Arquivo mensal setembro 2020

porCIPERJ

Unimeds entram na mira de Hapvida e NotreDame para consolidação da saúde

fonte: Exame

A pandemia do novo coronavírus vai acelerar a tendência de consolidação do setor de saúde, que já era um dos mais aquecidos da economia. De um lado estão grandes operadoras de saúde com modelo verticalizado, como Hapvida e Grupo NotreDame Intermédica (GNDI), que ficaram (ainda mais) capitalizadas com a queda da sinistralidade em ritmo maior do que o tombo das receitas; na outra ponta, os alvos serão cooperativas do sistema Unimed, que dominam o mercado regional, além de clínicas e hospitais. É o que avalia a JK Capital, consultoria especializada em fusões e aquisições no setor, em estudo para EXAME.

A avaliação da consultoria é que, diante da série de aquisições realizadas por Hapvida e NotreDame Intermédica nos últimos meses e anos, os potenciais alvos de aquisição em planos de saúde têm se tornado cada vez mais escassos, ao mesmo tempo em que o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (o Cade) deve limitar aquisições nas principais praças onde esses grupos já possuem participações relevantes.

“Para continuar a crescer, o caminho para esses grupos será adentrar em outras regiões. Mas são localidade onde em muitos casos não existem tantos ativos para aquisição e a Unimed é líder”, diz Luís Mazzarella Martins, sócio da JK Capital. A Unimed é líder de mercado em 123 de um total de 137 mesoregiões do país, segundo mapeamento feito pela consultoria.

Nos últimos meses, Hapvida e NotreDame Intermédica já anunciaram uma série de aquisições: a Hapvida, por exemplo, desembolsou 320 milhões de reais pelo Grupo São José, com forte atuação no Vale do Paraíba, no interior de São Paulo (o negócio foi assessorado pela JK Capital pelo lado do vendedor); e o GNDI pagou 1 bilhão de reais em agosto para adquirir a Medisanitas, com operação ampla em Minas Gerais.

Economia de 11,4 bilhões

As medidas de isolamento social e o temor de contágio pelo novo coronavírus derrubaram de forma acentuada e disseminada os índices de sinistralidade, ou seja, de uso da apólice pelos segurados, de todos os ramos do setor de saúde. Na média, a taxa de sinistros caiu de 81,5% no primeiro semestre de 2019 para 71,7% no mesmo período em 2020. Isso representou uma economia de 11,4 bilhões de reais em despesas para as empresas, de seguradoras e cooperativas às operadoras que administram os planos de saúde.

Para a Hapvida, a sinistralidade caiu de 76,9% para 58,8%, representando uma economia de 522 milhões de reais nos seis primeiros meses do ano. Para a NotreDame Intermédica, a taxa recuou menos, de 73,2% para 69,1%: o gasto caiu 184 milhões de reais.

As receitas do setor, por sua vez, sofreram com a queda abrupta da demanda. Mas esse recuo aconteceu em ritmo menos acentuado: a queda foi de 2,63%, o equivalente a 1,68 bilhão de reais para a indústria de saúde consolidada. O segmento mais afetado foi o de cooperativas médicas, com recuo médio de 4,67% no faturamento no primeiro semestre na comparação anual. É a categoria em que se enquandram as Unimeds, que atendem mais de 17 milhões de beneficiários. São 347 cooperativas administradas de forma autônoma.

“Muitos grupos estão com caixa para fazer a consolidação do setor”, afirma Martins. Ele aponta que, além das Unimeds, haverá forte movimento de aquisições na parte da cadeia que engloba os prestadores de serviços, como clínicas e hospitais. São empresas que sofreram forte impacto nas receitas com o adiamento de cirurgias e internações.

Uma das razões para a queda maior da receita das Unimeds é que cobram mensalidades mais elevadas, o que acaba se tornando um fator de vulnerabilidade no mercado em um momento de forte crise: as cooperativas trabalham com tíquetes médios acima de 400 reais por mês, enquanto Hapvida e GNDI, cujo modelo vertical é considerado mais eficiente, conseguem cobrar valor médio mais baixo, perto de 200 reais.

No modelo verticalizado, operadoras de saúde controlam todas as etapas do atendimento ao paciente, da consulta ao médico especialista, passando pelos exames, até cirurgias e internações em clínicas e hospitais. É um modelo que ganhou espaço ao longo da última década graças a um melhor gerenciamento de custos e ganho de eficiência.

A questão que fica para as operadoras e os demais players do setor de saúde, como seguradoras, é se a queda na sinistralidade significa uma demanda reprimida que pode explodir quando uma eventual vacina for aprovada ou se vai representar um novo padrão de menor utilização dos serviços privados de saúde, ao menos no curto e médio prazo.

porCIPERJ

Cuidados Paliativos Pediátricos é tema de webinar nesta quarta

A Soperj em parceria com o Instituto Desiderata realiza nesta quarta-feira, dia 30, Live! sobre Cuidados Paliativos Pediátricos, a partir das 18h.

ACESSE O EVENTO

porCIPERJ

Portaria SCTIE-MS nº 32 institui testagem universal para hepatite viral c em gestantes no pré-natal

fonte: Cremesp

O Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp) informa a publicação da Portaria n° 32, de 19 de agosto, por parte da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde (SCTIE-MS), que torna pública a decisão de incorporar a testagem universal para hepatite viral C em gestantes no pré-natal, conforme protocolo do MS, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

De acordo com o artigo 2 do texto, o prazo máximo para efetivação da oferta ao SUS é de cento e oitenta dias, como determina o art. 25 do Decreto n° 7.646/2011.

O relatório de recomendação da Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS (Conitec), referente a esta tecnologia, estará disponível no site //conitec.gov.br, conforme disposto no art. 3.

Saiba mais, clicando aqui.

porCIPERJ

Pai que deixa de vacinar não quer o bem do filho, diz mãe do último caso de pólio do Brasil

fonte: BBC Brasil

Deivson tinha por volta de um ano e meio quando apresentou os primeiros sintomas. A coriza e a febre resistiam aos remédios quando, de um dia para o outro, o garoto, que já andava por todo lado, perdeu os movimentos do corpo. “Ficou como um bebê de 1 mês, sabe? Molinho, molinho”, relembra a mãe, Devaneide Rodrigues Gonçalves.

Uma pediatra de Sousa, cidade do sertão paraibano onde a família mora desde aquela época, foi quem levantou a possibilidade de o garoto ter contraído poliomielite. Mas o diagnóstico só poderia ser confirmado por exames a seis horas de carro dali, na capital João Pessoa.

O ano era 1989, e a família só saberia muitos meses depois que Deivson era o último caso registrado de poliomielite no país.

Ao ver o filho caçula doente, Devaneide logo lembrou do irmão de cinco anos que perdeu na década de 1970 para a mesma doença. “Foi rápido demais. Coisa de uma semana meu irmão faleceu. Muito triste. Mas naquela época a medicina não era tão avançada, nem vacina tinha pra gente.”

Deivson passou meses internado no Hospital Universitário em João Pessoa, onde passou por diversas sessões de fisioterapia até “começar a fazer tudo de novo, sentar, engatinhar, andar se segurando e depois andar sozinho”, relembra sua mãe.

Sem sequelas físicas, Deivson, hoje com 32 anos, está prestes a se tornar bacharel em educação física e realizar o sonho de ser personal trainer.

A recuperação não significa que doença se tornou só uma lembrança para a família. Eles já participaram de eventos para incentivar a vacinação, e Deivson faz parte da entidade G14, associação de apoio a pacientes de poliomielite e síndrome pós-pólio, voltada para orientação, capacitação e suporte a pacientes, familiares e profissionais de saúde.

“A participação nesses eventos na Paraíba, por exemplo, é realmente para dar uma reforçada e uma alertada aos pais para vacinar seus filhos. É importante o meu testemunho para dar um incentivo para levar ao posto de vacinação”, afirma Deivson.

Para ele, as pessoas perderam a noção da gravidade da doença porque ela não circula mais há décadas. “O vírus é agressivo, ele deixa sequelas e as pessoas não estão ligando mais, ficaram relaxadas, mas corre muito risco de voltar. Não se deve baixar a guarda, principalmente com as crianças.”

Mãe e filho defendem que a vacinação seja obrigatória para todos, ao contrário do que defendeu o presidente Jair Bolsonaro (em relação a vacinas contra o novo coronavírus).

“O presidente é um pouco radical, né, mas é importantíssimo vacinar para evitar que aconteça o pior. É obrigação dos pais vacinar os filhos. Se for questão de amor mesmo, tem que vacinar. Ninguém quer ver seus entes queridos doentes, com sequelas ou morrendo. Para mim, deveria ser obrigação vacinar”, diz Deivson.

Vacinas contêm geralmente formas enfraquecidas ou inativadas de vírus ou bactérias que não colocam a saúde em risco. O corpo então identifica esses micróbios, produz defesas contra eles e cria uma espécie de memória de combate que servirá contra ataques futuros por anos ou décadas.

“Só quem não sabe o que eu passei deixa de vacinar seus filhos”, diz Devaneide. Na sua opinião, “quem não leva eles para tomar vacina é porque não quer o bem deles”, mas é dever do poder público fazer sua parte e incentivar, educar e fazer campanhas de vacinação.

“Em 2020, o Brasil deveria comemorar 30 anos sem pólio, mas, a nossa realidade é assustadora, com grande parte dos 5.570 municípios brasileiros com alto risco de reintrodução da doença por apresentarem cobertura vacinal abaixo dos níveis mínimos esperados”, afirma boletim da Secretaria da Saúde do Estado da Paraíba.

Segundo reportagem do jornal Folha de S.Paulo, em 2019, pela primeira vez em quase 20 anos, o Brasil não atingiu a meta para nenhuma das principais vacinas indicadas a crianças de até um ano.

A vacina contra a pólio, que tinha quase 100% de cobertura vacinal em 2008, atingiu o patamar de 82,7% em 2019.

Recuperação e vacinação

Devaneide atribui a recuperação do filho caçula a um milagre divino e às três doses da vacina que ele já havia recebido antes de ficar doente. Ela diz só não sentir culpa porque seu filho estava com a carteira de vacinação em dia.

Não é possível concluir, décadas depois, o que exatamente aconteceu com Deivson, mas há algumas hipóteses.

“A vacina de pólio tem grande eficácia de maneira geral. Obviamente pode haver casos em que a pessoa não desenvolve a imunidade adequadamente: predisposição genética, falha vacinal por não ter cumprido o calendário completamente ou corretamente, e no caso da vacina oral algum problema na hora da administração (criança cuspiu, por exemplo) ou interação com alimentos ou medicamentos”, explica o imunologista Renato Astray, pesquisador do setor de vacinas do Instituto Butantan.

Segundo Astray, o fato de Deivson ter recuperado os movimentos plenamente pode significar que ele tinha algum nível de imunidade previamente à infecção. Provavelmente por causa das doses da vacina que tomou.

Para Astray, a possibilidade de a infecção ter sido causada pela vacina ou por problemas de armazenamento é bem baixa.

“Não acredito no armazenamento inadequado nesse caso pois a vacina é multidose aplicada em campanhas. Ou seja, ele não seria um caso isolado. Existe ainda a chance de pólio vacinal, mas isso deveria ter sido investigado durante a doença. Como é caso isolado, eu também tenderia a descartar.”

Segundo um estudo de dois pesquisadores da Universidade Federal da Bahia e de um do Ministério da Saúde, o risco observado para a poliomielite associada ao vírus vacinal (VAPP) entre 1995 e 2001 foi de 1 em 10 milhões para todas as doses tomadas. Apenas dez casos de VAPP foram registrados no Brasil nesse período de quase sete anos.

A vacinação contra a pólio continua ao redor do mundo porque 1 dos 3 tipos de poliovírus selvagem ainda circula pelo mundo, mais especificamente no Afeganistão e no Paquistão. Em agosto deste ano, após décadas de campanhas, o continente africano conseguiu ser declarado livre da doença por um órgão independente.

Sem a erradicação completa desses 3 tipos, a doença tem o potencial de afetar até 200 mil crianças por ano, segundo a Opas, braço da Organização Mundial da Saúde (OMS) para América Latina e Caribe.

Vacina reduziu 99% dos casos

Conhecida também como paralisia infantil, a poliomielite é uma doença infecciosa, contagiosa, viral e aguda. Os sintomas incluem febre, mal-estar, dor de cabeça, dor de garganta, dores no corpo, vômitos, diarreia, espasmos, rigidez na nuca e até mesmo meningite. De 90% a 95% dos casos são assintomáticos.

A característica mais conhecida da doença é o quadro de paralisia flácida que surge em até três dias, em geral de forma permanente nos membros inferiores. Essas sequelas físicas, que atingem menos de 1% dos pacientes, incluem dores nas articulações, pé torto, osteoporose, dificuldade de falar, atrofia muscular, crescimento diferente das pernas, entre outros.

Segundo a Opas, “1 em cada 200 infecções leva a uma paralisia irreversível (geralmente das pernas), e entre eles, 5% a 10% morrem por paralisia dos músculos respiratórios”.

Há duas décadas, pesquisadores descobriram também a existência de uma síndrome pós-poliomielite (SPP), que pode atingir pessoas que tiveram a doença com ou sem sintomas. Essa condição as afeta quando elas completam 40 anos de idade, mais ou menos.

Não há estatísticas sobre o número total de pessoas atingidas por essa síndrome, que pode apresentar sintomas como fraqueza muscular, problemas respiratórios e depressão.

Não há tratamento nem para a poliomielite, nem para a SPP, causada pelo desgaste dos neurônios motores que precisaram compensar os neurônios destruídos anos antes pelo vírus.

Apesar de ser uma doença antiga, a pólio não chamava a atenção da comunidade médica até o século 19, quando a medicina começou a se dividir em especialidades.

Foi na segunda metade daquele século que começaram a surgir hospitais e clínicas dedicados a áreas como a ortopedia, a neurologia e a pediatria.

Nesse novo contexto, as vítimas da pólio passaram a chamar a atenção dos médicos – especialmente os casos de paralisia infantil que afetavam crianças menores de 6 anos de idade, e principalmente quando os afetados eram meninos.

Muitos deles começavam a demonstrar os sintomas de forma repentina: iam dormir com a saúde perfeita, começavam a ter febre e de manhã acordavam sem conseguir sentir ou mover as pernas.

O modo de transmissão mais comum é de uma pessoa infectada para outra via rota fecal-oral, a exemplo do contato direto com água e comida contaminadas com fezes ou falhas de higiene pessoal. A doença também pode ser transmitida pela via oral-oral, por meio de tosse, espirro ou mesmo gotículas de água que saem ao falarmos.

As principais medidas preventivas são saneamento básico e vacinação, que levou à redução de 99% dos casos no mundo desde 1988.

Zé Gotinha e a estratégia bem-sucedida do Brasil

O Brasil recebeu o certificado de país livre do vírus em 1994, quase 90 anos depois dos primeiros casos relatados em território nacional. Ao longo desse período, houve surtos inicialmente em grandes cidades e depois em localidades do interior, movimento em geral associado à urbanização.

A primeira vacina contra a poliomielite chegou ao país em 1955. Era a vacina injetável desenvolvida pelo médico americano Jonas Salk a partir do vírus inativado. Após três doses, 99% das pessoas desenvolviam imunidade. Na década seguinte chegaria a versão em gotinhas, desenvolvida por Albert Sabin com um vírus atenuado. Com ela, 95% das pessoas que receberam três doses ficavam imunes.

O primeiro plano do país de controle a doença surgiu no início dos anos 1970. Um artigo de três pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre a erradicação da doença no país cita dados levantados em meados daquela década.

Foram identificados 1.643 casos em 18 Estados. “As principais características da doença no país, naquele momento, eram sua distribuição predominantemente urbana (74%), a concentração em menores de cinco anos, uma elevada proporção de casos em crianças não vacinadas (76%), a predominância do poliovírus do sorotipo 1 (87%) e uma elevada letalidade.”

A primeira campanha nacional de vacinação contra a poliomielite ocorreria em junho de 1980. Até então, a imunização nos Estados só atingia metade das crianças, em média. O plano então seria vacinar todas as crianças do país de zero a cinco anos em 14 de junho e 16 de agosto, independentemente de já ter tomado a vacina ou não. E assim elevar para 80% a cobertura vacinal.

Defendida por Albert Sabin, a estratégia de campanhas de vacinação em massa deu certo, e o número de casos caiu de 1.290 em 1980 para 122 no ano seguinte. Naquela década, a vacina em gotas ficou tão associada ao combate à poliomielite que deu origem ao personagem Zé Gotinha, criado em 1986 pelo artista plástico Darlan Rosa. O mascote se tornaria o principal rosto das campanhas de vacinação.

O país ainda enfrentaria surtos isolados de pólio até registrar seu último caso, em março de 1989. A estratégia bem-sucedida contra pólio seria exportada para outros países e teria outras consequências positivas, como o fortalecimento do programa nacional de imunização.

Desde 2011, entretanto, a vacinação contra a poliomielite não é só oral. Agora, a criação de Sabin é apenas o reforço da versão injetável, considerada por alguns especialistas como mais segura e com menos efeitos colaterais.

Segundo o bioquímico Ricardo Gazzinelli, coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Vacinas, pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), essa mudança na vacina só foi possível porque a doença está erradicada no Brasil.

“A vacina por via oral usa vírus vivo; a injetada contém o vírus ‘morto’. Ainda que as vacinas vivas induzam imunidade mais duradoura, quando você chega numa fase de erradicar uma doença, a viva é indesejada, pois a atenuação do vírus pode reverter, tornando-se patogênico de novo. E se espalhar na natureza novamente”, explicou em entrevista à BBC News Brasil em julho. “Neste caso, se opta por vacinas ‘mortas’.”

Por outro lado, as gotinhas têm um efeito da chamada “proteção de rebanho” — a criança que a ingere, acaba contribuindo para que o vírus não se espalhe. Isto porque na versão injetável, com o vírus inativado direto na corrente sanguínea, não ocorre uma colonização da mucosa intestinal.

A gotinha, por sua vez, faz isso com o vírus atenuado — que, eliminado pelas fezes espalha-se no ambiente, imunizando terceiros que tenham contato com ele. De quebra, esse vírus atenuado compete com o selvagem na natureza.

Para além da vacina utilizada, a queda na cobertura vacinal como um todo preocupa autoridades e especialistas quanto a um possível retorno da doença.

porCIPERJ

Por que os EUA foram a única potência ocidental a rejeitar o sistema de saúde universal após a 2ª Guerra Mundial

fonte: BBC Brasil

Após as guerras devastadoras das primeiras décadas do século 20, os países ricos garantiram que todos os seus cidadãos tivessem acesso à saúde, com exceção dos Estados Unidos, onde todos os esforços falharam neste sentido.

O que aconteceu para que ela acabasse sendo então (e ainda) a única democracia rica sem cobertura de saúde universal?

Harry Truman tornou-se presidente nos últimos meses da 2ª Guerra Mundial, substituindo seu antecessor, Franklin Delano Roosevelt (FDR), que havia morrido no cargo.

Quando a guerra terminou, Truman começou a cuidar dos assuntos internos.

Roosevelt havia investido milhões de dólares em programas públicos para ajudar a resgatar os Estados Unidos da derrocada financeira da Grande Depressão. Mas o chamado “new deal” de FDR deixou um elemento de fora: Harry Truman tentou consertá-lo.

“Ao pensarmos sobre a saúde da nação, devemos reconhecer um fato básico: o custo dos cuidados de saúde é proibitivo para muitos milhões de nosso povo”, declarou Truman na época.

“Ele substituiu o ‘new deal’ pelo que chamou de ‘fair deal’ e, como parte de sua agenda, se tornou o primeiro presidente dos Estados Unidos a endossar um plano nacional de seguro saúde e enviou ao Congresso a mensagem de que apoiava a legislação para criá-lo”, diz Jonathan Oberlander, professor de medicina social da Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, à BBC News Mundo, o serviço de notícias em espanhol da BBC.

“Não estou falando apenas sobre os muito pobres ou muito ricos, mas sobre todos os milhões entre eles”, esclareceu Truman.

“Essas pessoas às vezes são condenadas à morte simplesmente porque não são nem ricas nem pobres o suficiente para se conformarem ao esquema que temos neste país no campo da medicina moderna”.

Reino Unido

Na época, o maior aliado dos Estados Unidos em tempos de guerra, o Reino Unido, estava elaborando os detalhes para lançar um novo e ambicioso sistema nacional de saúde baseado no atendimento gratuito.

Como a agência de notícias Pathe anunciou, “médicos, centros de saúde e hospitais britânicos ficarão sob o controle do Estado no Serviço Nacional de Saúde (NHS)…”.

A partir de 5 de julho de 1948, “todo homem, mulher e criança poderá obter atendimento médico. Não haverá mais contas para pagar médicos” , explicou um funcionário britânico no relatório.

Embora os conselheiros de Truman estivessem interessados no plano do Reino Unido, o presidente deixou claro que não queria nacionalizar a saúde, ele apenas queria mudar o sistema de pagamento.

Plano

“Ele enfatizou que os médicos permaneceriam em seus consultórios particulares, que o governo não iria nacionalizar os hospitais ou gerenciá-los. Tudo o que Truman queria que o governo fizesse era organizar o pagamento dos cuidados médicos por meio de um programa de seguro”, assinala Oberlander.

O programa de seguro seria obrigatório: por lei, todos os trabalhadores pagariam por sua assistência médica por meio de mensalidade ou imposto, que seria de aproximadamente 4% do seu rendimento.

A seguradora pagaria os hospitais, repartindo os custos pela população para que os mais desfavorecidos não fossem penalizados por ficar doentes.

“Há 110 milhões de pessoas neste país que não podem pagar pelos cuidados médicos adequados. Isso é uma pena no país mais rico do mundo”, criticou o presidente.

Oposição dos médicos

Na verdade, os americanos mais progressistas vinham tentando aprovar um esquema de seguro saúde obrigatório desde 1915, influenciado pelo Reino Unido e pela Alemanha, que ofereciam auxílio-doença e tratamento médico gratuitos para alguns trabalhadores.

“Eles presumiram que venceriam porque estavam certos… e essa atitude definiu a mentalidade dos progressistas da saúde do século 20”, diz Oberlander.

“Achavam lógico adotar o plano de saúde, que pagasse as despesas dos trabalhadores doentes, daria acesso aos cuidados médicos e deixaria a população mais saudável”, diz o especialista em medicina social.

“Eles acreditavam que seu argumento era tão razoável que todos sairiam convencidos, mas acontece que argumentos sensatos muitas vezes não prevalecem.”

E um dos principais motivos pelos quais a proposta não seguiu adiante foi a oposição dos médicos.

“Eles estavam preocupados com sua autonomia, a capacidade de praticar a medicina como bem entendessem e queriam manter sua autonomia financeira – estabelecer seus próprios termos de pagamento – não estar subordinados a seguradoras públicas ou privadas: eles queriam trabalhar de forma independente”.

Saúde, riqueza e paz

Era comum os médicos se oporem a tais planos e, em 1946, tiveram sorte, pois o partido da oposição, o Republicano, assumiu o controle do Congresso e o projeto acabou engavetado.

Mas em 1948, Truman fez campanha para reconquistar o Congresso e eleger-se para um novo mandato como presidente.

E relacionou saúde com riqueza e paz.

“Melhor saúde significará mais prosperidade e uma nação mais poderosa. É nossa responsabilidade liderar o mundo em direção à paz duradoura”, disse.

“Os Estados Unidos perdem US$ 27 bilhões por ano da riqueza nacional com doenças e invalidez. Acho que estes fatos demonstram a necessidade do programa nacional de saúde que insto ao Congresso que adote”, disse o presidente.

“Ele venceu a eleição e foi uma grande surpresa, e os democratas ganharam a maioria no Congresso, então em 1949 Truman tinha toda a intenção de promover o seguro saúde nacional. Para a Associação Médica Americana, foi como a chegada do apocalipse”, diz Oberlander.

“Lenin disse…”

Chocada, a entidade contratou uma empresa de relações públicas.

Naquela época, começava a Guerra Fria entre o leste comunista e o oeste capitalista, e a campanha dos médicos vinculava o seguro saúde nacional ao socialismo.

“Circulou uma citação que foi reproduzida por aquela empresa de relações públicas que dizia: ‘Lenin declarou que a medicina socializada é a chave para o arco do Estado socialista'”, lembra Oberlander.

“Parecia que a medicina socializada fazia parte de um plano para tornar a América comunista! A verdade é que Lênin nunca disse isso, o que não significa que essa citação tenha sido amplamente usada”.

“Portanto, grande parte da campanha – que foi a campanha de lobby mais cara da época – se concentrou na ideia de transformar o debate sobre saúde em socialismo”.

O governo Truman não tinha estratégia para neutralizar o efeito da campanha de relações públicas, exceto para dizer “eles estão mentindo”.

Aliança

Mas, de acordo com o professor Oberlander, o fator crítico para o fracasso em aprovar a legislação foi o fato de o Congresso, embora dominado por democratas, ser impulsionado por um grupo maior de alianças partidárias tradicionalistas.

“A coalizão conservadora era uma aliança de republicanos e democratas do sul no Congresso. Como os afroamericanos não estavam representados, muitos dos democratas eleitos para o Congresso eram na verdade muito conservadores.

“Essa coalizão interrompeu não apenas o seguro saúde nacional, mas todos os outros planos de Truman. Como em tantas ocasiões, quando você explica a história americana, o papel do racismo é parte dessa história.”

A batalha foi perdida.

Levaria anos até que o primeiro plano de seguro parcial do governo, o Medicare, fosse aprovado para idosos em 1965.

Mas Oberlander diz que a visão de Truman de cobertura universal, de saúde como um direito humano, ainda está muito distante da realidade americana.

“O que temos nos Estados Unidos não é um sistema de seguro saúde, mas um não sistema, e há acionistas nessa manta de retalhos, incluindo dezenas de milhões de americanos que estão felizes com o seguro saúde que têm, e eles resistem à mudança”.

“O que perdemos de vista é o custo humano: se um trabalhador tem um membro da família com câncer, ele pode ir à falência… como isso pode acontecer em um país tão rico?

“Não deveria ser assim”, conclui Oberlander.

porCIPERJ

SUS completa 30 anos com conquistas e desafios

fonte: Agência Brasil

Reconhecido como um dos maiores sistemas de saúde pública do mundo, o Sistema Único de Saúde (SUS) completa neste sábado (19) 30 anos. Na avaliação do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, o SUS se tornou essencial. “Não existe outra saída para o nosso país com relação à saúde, que não seja o Sistema Único de Saúde forte e eficiente”, disse. Os próximos 20 anos, acrescentou, já estão em elaboração pela pasta “Estamos montando ações estruturantes com projetos estratégicos em todas as áreas, como Saúde Digital, Projeto Genoma, entre outras, que estão sendo finalizadas”, disse o ministro.

Na avaliação do ministério, com a pandemia do novo coronavírus (covid-19), é possível constatar a força e importância do SUS, que atende cerca de 70% da população. Sob a gestão e união dos três entes – governo federal, estados e municípios – a pasta diz que foi possível garantir assistência aos pacientes infectados pela covid-19 e o atendimento daqueles que necessitam de tratamentos especializados.

O presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), César Eduardo Fernandes, faz ressalvas sobre o enfrentamento da atual pandemia. Para ele, a resposta do SUS foi “de razoável para boa”. O médico exaltou o fato de muitos hospitais terem sido reequipados e as equipes de saúde recompostas nos últimos meses, mas levantou dúvidas se esses ganhos serão mantidos ou se voltarão ao estágio pré-pandemia.

Fernandes acrescentou que a resposta poderia ter sido mais eficiente se a atenção básica não tivesse perdido investimentos ao longo dos últimos anos. “Nesse período de pandemia, os profissionais estariam mais preparados para dar o primeiro atendimento e uma filtragem correta desses casos, não haveria necessidade dessa ida em massa para os serviços hospitalares”, avaliou.

Desafios

Entre os grandes desafios do SUS, na avaliação do próprio Ministério da Saúde, estão a oferta de serviços e a parte financeira. Em meio à demanda sempre crescente, especialistas da pasta admitem que o serviço precisa ser eficiente para atender em quantidade adequada e em tempo oportuno todas essas demandas e necessidades. Eles acreditam ainda que os recursos também precisam ser distribuídos de forma a alcançar o melhor resultado possível.

Alvo frequente de desvios por fraudadores, a responsabilidade com os recursos públicos também são desafiadores. “Precisamos ter efetividade, transparência e responsabilidade pelo recurso público, pois não estamos falando de dinheiro, estamos falando da saúde das pessoas”, defende o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello.

Ganhos

Sobre a eficiência do SUS, o presidente da Associação Médica avaliou que em 30 anos de existência o sistema público de saúde conseguiu oferecer serviços de excelência em algumas áreas, mas ainda sofre com a precarização. Na avaliação do médico, é preciso investir mais na carreira dos profissionais de saúde e na atenção básica.

“Nós não podemos ficar apenas com essas ilhas de excelência em grandes centros, grandes capitais e regiões mais desenvolvidas. Nós temos que interiorizar o SUS”, defende Fernandes, ao falar dos desafios que a saúde pública ainda tem que enfrentar no país.

As unidades básicas de saúde e os médicos da família têm que ser também um dos focos dessa expansão, disse César Fernandes. “O que tem que ser fortalecido Brasil afora são as unidades básicas de saúde. É ali que o paciente chega, que se faz o primeiro atendimento, o diagnóstico e que se começa o tratamento”, destacou.

O médico ressalta a importância de também haver investimentos na carreira pública da classe. “A nossa questão não é falta de médicos, é construir possibilidades para que o jovem médico, bem formado, tenha atratividade para ir para os pequenos centros e as cidades mais longínquas. Temos que criar a figura do médico de Estado, assim como tem a carreira no Judiciário”, exemplificou.

porCIPERJ

Saúde do Rio libera acesso do sistema de regulação a MP e Defensoria

fonte: Agência Brasil

A fila do sistema de regulação da Secretaria de Estado de Saúde (SES) passou a ter acesso liberado à Defensoria Pública, ao Ministério Público do Estado (MPE) e ao Ministério Público Federal (MPF).

A demanda histórica foi atendida na terça-feira (22), quando as senhas para entrar no sistema foram disponibilizadas aos três órgãos. A informação foi divulgada pela assessoria da SES.

O objetivo é dar transparência sobre as vagas oferecidas na rede de saúde do estado para internações, cirurgias e procedimentos de alta complexidade. Com a decisão, será ampliada a informação sobre as filas e o trabalho da Central Estadual de Regulação na busca ativa por vagas de centros de terapia intensiva (CTI) e enfermaria para cirurgias de alta complexidade, radioterapia, quimioterapia, cardiologia, entre outros serviços.

O acesso aos sistemas permitirá que Defensoria e Ministério Público trabalhem em parceria com a Secretaria de Saúde para encontrar melhores soluções para atender os pacientes da rede pública de saúde.

A transparência é um dos objetivos fundamentais do acordo. Com o acesso dos órgãos reguladores à Central Estadual de Regulação, ações judiciais poderão ser evitadas, diante da demonstração da situação real do sistema.

porCIPERJ

Transplantes de medula óssea se concentram nas regiões Sudeste e Sul do país

fonte: Folha de SP

Mesmo com o avanço da conscientização sobre doenças que afetam as células do sangue, os transplantes de medula óssea ainda se concentram nas regiões Sudeste e Sul.

Segundo dados do Ministério da Saúde, em 2019, foram registrados 3.490 transplantes de medula óssea no país, sendo 2.136 no Sudeste, 670 no Sul, 508 no Nordeste, 176 no Centro-Oeste e nenhum na região Norte.

De acordo com o Redome (Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea), o Brasil tem hoje mais de 3,7 milhões de doadores de medula óssea inscritos. Em 2000, havia apenas 12 mil.

O alerta sobre a importância de haver mais registros de transplantes no Brasil e acreditação internacional (espécie de certificação) para transplantes de medula óssea foi feito por especialistas participantes da sétima edição do Congresso Digital Todos Juntos Contra o Câncer, realizado virtualmente.

“Temos no Brasil 87 centros de transplantes autorizados. A maioria está no Sudeste, principalmente, em São Paulo, com 38 desses centros”, afirma Nelson Hamerschlak, coordenador da hematologia do Hospital Israelita Albert Einstein.

De acordo com dados da ABTO (Associação Brasileira de Transplante de Órgãos), embora São Paulo realize o maior número de transplantes de medula óssea, o Distrito Federal concentra no país o maior número de indicação de transplantes por milhão de habitantes.

Na avaliação de Hamerschlak, mesmo com o crescimento anual de transplantes reportados, o Brasil ainda não tem um número adequado de cirurgias para cada 10 milhões de habitantes e, neste ano, por conta da Covid-19, haverá uma diminuição no número.

“A Argentina, países da Europa e os Estados Unidos têm mais de 100 transplantes por mais de 10 milhões de habitantes”, afirma.

O transplante de medula óssea, tecido que ocupa o interior dos ossos e é responsável pela produção de componentes do sangue, como hemácias, leucócitos e plaquetas, é indicado para tratamentos de doenças que afetam células do sangue, como leucemias, linfomas, mielodisplasias, mielomas e tumores sólidos. A maioria dos transplantes realizados no Brasil se dá em mielomas múltiplos seguidos de leucemias agudas.

Para Hamerschlak, a escolha do doador adequado, com a experiência de cada centro de transplante autorizado, ajuda a reduzir complicações associadas ao transplante de medula, principalmente, infecções decorrentes de quimioterapia e das fontes das células.

Existem quatro tipos de doadores de medula óssea: autólogo (quando o próprio paciente é o doador), alogênico aparentado (quando a doação é feita por um parente), alogênico não-aparentado (quando a doação não é realizada por parentes) e haploidêntico (quando há 50% de compatibilidade genética do doador com um paciente).

Em São Paulo, 50% dos transplantes de medula óssea realizados são autólogos e 50%, alogênicos.

Hamerschlak ressalta que hoje há menos impeditivos para a realização de transplantes de doadores com 50% de compatibilidade genética com o paciente, que têm crescido no país e são mais encontrados em bancos de registros.

“Hoje é praticamente impossível não ter doador para transplante, porque, se ele não tem um irmão absolutamente idêntico, ele tem o registro [de doadores]. Se não tem no registro, ele tem o cordão umbilical. Se não tem o cordão, ele tem algum parente que é 50% [compatível]”, explica.

No Brasil, a minoria dos transplantes são realizados em crianças.

Juliana Folloni, médica do Hospital Israelita Albert Einstein, lista que entre as doenças pediátricas que podem ser tratadas com transplantes estão os casos mais graves de anemia falciforme, doença genética mais comum no Brasil, imunodeficiências primárias (alterações genéticas no sistema imunológico), doenças metabólicas e a imunodeficiência combinada grave, chamada antigamente de “bebê da bolha”, que não podia ter contato com o ambiente exterior porque tinha infecções graves.

“O paciente pediátrico normalmente tem uma maior tolerância à quimioterapia, tem uma diferença na incidência das complicações do transplante”, ressalta.

Folloni afirma que algumas crianças submetidas ao transplante, principalmente, por leucemia e que usam radioterapia em altas doses, podem apresentar a longo prazo déficit de crescimento e cognitivo. No entanto, a médica ressalta que o transplante funciona em muitas doenças na faixa etária pediátrica e o encaminhamento médico cedo nestas doenças é a parte mais importante para o resultado.

“Nas leucemias, a maioria das crianças são tratadas somente com quimioterapia, com sucesso, não precisando do transplante. Somente casos mais graves ou que não responderam à terapia inicial são encaminhados para o transplante”, afirma.

Com o envelhecimento da população, os transplantes de medula óssea para pessoas acima de 70 anos têm aumentado. Polianna Mara Rodrigues de Souza, médica do Hospital Israelita Albert Einstein, ressalta que o envelhecimento está relacionado ao aumento de doenças crônico-degenerativas, entre elas o câncer.

“Mais de 60% dos casos de câncer são diagnosticados em pessoas com mais de 60 anos e 70% das mortes também ocorrem nesta faixa etária”, afirma.

De acordo com a médica, a população idosa tem uma chance maior de ter inúmeras doenças ao mesmo tempo (comorbidades) e com isso usar diversas medicações que podem interferir em riscos nos tratamentos.

Os fatores críticos nesta faixa etária são, antes do transplante de medula, ter tido queda nos últimos seis meses, sarcopenia (perda de massa muscular), comprometimento de atividades que permitem independência e vida social fora de casa, e redução da velocidade de caminhada.

Morgani Rodrigues, médica assistente do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, ressalta que o cuidado após o transplante é fundamental para o sucesso do procedimento.

As complicações mais comuns nesta fase são as infecções e a presença da doença do enxerto contra o hospedeiro, que é quando as células do doador reconhecem a pessoa que a recebeu como estranha. Os reflexos são sentidos na pele e no trato gastrointestinal. Morgani afirma que a saúde óssea e sexual também devem ser acompanhadas por equipe médica multidisciplinar após o transplante.

O cuidado mental também é importante no tratamento, lembra Maria Ester Azevedo Massola, que coordena a equipe de Medicina Integrativa do Hospital Israelita Albert Einstein. Ela trabalha com terapias não-convencionais e não-farmacológicas para proporcionar uma experiência de cuidado ao paciente.

porCIPERJ

ARTIGO: Anticorpos e doenças infecciosas

por Esper Kallás, médico infectologista, professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade.

Parte importante da resposta imune, os anticorpos são moléculas que atuam no combate a agentes infecciosos. Com aspecto parecido a um garfo de duas pontas, podem ser encontrados por todo o corpo —do sangue à superfície dos genitais, do trato respiratório ao gastrointestinal e assim por diante— em diferentes formas. Quando encontram um germe, ligam-se a ele, tentando neutralizá-lo, ajudando as células de defesa nesse combate.

Métodos cada vez mais sofisticados tornam possível a identificação das características de cada anticorpo específico para, então, reproduzi-lo e multiplicá-lo individualmente. O produto dessa técnica é denominado de anticorpo monoclonal. Também há como selecionar os mais potentes, aqueles com maior capacidade neutralizante, utilizados no tratamento e prevenção de doenças infecciosas.

A ideia não é nova. O primeiro prêmio Nobel na área de Medicina ou Fisiologia foi concedido em 1901 ao polonês Emil Adolf von Behring, pelo pioneirismo no uso de soro sanguíneo —rico em anticorpos— para o tratamento da difteria, doença que hoje controlamos com sucesso pelo uso de vacinas. Outros laureados pelo prêmio Nobel também fizeram descobertas importantes. Entre eles, em 1984, Niels K. Jerne, Georges J.F. Köhler e César Milstein descreveram os mecanismos da produção dos anticorpos no organismo.

Os anticorpos monoclonais, resultado desse desenvolvimento secular em medicina, já são usados em doenças infecciosas. Um dos exemplos é o vírus sincicial respiratório, que pode causar pneumonia grave em recém-nascidos prematuros. Sem tratamento, pode levar à morte. A solução veio com um anticorpo monoclonal: chamado de palivizumab, é capaz de prevenir a ocorrência da pneumonia e salvar a vida de milhares de crianças.

Outros anticorpos vêm sendo estudados contra diversas doenças infecciosas, dentre elas a infecção pelo HIV, vírus que causa a Aids. Estamos testemunhando, aqui, um grande avanço. Vários já foram descritos e alguns se destacam pela sua capacidade de neutralização do vírus. Muitos estudos estão avaliando o uso destes anticorpos no tratamento e na prevenção da infecção pelo HIV. Se bem-sucedidos, causarão grande mudança de paradigmas, tanto no cuidado às pessoas que vivem com o vírus quanto na proteção a vulneráveis expostos por via sanguínea ou sexual.

Com a Covid-19 não poderia ser diferente. Alguns anticorpos monoclonais capazes de neutralizar o novo coronavírus já estão em testes clínicos para prevenir e tratar a doença, inclusive no Brasil.

Na semana passada, o anúncio de um estudo preliminar nutriu com esperanças a possibilidade de tratamento da Covid-19: o uso de anticorpos monoclonais contra o novo coronavírus reduziu em 72% a chance de pessoas infectadas desenvolverem doença grave. Se os dados definitivos confirmarem esse feito, este será um resultado extraordinário, pois seria o tratamento mais eficaz divulgado até o momento.

Dada a velocidade com que podem ser descobertos e avaliados em estudos clínicos, devem ser considerados como importantes armas no enfrentamento de futuras ameaças, inclusive pandemias, por agentes infecciosos.

O potencial do benefício de anticorpos monoclonais na medicina é imenso. Poderão ocupar o lugar de antimicrobianos para tratar doenças infecciosas e complementar a prevenção de vacinas.

Creio que testemunharemos, em tempo breve, um grande salto do emprego de anticorpos monoclonais na infectologia e, consequentemente, no alívio do sofrimento que as doenças infecciosas nos trazem.

porCIPERJ

Ministério da Saúde aponta queda de 37% nos transplantes no Brasil durante a pandemia

fonte: Folha de SP

Números do Ministério da Saúde apontam uma queda de 37% nos transplantes realizados no Brasil entre janeiro e julho de 2020, em comparação com o mesmo período do ano anterior.

Os dados foram divulgados nesta quinta-feira (24), quando também foi lançada a campanha nacional anual de doação de órgãos, que terá o tema “Doe órgãos: a vida precisa continuar”.

Reportagem da Folha há 10 dias mostrou a tendência de queda nos transplantes durante a pandemia da Covid-19. A comparação usada na reportagem abrangeu o período entre janeiro e junho —não contabilizou julho, portanto.

A reportagem mostrou uma diminuição de 32% no total de transplantes. Além disso, também foi mostrado que houve um aumento de mortes de 34% dentre as pessoas que aguardavam um órgão transplantado.

Além disso, a reportagem mostrou que, no período entre abril e junho, houve redução de 61% nos procedimentos, em comparação com os três primeiros meses do ano. Com isso, houve um aumento de 44,5% nas mortes de pacientes cadastrados na fila de espera entre os dois períodos em todo o país.

Segundo os números apresentados pelo Ministério da Saúde, foram realizados de janeiro a julho deste ano um total de 9.952 operações de transplante no país. No mesmo período de 2019, foram 15.827.

O período na redução dos transplantes praticamente coincide com a pandemia do novo coronavírus no Brasil onde o primeiro caso confirmado da doença foi registrado no final de fevereiro. A pasta atribui a queda nos procedimentos à pandemia, citando, entre outros fatores, a redução nos voos comerciais para transportar os órgãos.

Desde o início da pandemia, 138.977 pessoas morreram em decorrência da Covid-19 no Brasil.

“Mesmo no período da pandemia, não perdemos a nossa força. No período,realizamos quase 10 mil transplantes. Em vigência da pandemia nós tivemos uma redução da taxa de recusa familiar. Ano passado foi de 39.9% e esse ano teve uma redução para 37.2%”, afirma Daniela Salomão, coordenadora do Sistema Nacional de Transplantes.

O balanço mostra que os transplantes de medula óssea tiveram redução de 25,8% nos primeiros sete meses do ano – passaram de 2.130 para 1.580.

Em relação aos procedimentos de transplantes de coração, houve redução de 25,1%, caindo de 231 no mesmo período de 2019 para 173.

Além da queda nas cirurgias de transplantes, os números da Saúde também mostram uma queda de 8,4% no total de doadores nos primeiros sete meses do ano. Foram 5.922 doadores, ante 6.466 entre janeiro e julho do ano passado.

Os dados da pasta também mostram que havia 46.181 pacientes na fila aguardando um órgão no país, até o dia 31 de julho.

Durante o evento, foram homenageadas pessoas que doaram os órgãos de seus parentes que faleceram. Uma das pessoas que receberam a homenagem foi Maria do Céu Moraes, mão do apresentador Gugu Liberato, morto em novembro do ano passado.

O secretário de Saúde do estado da Paraíba, Geraldo Almeida, também recebeu homenagem, por seus esforços na pasta e também pela doação dos órgãos de seu filho, após a morte do jovem.

O ministro da Saúde, Eduardo ​Pazuello, também recebeu no evento a medalha 1ª Tenente Enfermeira Virgínia Leite, concedida pela Abrasci (Academia Brasileira de Ciências, Artes, História e Literatura), por suas ações durante a pandemia do novo coronavírus.