fonte: O Globo
O câncer infantil não recebe tanta atenção quanto a doença entre adultos. Devido ao baixo registro de casos, muitas vezes a enfermidade é ignorada no exame médico — seus sintomas são confundidos com fraturas ou males comuns. Por isso, trata-se de uma das principais causas de morte entre crianças em países desenvolvimentos e no Brasil. Se o diagnóstico for precoce, as chances de cura são altas. No entanto, falta no país a infraestrutura necessária para a análise do paciente. Um dos poucos centros de pesquisa especializados é o Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc), em São Paulo. Em entrevista ao GLOBO, o superintendente médico da instituição, Sérgio Petrilli, comenta as dificuldades enfrentadas para o diagnóstico da enfermidade.
O câncer infantil é uma doença comum?
Não, é rara. Estima-se que ocorrerão cerca de 12.600 casos novos de câncer em crianças e adolescentes no Brasil por ano em 2016 e em 2017. O progresso no tratamento foi significativo nas últimas décadas. Hoje, em centros de excelência, até 70% dos pacientes podem ser curados, quando há diagnóstico precoce.
Fora destes centros, no entanto, o índice de cura cai para 48%. O que pode ser feito?
Isso acontece devido à falta de infraestrutura de diversas instituições. Faltam equipamentos como o de tomografia computadorizada, o que faz diferença, porque o tumor cerebral é comum entre crianças. Diversos sintomas do câncer podem ser ignorados. Damos assessoria a localidades no Norte e Nordeste, onde este problema é mais grave.
Quais são os principais tipos de câncer?
Entre os que atendemos em 2015, foram os tumores do sistema nervoso central, leucemias e retinoblastoma (câncer ocular que atinge as células da retina). Entre os mais raros atendidos pelo Graacc estão carcinomas e tumores hepáticos.
É mais fácil combater o câncer infantil nas crianças?
Sim, caso haja diagnóstico precoce. Nas crianças, as células cancerígenas se dividem em uma velocidade muito grande, que pode dobrar a cada 48 horas. A quimioterapia, porém, é mais potente do que entre adultos.
Por que o diagnóstico do câncer entre as crianças pode ser demorado?
Um motivo é o fator ambiental. No adulto, a incidência de câncer é maior a partir dos 50 anos. Então, ele desenvolve por décadas sinais que podem acarretar em uma doença no futuro. Se pegou muito sol, tem câncer de pele. Se fumou a vida inteira, de pulmão. Se foi alcoólatra, de boca. Não existe este histórico na criança, onde o câncer se manifesta principalmente a partir dos 7 ou 8 anos.
É comum que o câncer seja confundido com outras doenças?
Sim. Há casos em que uma criança pálida com manchas rosas na pele é diagnosticada como anêmica, ou que se trata apenas do sinal de uma pancada, mas na verdade é uma leucemia. O ortopedista, então, põe um gesso, enquanto o tumor cresce debaixo dele. Já um adbômen proeminente, às vezes tratado como uma parasitose intestinal, pode ser sinal de um tumor. O pediatra não percebe e dá remédio para combater um verme. O desconhecimento da doença provoca um grande índice de mortes.
Como é o trabalho desenvolvido pelo Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer (Graacc)?
Somos uma referência no tratamento e pesquisa do câncer infantil na América Latina, principalmente em casos de alta complexidade. Nosso trabalho está completando 25 anos e, neste período, conseguimos um hospital próprio, onde realizamos anualmente mais de 29 mil consultas, 1.600 procedimentos cirúrgicos, 16 mil sessões de quimioterapia e 5 mil sessões de radioterapia em parceria com a Universidade Federal de São Paulo.
Qual é a verba necessária para manter este atendimento?
O orçamento estimado para este ano é de R$ 97 milhões, o suficiente para atender mais de 3 mil crianças e adolescentes. Para ter este dinheiro, o hospital conta com contribuições de mais de 200 mil pessoas e instituições.