistente e preceptora da residência médica da UFRJ; a médica psiquiatra Liliane Vilete, da UFRJ; Fátima Erthal, coordenadora do Programa de Neurobiologia do IBCCF/UFRJ; a professora Izabela Mocaiber, da UFF, campus Rio das Ostras; a professora Gabriela Souza, do Departamento de Ciências Biológicas na Ufop; a professora Roberta Benitez, da UniRio; Liana Portugal, bolsista pelo programa de pós-graduação em Ciências Biomédicas (Fisiologia/Farmacologia) e Honorary Research Associate na University College London; a pós-doutoranda Raquel Gonçalves, do Laboratório de Neurofisiologia do Comportamento da UFF; a psicóloga Camila Gama, doutoranda do programa de pós-graduação em Neurologia e Neurociência do Hospital Universitário Antônio Pedro – Huap/UFF); a graduanda em Ciências Biológicas (Bacharelado) pela UFF Emmanuele Santos e o bolsista de Iniciação Científica Sérgio de Souza Júnior, graduando em Psicologia pela Faculdades Integradas Maria Thereza (Famath).

Pessoas que trabalham em ambiente hospitalar ou UPAs, independentemente da atividade que exerçam, e estejam interessadas em contribuir com informações para o projeto, podem preencher o formulário, disponível aqui.

porCIPERJ

Soperj realiza evento online nesta terça-feira abordando Eular 2020

A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) realiza nesta terça-feira, dia 7, evento online que tratará de highlights do Eular 2020. O evento ocorre a partir das 19h30.

ACESSAR A SALA NO ZOOM

 

porCIPERJ

Alergia alimentar é tema de evento online da Soperj nesta quinta-feira

A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) realiza nesta quinta-feira, dia 2, evento online sobre Alergia Alimentar. O evento ocorre a partir das 18h e pode ser acompanhado pelo perfil da sociedade no Instagram (@soperjrj).

porCIPERJ

Soperj realiza evento online nesta sexta-feira sobre estilo, imagem e comportamento na Pediatria

A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) realiza nesta sexta-feira, dia 3, evento online que tratará de Estilo, Imagem e Comportamento na Pediatria. O evento ocorre a partir das 18h e as inscrições são gratuitas.

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porCIPERJ

Soperj realiza videoconferência sobre uso de telas em tempos de pandemia

A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) realiza nesta quinta-feira, dia 2, videoconferência abordando o uso de telas em tempos de pandemia. O evento ocorre a partir das 19h e as inscrições são gratuitas.

FAÇA SUA INSCRIÇÃO

porComunicação CIPERJ

CIPERJ e Dasa realizam Live sobre diagnóstico contemporâneo de doenças congênitas das vias urinárias

A importância da parceria entre a CIPERJ e a Dasa foi destacada na abertura da live, que conectou cerca de 140 participantes, na noite desta terça-feira, dia 30.

A presidente da CIPERJ, Dra. Lisieux Eyer de Jesus, e o diretor médico do CDPI e Alta RJ, Dr. Pedro Daltro, foram os moderadores do evento que teve como tema Diagnóstico contemporâneo de doenças congênitas das vias urinárias.

A primeira palestrante foi a Dra. Bianca Guedes Ribeiro, que falou sobre Ressonância Magnética Nuclear funcional. Ela é radiologista pediátrica das clínicas CDPI e Alta, e também do IFF, Hospital Municipal Jesus, Perinatal e Hospital das Américas.

Na sequência, Dra. Tatiana Fazecas abordou Ultrassonografia transperineal. Ela é radiologista pediátrica, Mestre em saúde materno infantil pela UFF, Chefe do Serviço de Imagem do Hospital Municipal Jesus, Membro titular do Colégio Brasileiro de Radiologia e da Sociedade Latino-americana de Radiologia Pediátrica e Vice-presidente da Sociedade Latino-americana de Radiologia Pediátrica.

O terceiro e último palestrante foi o Dr. Luiz Machado que falou sobre Cintilografia renal dinâmica. Ele é Médico do INCA e Chefe do Serviço de medicina nuclear do Hospital Federal dos Servidores do Estado e também preceptor da Residência Médica (Medicina Nuclear) do INCA.

Após as apresentações, houve amplo debate entre os palestrantes, moderadores e foram respondidas perguntas do público.

Para o Dr. Pedro Daltro é válida a realização de mais lives que apresentem temas relevantes para a cirurgia e a medicina diagnóstica.

Ao encerrar a sessão, Dra. Lisieux agradeceu ao Dr. Kleber Moreira Anderson, ex-presidente da CIPERJ, e membro do Departamento Profissional da atual diretoria, que colaborou de forma significativa para realização do encontro.