Arquivo mensal outubro 2020

porCIPERJ

SBA publica e-book sobre Complicações e Eventos adversos em Anestesia

A Sociedade Brasileira de Anestesia (SBA) elaborou um livro digital sobre Complicações e Eventos adversos em Anestesia.

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porCIPERJ

Soperj realiza Live! nesta quinta-feira sobre Cannabis e Pediatria

A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) organiza nesta quinta-feira, dia 8, às 17h, Live! abordando Cannabis e Pediatria: potencial terapêutico.

O evento gratuito será transmitido pelo Instagram da entidade.

Não perca!

ACESSE O EVENTO

porCIPERJ

ARTIGO: Consensos e omissões na saúde

fonte: O Globo

por Lígia Bahia, médica da UFRJ

As cidades são responsáveis diretas por parte da oferta de serviços e financiamento das ações de saúde. Em 2019, 23% das internações, 44% dos procedimentos ambulatoriais e 30% dos recursos financeiros para o SUS foram originados nos municípios brasileiros. Além da geração de atividades e receitas próprias, os municípios recebem repasses da União e estados e realizam convênios com instituições públicas, filantrópicas e privadas.

Como a procura por cuidados e a insatisfação com o atendimento ocorrem nos municípios, as eleições para prefeitos e vereadores propiciam um debate objetivo sobre saúde, especialmente ao coincidirem com uma crise sanitária global. A maioria dos 14 programas que concorrem à prefeitura do Rio de Janeiro menciona consequências da transmissão da Covid-19 e contém propostas concretas e coincidentes para ampliar a saúde pública.

São pontos de convergência entre candidaturas situadas em qualquer ponto do gradiente esquerda-direita: a expansão das unidades de atenção básica; a adoção de tecnologias de informação, seja no âmbito administrativo, seja como complemento ao atendimento presencial; e a disposição para organizar e dinamizar o complexo de pesquisas e produção de vacinas, testes e equipamentos. A valorização de necessidades especificas de saúde para a população negra e LGBT é quase consensual. Fica explícita, inclusive, no programa do PSL (ex-partido do presidente Bolsonaro) e escondida na plataforma do prefeito, candidato à reeleição.

Segundo os programas eleitorais, o SUS carioca ficará maior, terá informações mais acessíveis por meios digitais e assistência digna, decorrente da redução de preconceitos e estigmas, bem como da articulação da prefeitura com as universidades, Fiocruz e indústrias setoriais. Mas as justaposições sobre a importância do SUS não se repetem na definição sobre como, com quem e quando essas medidas serão efetivadas. Os documentos programáticos são obrigatórios para o registro de candidatos a cargos executivos, mas não existem regras sobre conteúdo e forma. Cada partido político ou coligação decide sobre a divulgação de suas proposições. Existem programas-livros e outros com menos de dez páginas. Apesar das diferenças de tamanho, as ideias sobre a execução das políticas propostas são quase sempre difusas, apenas se examinadas detidamente permitem detectar divergências.

Todos são favoráveis ao SUS, ao crescimento das atividades de saúde pública, mas as soluções variam desde gastar mais R$ 5 bilhões com saúde no primeiro ano de mandato até a redução de despesas. Tampouco existe concordância sobre os profissionais de saúde. As promessas incluem a contratação de seis mil para a rede pública, aumentar salários e realizar concursos, mas também retomam a velha acepção — comprovadamente inviável desde os anos 1970 — de credenciar consultórios médicos particulares. Críticas às organizações sociais unem as candidaturas de esquerda e a de Crivella. A defesa do modelo de delegação da gestão a terceiros ficou a cargo dos partidos Novo, Socialista Cristão e Social Liberal. As filas de espera para consultas especializadas, exames e internações são motivo de preocupação, mas seguem não equacionadas. O único candidato que avança nas metas para fazer a fila andar afirma que, no final de seu mandato, a demora será 30% menor. Um desconto com pouco sentido prático. Pessoas com catarata, que não conseguem sair de casa porque não enxergam, em vez de permanecer assim durante 365 dias, serão condenadas a ficar nessa condição durante 255 dias em 2024. A espera seguiria sendo interminável.

Temas tabus estão ausentes. São cinco mulheres candidatas, e praticamente zero palavra sobre aborto. A cidade “pestilenta”, denominada túmulo dos estrangeiros no final do século XIX, foi objeto de políticas efetivas de saúde pública. Em 2020, a cidade com a mais elevada taxa de letalidade por Covid-19 entre os municípios brasileiros tem um SUS degradado, concentrado nas áreas de maior renda. Os programas eleitorais estabelecem um terreno comum para o debate sobre saúde, mas são imprecisos e medrosos. Temos tempo até novembro para exigir coerência e elucidação das plataformas eleitorais.

porCIPERJ

Confira nota oficial da SOPERJ sobre a volta às aulas

fonte: SOPERJ

A educação é um direito fundamental da criança e do adolescente. A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (SOPERJ) entende a importância de um posicionamento nesse momento tão importante que envolve a volta às aulas. A pandemia de Covid-19 se transformou num dos maiores desafios da saúde pública. Portanto, as decisões são muito difíceis e envolvem diversos setores da sociedade, mas fundamentalmente as áreas da saúde e educação. A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e Cultura (UNESCO) destaca que quando as escolas fecham, crianças e jovens são privados de oportunidades de crescimento e desenvolvimento. Essas desvantagens são desproporcionais para alunos desfavorecidos que tendem a ter menos oportunidades educacionais fora da escola.

A Sociedade Brasileira de Pediatria em Reflexões da Sociedade Brasileira de Pediatria sobre o retorno às aulas durante a pandemia de Covid-19 (//www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/SBP-RECOMENDACOES-RETORNO-AULAS-final.pdf) relata que grande parte das crianças, quando infectadas, não apresentam sintomas, fato que, provavelmente, reduz as chances de que transmitam de forma intensa o vírus, ao contrário do que ocorre com os pacientes sintomáticos.

Em documento em que orienta sobre o retorno escolar presencial e seguro, a FIOCRUZ cita, de forma contundente, a preocupação dos Organismos Internacionais quanto ao retorno escolar presencial ocorrer o mais breve possível.  Abaixo dois trechos do documento merecem destaque (disponível em //portal.fiocruz.br/documento/contribuicoes-para-o-retorno-atividades-escolares-presenciais-no-contexto-da-pandemia-de visto em 24/09/2020):

“ONU reafirma a preocupação da OMS externada há meses sobre milhões de crianças fora da escola e o seu sofrimento. Na pandemia, 1 bilhão de crianças vivenciaram as escolas fechadas e muitos terão dificuldade para retornar às suas atividades. Provavelmente, essas crianças entrarão precocemente nos processos produtivos para sobrevivência, dada a crise econômica pós-pandemia nos países, principalmente os periféricos. No entanto, embora tanto ONU quanto a OMS coloquem claramente que a prioridade deva ser as crianças nas escolas, esse retorno deve se dar de forma segura, quando os governos tiverem o controle da pandemia.”

“Um dos problemas apontados é a prioridade invertida das autoridades governamentais ao abrirem outras atividades como academias, shoppings e restaurantes, o que pode levar ao aumento do contágio na cidade e atrasar ainda mais a reabertura das escolas de forma segura. A escola deveria ser vista como serviço essencial, para que a sua abertura precedesse a de outros serviços não essenciais e a centralidade fosse na educação e na saúde.”

Há uma polarização a respeito da reabertura das escolas. Existem os que se opõem de forma radical e aqueles que a recomendam com igual ênfase. Os argumentos de ambas as posições contêm verdades, meias-verdades e desinformação.

A Sociedade de Pediatria do Rio de Janeiro, representando os pediatras do nosso Estado, se coloca em posição de isenção político-partidária, ideológica ou de mera opinião. Nos expressamos baseados nas melhores evidências científicas e epidemiológicas que dispomos.

Não se trata, portanto, de uma batalha de opiniões onde um lado será vencedor e o outro derrotado. Acreditamos que o foco de toda a discussão deva ser a criança e sua família, com argumentos cientificamente sustentáveis. Mas é preciso dizer que não sabemos tudo a respeito da Covid-19. É uma doença nova causada por um vírus novo. Em dez meses o conhecimento acumulado cresceu exponencialmente e, mesmo assim, ainda existem lacunas importantes não preenchidas.

O que sabemos? Sabemos que crianças se infectam com menos frequência do que adultos e que, quando adoecem, apresentam a doença de forma mais branda. Sabemos que crianças podem transmitir a doença, mas existe controvérsia a respeito da intensidade dessa transmissão. Também sabemos que os países que abriram suas escolas, o fizeram com diferentes estratégias e, tirando casos pontuais (Israel e algumas escolas na França), não houve mudança relevante nas curvas de casos e óbitos.

Sabemos mais. Sabemos que a interrupção escolar prolongada causa atraso na cognição e este impacta o aprendizado. Esta questão é tanto mais grave quanto maior for a vulnerabilidade (pobreza) das crianças. Desta forma, manter as crianças fora da escola potencializará as diferenças de acesso a empregos, renda e saúde. Também sabemos que manter as escolas fechadas impacta a economia com potencial redução de renda dessa geração e do PIB dos países até o final do século.

Sabemos ainda que a escola é a principal responsável pela retenção de alunos, principalmente os pré-adolescentes e adolescentes. Quanto mais longo o período de fechamento das escolas, maior o risco de evasão escolar e suas consequências danosas.

Sabemos também que a escola não é apenas um lugar seguro onde as crianças ficam para que seus pais possam trabalhar. A escola desempenha um papel primordial no desenvolvimento de competências fundamentais para uma vida em sociedade: socialização, empatia, compaixão, disciplina, autoconfiança e independência. Crianças não serão futuros seres humanos somente quando crescerem. Já o são, desde o nascimento e seu desenvolvimento emocional sofre consequências no curto e longo prazo. Imaginar que crianças não sofrem de ansiedade e depressão é desconhecer a natureza humana das crianças. Nesta pandemia, esse sofrimento tem sido intenso, com exposição a algo pouco habitual na vida de crianças: a morte. Esse assunto dominou as nossas vidas. Na escola as crianças encontram um ambiente propício para elaborar esses sentimentos.

A epidemiologia no Rio de Janeiro revela um quadro com uma curva descendente de casos e óbitos, com algumas flutuações. Evidentemente que a SOPERJ vê com apreensão o comportamento coletivo de ignorar medidas de mitigação e que este padrão poderá levar a uma mudança radical do número de casos e óbitos. Por outro lado, estatísticas devem ser, sempre, analisadas com cautela porque como diz a anedota, o estatístico se afogou em um rio que tinha, em média, um metro de profundidade.  Assim, ao analisarmos a taxa de ocupação dos leitos, é preciso separar o que é crescimento real do que possa ser simplesmente a consequência do fechamento de hospitais de campanha e/ou a vinda de casos “importados” de outros municípios, que não contam com UTIs, para a cidade do Rio de Janeiro.

Finalmente, a SOPERJ defende a vida e nesse contexto tem um olhar para professores e funcionários das escolas. Protocolos viáveis devem ser implantados a fim de assegurar a todos o menor risco possível. Não existirá uma situação sem risco algum. A vida contém riscos e não nos paralisamos por isso. Ao contrário, seguimos em frente, sem sermos irresponsáveis.

A SOPERJ, diante do atual quadro epidemiológico do Rio de Janeiro e do conhecimento científico acumulado, defende a abertura de todas as escolas, principalmente as públicas, como forma de assegurar que o dano já feito pela Covid-19 na saúde e, mais importante, no futuro das crianças, seja minimizado e não perpetuado.

Agradeço aos presidentes dos Departamentos Científicos de Infectologia, Saúde Escolar e Imunização pela revisão atenciosa deste documento.

Katia Telles Nogueira
Presidente da SOPERJ Triênio 2019-2021

Em anexo dois documentos que contribuem para o embasamento do retorno seguro às escolas, o documento da SBP e das pediatras Patrícia Barreto e Lívia Esteves que gentilmente disponibilizaram para a SOPERJ.

Anexo1

Anexo2

porCIPERJ

Justiça reduz alíquotas de IRPJ e CSLL de médicos

fonte: Associação Paulista de Medicina

Conforme noticiado pelo Valor Econômico, uma sociedade de médicos que presta serviços em emergências de hospitais conseguiu na Justiça reduzir as alíquotas de Imposto de Renda (IRPJ) e de Contribuição Social (CSLL) sobre a receita bruta de 32% para, respectivamente, 8% e 12%. A decisão liminar garante benefício fiscal previsto em lei mesmo sem o preenchimento dos requisitos exigidos.

O artigo 15 da Lei nº 9.249, de 1995, que alterou a legislação do IRPJ e da CSLL, exclui da alíquota de 32% os serviços hospitalares, desde que o prestador esteja organizado sob a forma de sociedade empresária e atenda às normas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o que exigiria a realização de serviços em sede própria.

Segundo a publicação, apesar de existir entendimento do Superior Tribunal de Justiça (STJ) sobre a validade da lei (Resp 1116399), nem sempre as sociedades de médicos conseguem a redução. A 1ª Seção definiu que devem ser considerados serviços hospitalares aqueles que se vinculam às atividades desenvolvidas pelos hospitais, voltados diretamente à promoção da saúde, “de sorte que, em regra, mas não necessariamente, são prestados no interior do estabelecimento hospitalar”, excluindo-se as consultas médicas.

Atividade realizada é o que conta

Por prestar serviços a terceiros, e não em sede própria, a sociedade não consegue a certidão da Anvisa que garante o benefício, segundo afirmou ao Valor a advogada do caso, Rafaela Calçada da Cruz, sócia do escritório Pereira do Vale Advogados. “Por ser terceiro, a legislação não permite que a sociedade tenha um certificado.”

Para ter a licença sanitária da Anvisa, acrescentou a advogada, é necessário repassar o número de leitos e de salas de cirurgia, por exemplo, e o prestador de serviços para hospitais não tem como comprovar essas informações. Ao jornal, Rafaela lembrou, porém, que o STJ já decidiu que o que conta é a atividade realizada pelo contribuinte e não a estrutura exigida pela Receita Federal.

No caso, a sociedade celebra contratos com a administração pública e a iniciativa privada. No setor de Saúde, afirmou Rafaela, é comum sociedades prestarem serviços em hospitais e o benefício é importante porque a margem de lucro é pequena.

Na liminar, como divulgou o Valor, o juiz Tiago Bitencourt de David, da 2ª Vara Cível Federal de São Paulo, afirma que, de acordo com a documentação apresentada, a sociedade se enquadra na prestação de serviços hospitalares.

Presta serviços de Medicina ambulatorial, com recursos para realização de procedimentos cirúrgicos. Além disso, tem a comprovação de contrato firmado com o Instituto de Assistência

Médica ao Servidor Público Estadual (Iamspe) com a prestação de serviços para apoio no atendimento da área de clínica médica do serviço de emergência do Hospital do Servidor Público Estadual (HSPE).

“As receitas devidamente tidas como serviços hospitalares e comprovadas mediante emissão de notas fiscais de prestação de serviços em favor da impetrante devem ser consideradas para a concessão do benefício fiscal”, afirmou o juiz na decisão (processo nº 5014199-52.2020.4.03.6100).

Debate sobre o benefício

A decisão – conforme o advogado Luca Salvoni, do escritório Cascione Pulino Boulos Advogados, argumentou à reportagem citada – recalibra o entendimento do STJ sobre o benefício fiscal concedido aos hospitais. Na época, acrescentou, a Receita Federal restringia o conceito de atividade hospitalar. “Nos últimos anos, a sociedade tem tentado entender qual é o corte entre algo ser atividade hospitalar e não um médico pejotizado.”

A Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional (PGFN) informou que pretende recorrer da decisão liminar. De acordo com o órgão, o Tribunal Regional Federal (TRF) da 3ª Região, com sede em São Paulo, já decidiu a favor da Fazenda Nacional.

porCIPERJ

Serviços de saúde podem aumentar até 8% com reforma tributária

fonte: O Globo

A substituição do PIS-Cofins pela Contribuição Social sobre Operações com Bens e Serviços (CBS), parte da reforma tributária proposta pelo governo, deve resultar num aumento de 65% nos gastos do setor de saúde apenas com esse tributo.

Um estudo feito pelo SindHosp, que reúnehospitais, clínicas e laboratórios no estado de São Paulo, mostra que o valor pago pelas empresas de saúde de todo o país vai subir de R$ 11 bilhõespara R$ 15,6 bilhões – R$ 4,6 bilhões.

Apenas com essa mudança, diz a entidade, o custo dos serviços de hospitais, laboratórios e clínicas deve aumentar, em média, entre 7% e 8%, mesmo percentual que as empresas deverão repassar aos clientes.

A a segunta etapa da reforma tributária seria apresentada ao Congresso na segunda-feira, mas não houve consenso, e ela  deve ficar para depois das eleições.

Francisco Balestrin, presidente do SindHosp, explica que hoje o setor de saúde paga 3,65% de PIS (3%) e Cofins (0,65%), que incidem diretamentesobre a receita bruta (faturamento), no modelo chamado cumulativo.

A proposta do governo é que os dois sejam substituídos pela CBS, com alíquotade 12%, que segue o modelo não cumulativo e as empresas podem tomar crédito incidente nas compras de materiais, medicamentos, máquinas,equipamentos e serviços contratados de pessoas jurídicas, por exemplo.

O sistema não cumulativo funciona hoje para indústrias, por exemplo, que obtém crédito pelo imposto pago na cadeia produtiva. O estudo do SindHosp,porém, assinala que o setor de saúde não consegue recuperar o crédito na mesma proporção, uma vez 40% dos gastos referem-se a salários,benefícios, encargos trabalhistas e previdenciários, despesas financeiras e outros itens que não darão direito crédito.

– Quem fabrica uma mesa, por exemplo, tem uma cadeia de produção longa. Tem o fornecedor de madeira, de verniz, etc. Todo mundo paga e seressarce. No caso da saúde, boa parte da despesa é o pagamento dos profissionais, que não permite ressarcimento — diz Balestrin.

Na melhor das hipóteses, de acordo com o estudo do Sindhosp, a alíquota efetivamente paga da CBS, descontados os créditos, seria de 6,2% – bemacima da atual, de 3,65%.

Balestrin afirma que o setor de saúde terá ainda de investir na administração de tributos, uma vez que não está acostumado a trabalhar com esse tipode crédito tributário, o que provocará aumento de custos.

– Se não for bem eficiente no manejo dos tributos, dificilmente as empresas de saúde vão conseguir recuperar. Será preciso ter uma estrututa apenaspara isso – afirma.

O presidente do SindHosp afirma que o governo brasileiro vai na contramão de países como Portugal, Inglaterra, Suécia, Suíça, Canadá, China eUruguai, por exemplo, que desoneram o setor de saúde  para tornar os serviços mais acessíveis à população.

Impacto de 22% nos preços dos planos de saúde

Para o presidente da Federação Brasileira de Hospitais, Aldevânio Francisco Morato, um aumento na carga tributária pode significar o fechamento de centenas de hospitais de médio e pequeno portes – com até 100 leitos -, que representam 70% deste tipo de estabelecimento no país.

– Nos últimos 10 anos já foi fechada uma quantidade assustadora de hospitais. Se houver aumento de impostos, os menores não vão sobreviver – diz ele.

Entre 2010 e 2019 houve redução de 6% no número de hospitais, que diminuiu de 6.420 para 6.040. Um aumento na carga tributária, avalia Morato, vai na contramão das necessidades do país, que tem enormes carências na área de saúde.

Morato afirma que o setor não é contra a mudança tributária, mas que é preciso estudar o impacto que ela causará em cada setor.

Estudo feito pela LCA Consultores, a pedido das entidades do setor de saúde, em conjunto com a Associação Nacional das Universidades Privadas, indica que o aumento na carga tributária, apenas com a criação da CBS, pode resultar num reajuste de 22% nas mensalidades de planos de saúde, o que resultaria numa redução de 1,1 milhão de beneficiários, aumentando a sobrecarga do SUS. O aumento de 22% é o mesmo previsto no aumento das mensalidades escolares.

porCIPERJ

Livros reúnem histórias que crianças com doenças graves querem contar ao mundo

fonte: BBC Brasil

Um pássaro que ficou amigo de peixes e, por isso, podia nadar, além de voar.

Um dragão que cuspia fogo carregando gentileza.

Uma data que desaparece do calendário e motiva uma aventura em sua busca.

Por trás destas histórias infantis, estão autores com suas próprias histórias de vida “excepcionais” — cujos livros chegaram às prateleiras de uma das bibliotecas mais importantes do mundo, a do Congresso americano.

São frutos do projeto Red Fred, em que o designer americano Dallas Graham, 45 anos, se junta a crianças com doenças raras ou graves para criar e publicar livros com histórias únicas. Tudo começa com uma pergunta feita a elas: se você pudesse escrever um livro para o mundo ler, sobre o que seria?

Até agora, 18 crianças participaram do projeto nos Estados Unidos, e escolheram contar para o mundo histórias sobre amizade, família, bullying e superação. Os valores gerados com a venda dos livros, muitos dos quais já foram esgotados, vão para a família das crianças, ou então para iniciativas que elas apoiam, como de assistência a outras pessoas com condições de saúde semelhantes.

Graham diz que quer conhecer a história e a imaginação de outras meninas e meninos pelo mundo, expandindo o projeto para outros países, incluindo o Brasil. O designer já está um passo mais próximo do país — em 3 de outubro, ele participa da terceira edição do festival inFINITO, que trata de temas sobre a vida e a morte e, neste ano, será realizado online. As informações sobre ingressos estão no site do evento.

“É claro que nós, como adultos, temos uma tendência a querer voltar às formas com que as crianças veem o mundo — de uma forma mágica, vívida, com os olhos novos de uma criança. Mas estas são crianças que estão passando por um processo de amadurecimento muito rápido — por coisas que muitos de nós, adultos, nunca passamos em relação à nossa saúde“, afirmou o designer à BBC News Brasil por chamada de vídeo.

“Elas sabem de realidades que nós não conhecemos. São crianças vivendo em circunstâncias extraordinárias e que criam histórias incríveis. Elas têm uma perspectiva bonita do mundo, mas isso não significa que elas não sofram, não tenham dor.”

O caso que inspirou o projeto

Após uma pausa em que os olhos ficaram marejados, Graham reconhece que o luto e a dor fazem parte do projeto — desde a rotina, em que encontros para a criação dos livros precisam conviver com uma agenda intensa de tratamentos e exames; ao seu próprio início, há sete anos, após a morte do filho de amigos.

Este sofria de distrofia muscular de Duchenne e, ao saber da situação em 2012, o designer se perguntou o que poderia fazer para ajudar. De repente, veio uma ideia: “Quero fazer um livro com ele”. A família chegou a concordar com a proposta, mas o menino faleceu e as histórias — a sua e a que ele escreveria — foram interrompidas.

“Continuo em contato com a família dele — eles são muito amáveis e compreensivos. Afinal, ele não era meu sobrinho ou filho. Mas eles apoiam muito o projeto, que mudou minha vida. Para mim, trouxe uma verdadeira mudança de perspectiva”, conta o designer, que hoje vive integralmente do projeto, financiado por doações e pela venda de livros — que, segundo ele, já têm uma “clientela” fiel de fãs do projeto.

“A história dele foi uma inspiração para tantas outras. Eu percebi: precisamos trocar com essas crianças, sabe? Somos adultos, não é difícil pra gente.”

Muitas crianças têm condições com as quais viverão, fazendo adaptações. Entretanto, algumas já morreram nesta trajetória.

“O projeto tem muito luto, e muito cuidado também. Da minha parte, tento fazer desse processo algo bonito. Porque a vida é bonita, e é frágil também”, diz Graham, emocionado.

“Sinto isso muito profundamente. Vejo o lado mais bonito da humanidade, mas também muito duro. Isso às vezes me fragiliza. Ainda estou aprendendo a lidar com essas coisas — tento me alimentar bem, ter ajuda (psicológica) profissional, praticar lições de ioga. Ao fim, o projeto me ajudou a estar mais aberto para o mundo e a ser um amigo melhor para todos.”

Normalmente, Graham e os autores mirins passam cerca de cinco dias criando — e isso vai desde a escolha de personagens, normalmente uma trupe de passarinhos que se repete em vários livros; ao enredo e apresentação estética do livro. Muitas vezes, as ilustrações se juntam a fotografias tiradas em lugares escolhidos pelas crianças, na região em que vivem.

“Esta é uma forma de solidificar memórias. Uma das crianças, D*. (que está fazendo tratamento contra um neuroblastoma), escolheu incluir fotos de um lago ao qual ia depois de suas terapias contra o câncer. Ela disse: quero que todos conheçam o lago. A verdade é que muitas crianças sabem que têm uma doença que ameaça suas vidas, e estão dispostas a viver a vida dessa forma”, conta o designer.

A participação da família é fundamental no processo, e os livros se tornam, independente dos capítulos futuros da vida real destas crianças, memória. E, para Graham, a convivência com essas pessoas é, também, pessoalmente algo que o move.

“É difícil ver crianças sofrendo, é difícil ver as famílias sofrendo. Essas pessoas têm suas vidas viradas de cabeça para baixo, e têm que lidar com custos de operações, de saúde, em cima de todo o resto. São exemplos brilhantes de como perseverar, de como resolver problemas, de como se envolver com suas comunidades.”

Um dos exemplos “incríveis” disso, citado pelo americano, é o da família de Alejandro Ako, que tem uma paralisia generalizada causada pela atrofia muscular espinhal severa — ela afeta o funcionamento dos músculos, no caso do menino exigindo que ele use um aparelho para conseguir respirar.

Mas Alejandro consegue movimentar seus olhos — e é a partir deles que ele se comunica, através de um software criado pelo pai, que trabalha com programação. Com a engenhoca, Alejandro criou com “os olhos”, brinca Graham, sua história.

“O ponto mais incrível do projeto, para mim, é conhecer essas famílias. São as pessoas mais incríveis do mundo”, exalta o designer.

Uma dessas pessoas, Guiller Bosqued, mãe de Alejandro, conversou com a BBC News Brasil via e-mail sobre a transformação do seu filho em autor. Em março, chegaram a acontecer encontros presenciais, mas depois o processo precisou ser finalizado virtualmente por conta da pandemia de coronavírus. O livro de Alejandro está recebendo doações para então ser publicado.

“Inicialmente, hesitamos em nos comprometer com o projeto porque nosso tempo é muito limitado, mas o Dallas conseguiu acomodar isso muito bem e nunca precisamos desorganizar nossa rotina”, lembra Guiller, que vive na cidade de Chicago. “Alejandro sempre estava muito animado para os encontros, e eles eram muito divertidos.”

O menino criou a história de Peco, um pássaro que vive em um hospital — “que é um dos lugares favoritos do Alejandro, o qual ele visita frequentemente”, explica a mãe. Um dia, Peco percebe que a data do aniversário de um amigo desapareceu do calendário, e uma trupe embarca na busca por esse “dia perdido”.

“Datas são um assunto que Alejandro sempre adorou — ele adora falar sobre elas e tem uma habilidade extraordinária para lembrar delas”, conta Guiller.

“O Dallas fez um trabalho incrível guiando Alejandro no processo da escrita, mas em última instância foi Alejandro que tomou todas as decisões, escolhendo o desenho do pássaro, seu nome, os personagens, o cenário e roteiro.”

Dallas Graham explica que busca dar muita liberdade para as crianças inventarem suas histórias — mesmo que isso signifique mudar bruscamente de roteiro no meio do caminho.

Algumas, mas não todas, vão ao encontro das próprias biografias das crianças, conta Graham — como a de um pássaro que tinha dificuldades de voar, e por isso ficava a todo tempo em sua árvore. No fim, o personagem, diferente do autor por sua condição de saúde, consegue se movimentar.

‘Defenda o que você ama’

Em cada livro, as crianças são convidadas também a sugerir duas lições para o mundo.

N.*, por exemplo, escreveu: “Algumas vezes, nossos dragões nos ajudam.”

G.*: “Defenda o que você mais ama.”

M.*: “Permaneça verdadeiro em relação a você mesma.”

Mas enquanto nós, adultos, buscamos significados profundos nos olhares das crianças, o designer conta que, para estes jovens escritores, a motivação para participar do projeto pode ser muito mais… mundana.

“Elas se tornam autoras de um livro infantil. É uma grande coisa. Haverá uma publicação, uma sessão de autógrafos, com toda a família, amigos e comunidade. Seu livro estará na Biblioteca do Congresso, uma das mais importantes do mundo, para sempre”, diz.

“Mas é também uma forma de expressão pessoal. De identificação para além de sua condição de saúde.”

A mãe de Alejandro Ako diz que, no caso do filho, todas essas motivações foram percebidas.

“Foi uma oportunidade de criar algo que veio dentro dele e era verdadeiramente seu. Foi algo que deu ao meu filho uma sensação de realização e até a percepção de que fez algo que não muitas pessoas conseguirão fazer — assinar um livro”, relata Guiller Bosqued.

“Todos nossos amigos, os professores e colegas dele sabem do livro e o parabenizaram. Foi muito gratificante e legal tê-lo no centro das atenções.”

Entretanto, a pandemia de coronavírus já está afetando etapas essenciais do projeto — principalmente as que promovem interações entre as pessoas, como os próprios encontros com Graham e a sessão de autógrafos. Afinal, a imunidade de muitas dessas crianças é frágil, o que exige atenção redobrada diante da covid-19.

O próximo encontro de Graham com uma criança está marcado para outubro, possivelmente virtual. De todo modo, independente dos meios, podemos esperar o nascimento de mais um autor de livros infantis e a revelação de suas histórias excepcionais.

*Alguns nomes foram omitidos pois, segundo normas da BBC para a proteção de crianças, nomes e imagens de menores de idade só podem ser publicados mediante autorização de responsáveis.

porCIPERJ

ARTIGO: O SUS que ninguém vê

fonte: O Globo

por Francisco Balestrin, presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo

Um economista francês do século XIX chamado Frédéric Bastiat escreveu sobre uma falácia muito comum: aquilo que se vê e aquilo que não se vê. Bastiat usou o exemplo de um menino que quebra a janela da padaria. Se formos olhar somente pelo que se vê, vamos achar que o menino fez um bem à sociedade. Afinal, o padeiro tem que contratar um vidraceiro para reparar a janela, e o vidraceiro, por sua vez, compra vidros de uma vidraçaria, que também tem seus fornecedores de matéria-prima e empregados. Assim, o vandalismo do menino parece ajudar a sustentar toda uma cadeia produtiva.

O problema é aquilo que não se vê. O que teria acontecido se a janela não tivesse sido quebrada? O padeiro certamente teria usado os seus recursos para algo diferente — um novo forno, uma expansão da padaria, além de manter a janela intacta. Assim, se focarmos na janela quebrada, perdemos um universo de possibilidades que estão à nossa frente.

Com o SUS, frequentemente, caímos nessa falácia. Ele parece uma janela quebrada. O que se vê, às vezes, é bastante perturbador. Todos já vimos e experimentamos descaso, filas, desperdícios, corrupção e os mais variados absurdos acontecendo cotidianamente. É mais difícil, entretanto, perceber aquilo que não se vê: como seria o nosso país se não tivéssemos o SUS?

Nesses 30 anos, a saúde brasileira deu um salto exponencial. Avançamos e muito mais rápido do que o resto do mundo. Nesses 30 anos, ganhamos mais de 10 de expectativa de vida. Nossos índices de mortalidade infantil reduziram-se em mais de 75%. O Brasil elevou os seus níveis de vacinação, combateu com eficiência a epidemia de HIV/Aids, expandiu a cobertura de atenção primária e reduziu a menos da metade os índices de tabagismo.

Num tempo com tantos desafios, a pandemia evidenciou o papel relevante do Sistema Único de Saúde, que salvou a vida de milhares de brasileiros que não dispunham de planos de saúde. É preciso sempre lutar para fortalecer um sistema de saúde público e cada vez mais inclusivo.

Sem o SUS, a pandemia teria instalado o caos social, e o Estado contabilizaria um enorme prejuízo, com muito mais vidas perdidas.

O SUS tem muitos problemas. Mas, neste momento em que celebramos seus 30 anos, talvez seja a hora de nos lembrarmos daquilo que não vemos que ele fez por nós. Das milhões de crianças que deixaram de morrer prematuramente, ou que poderiam ter contraído pólio ou sarampo.

Então, que continuemos lutando por um SUS cada vez melhor. Precisamos de um SUS preparado para a era digital, um SUS que seja integrado com a sociedade e com o setor privado e que tenha foco fundamental em ações de prevenção e promoção da saúde. Isso não acontecerá da noite para o dia —levou 30 anos para chegarmos até aqui. Outros tantos serão necessários para transformarmos o SUS num sistema que nos encha de orgulho, tanto naquilo que se vê quanto naquilo que não se vê.

porCIPERJ

Coronavírus: 7 avanços científicos conquistados em meio à pandemia

fonte: BBC Brasil

Há quanto tempo o novo coronavírus chegou para colocar nosso mundo de cabeça para baixo? O isolamento fez o ano passar mais rápido ou devagar? Quando chegará o “novo normal”?

A pandemia de coronavírus — que, aliás, foi declarada como tal pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há (apenas?) seis meses — está afetando de diversas formas nossa percepção do tempo.

E se tem um campo em que os limites do tempo parecem ter sido alterados de forma inédita foi o da ciência.

“Embora possa parecer uma eternidade, é um período (o da pandemia) muito curto para se obter avanços em pesquisas”, dizem os professores Begoña Sanz e Gorka Larrinaga, do Departamento de Fisiologia Humana da Universidade do País Basco, em conversa com a BBC News Mundo (serviço em espanhol da BBC).

E, ainda assim, os avanços estão acontecendo.

“A verdade é que a área de pesquisas está recebendo um grande estímulo de outros campos”, levando a “muitas mudanças pioneiras e revolucionárias”, afirma Miguel Pita, doutor em genética e biologia celular.

As profundas crises sociais, econômicas e de saúde causadas pela pandemia mobilizaram investimentos de milhões de dólares e o trabalho incansável de milhares de cientistas de todo o mundo — e, com isso, pelo menos sete aspectos da ciência já mudaram, de acordo com cientistas entrevistados pela reportagem.

1. Colaboração entre equipes

“O coronavírus promoveu a colaboração entre muitas equipes. E essa é uma notícia muito boa”, diz Pita, professor na Universidade Autônoma de Madrid.

“Os pesquisadores tendem a ser muito colaborativos, mas a pandemia foi um estímulo adicional. E os resultados têm sido compartilhados rapidamente para todos os grupos”.

Begoña Sanz e Larrinaga concordam.

“Obviamente, a pressão exercida pela gravíssima situação sanitária e socioeconômica mundial fez aumentar a colaboração de muitas universidades, grupos e centros de pesquisa”, explicam.

2. Sequenciamento do vírus

Uma destas áreas com forte colaboração internacional é também uma das que registra “grandes avanços”, segundo Pita.

“De forma resumida, diria que, no campo da bioinformática, tem havido grandes inovações na análise de sequências do material genético de cada vírus que infecta as pessoas. Isso nos permite ver como ele evolui com o passar do tempo”, explica o pesquisador.

Desde que a China relatou a existência do novo coronavírus à Organização Mundial da Saúde (OMS), no final de dezembro de 2019, até os primeiros dias de setembro, pesquisadores de todo o mundo registraram 12 mil mutações em seu genoma, de acordo com a revista científica Nature.

E o número cresce a cada dia.

Nas palavras de Pita: “A comunidade científica está colocando suas melhores ferramentas a serviço desta investigação — aumentando muito a capacidade de cálculo e de revisão das alterações genéticas do coronavírus.”

3. Testes

Um dos grandes desafios no combate à covid-19 tem sido detectar pessoas infectadas a fim de isolá-las e, assim, conter a disseminação da doença.

Sobre isso, Pita destaca “o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico muito poderosas e que usam ferramentas de edição de genes — um elemento muito importante da genética hoje”.

O pesquisador reconhece que testes de diagnóstico rápido são “menos sensíveis” que os testes moleculares (PCR), e portanto muitos acabam não sendo confiáveis para a tomada de decisões, mas têm a vantagem de oferecer resultados imediatos e ajudar epidemiologistas a traçar um cenário sobre o avanço (ou não) da doença em determinadas comunidades.

Pita cita também o desenvolvimento de técnicas de diagnóstico diferencial para distinguir o SARS-CoV-2 de outros vírus, “o que é de grande importância para o diagnóstico correto dos doentes e, portanto, para a escolha do tratamento”.

4. A corrida da vacina

O fato deste coronavírus e a doença que ele causa serem novos significa que ainda há muito desconhecimento sobre eles. Mas há algo que para os especialistas é evidente: a única maneira de chegar a uma imunidade coletiva é com uma vacina.

E o sucesso disto depende do cumprimento de alguns requisitos: é preciso encontrar uma candidata que se mostre eficaz, segura e passível de ser administrada à população de forma massiva, dizem Begoña Sanz e Larrinaga.

“Se, como diz a OMS, isso acontecesse em 2022 — embora nos pareça distante —, seria um grande sucesso, considerando o tempo que se levou para obter outras vacinas e aplicá-las em grande parte da população mundial.”

Na verdade, o prazo usual para o desenvolvimento de vacinas é de 15 a 20 anos; agora, pode ser que cheguemos a um recorde de um ou um ano e meio.

Isso foi destacado em um artigo publicado no mês passado no periódico JAMA e liderado por Paul Offit, um imunologista americano famoso por ter participado da criação de uma vacina contra o rotavírus.

O texto diz que o projeto de uma vacina contra o SARS-CoV-2 está caminhando em “velocidade vertiginosa”.

Mas a novidade não está apenas no tempo, mas também nas diferentes metodologias utilizadas para o seu projeto — “algumas delas com características nunca antes consideradas”, diz Pita.

“São vacinas que, tendo eficácia comprovada, representariam um processo de produção industrial muito mais rápido do que de vacinas com desenhos clássicos — algo muito útil em uma situação como a atual (de pandemia)”, afirma o pesquisador.

O artigo no JAMA explica duas novas metodologias que estão sendo utilizadas no desenvolvimento das vacinas.

Uma é o das vacinas de RNA mensageiro (mRNA), que “nunca foram usadas comercialmente para prevenir infecções”, afirma o artigo. É o caso dos projetos da Moderna e também da parceria entre Pfizer e BioNTech.

A outra metodologia é baseada na modificação genética de uma família do vírus da gripe comum, como vem sendo testado pela Johnson & Johnson e pela parceria entre Universidade de Oxford e AstraZeneca.

“Semelhante às vacinas de mRNA, não existem vacinas disponíveis comercialmente para prevenir doenças humanas usando esta estratégia (da alteração genética). Seu uso clínico foi limitado a uma vacina licenciada contra a raiva animal”, diz o estudo publicado no JAMA.

De acordo com Offit e sua equipe, vários fatores como “a natureza trágica de uma pandemia em curso criaram um terreno fértil para a inovação”.

“Embora o sucesso definitivo de uma candidata, ou candidatas, a vacina ainda seja desconhecido, as mudanças na área das imunizações que estas exigentes circunstâncias trouxeram provavelmente vieram para ficar”, dizem os pesquisadores.

5. Outros tratamentos

Além da corrida por uma vacina, pesquisadores também estão dedicados ao desenvolvimento de tratamentos para pacientes infectados com o novo coronavírus — seja com medicamentos existentes, completamente novos, apostando no vírus como alvo ou no fortalecimento do sistema imunológico.

Há também terapias em teste que focam em diferentes fases da doença, desde as mais leves às mais graves.

A OMS monitora mais de 1,7 mil estudos com terapias em potencial pelo mundo, dos quais 990 já estão recrutando pacientes para experimentos.

A organização também coordena um projeto internacional, o Solidarity, que foca em três tratamentos promissores (e já existentes para outras doenças): remdesivir; lopinavir/ritonavir apenas ou associado ao interferon beta. Já foram recrutados 5,5 mil pacientes para estudos clínicos em 21 países. Segundo a OMS, “embora ensaios clínicos randomizados normalmente levem anos para serem elaborados e conduzidos, o Solidarity reduzirá o tempo gasto em 80%”.

6. Práticas de higiene

“Outro grande avanço, não diretamente relacionado às pesquisas nos laboratórios mas que é fundamental para o futuro, é a introdução na cultura dos cidadãos de certos hábitos de higiene e prevenção que ajudarão a conter este e outros surtos causados por vírus”, afirmam Begoña Sanz e Larrinaga.

É o caso do uso de máscaras e de se evitar locais com aglomeração, principalmente fechados, quando há pessoas com sintomas gripais.

Na verdade, estudos em diferentes países já mostram que as medidas tomadas contra a covid-19 tornaram a temporada de outras doenças respiratórias virais menos extensa e mortal.

Por exemplo, uma pesquisa publicada no mês passado no periódico British Medical Journal (BMJ) analisou dados sobre resfriados, gripes e bronquite de 500 clínicas na Inglaterra e descobriu que, em média, nove vezes menos casos foram registrados na comparação com os cinco anos anteriores.

7. A importância da ciência

Para Mercedes Jiménez Sarmiento, bioquímica do Centro de Pesquisas Biológicas Margarita Salas, na Espanha, “uma mudança profunda e resultado da pandemia é que a sociedade entendeu que a solução passa pela ciência”, disse ela à BBC News Mundo.

Os cidadãos, explica, “quiseram saber sobre saúde e ciência, e fizeram-no diretamente com os especialistas. Estes, por sua vez, têm se esforçado para se comunicar melhor, estimulados pela busca por informação de qualidade por parte dos jornalistas e sociedade”.

Jiménez Sarmiento enfatiza que “comunicar ciência não é fácil”: “São conteúdos complexos com uma linguagem segmentada. Os avanços também são lentos e com base em evidências muitas vezes não óbvias, que se modificam quando surgem novas evidências. E isso é difícil de aceitar”.

Por isso, ela acredita que “tem havido um grande avanço mútuo da ciência e da sociedade, porque agora estão mais próximas do que nunca e devem se apoiar”.

porCIPERJ

Como a pandemia de covid-19 pode levar a uma revolução nas vacinas

fonte: BBC Brasil

A covid-19 está mudando radicalmente muitas coisas, e uma delas pode ser como as vacinas funcionam.

A pandemia virou uma oportunidade de colocar à prova uma nova tecnologia que vem sendo desenvolvida há 30 anos.

Os cientistas usam engenharia genética para fazer nossas células produzirem uma parte de um vírus e, assim, ensinar o nosso sistema imunológico a nos proteger dele.

Isso permite criar vacinas muito mais rápido. Elas ainda podem ser mais simples de fabricar e seguras de usar. Provavelmente, vão ser mais baratas também.

Só falta provar que as vacinas gênicas, como elas são chamadas, realmente nos protegem.

Isso nunca foi feito. Até hoje, não há uma vacina deste tipo aprovada para uso em humanos.

Mas duas entre as oito vacinas contra a covid-19 em estágio mais avançado de pesquisa usam essa tecnologia.

Uma é feita pela pelas empresas Pfizer (Estados Unidos), BioNTech (Alemanha) e Fosun (China). A outra está sendo desenvolvida pela companhia americana Moderna.

Ambas já chegaram à terceira e última fase dos testes em humanos e estão sendo aplicadas em milhares de pessoas para ver se são eficazes.

As perspectivas são promissoras, diz Norbert Pardi, professor e pesquisador da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos.

Os estudos feitos até agora apontaram que elas geraram uma boa resposta do nosso sistema imunológico e se provaram seguras.

“Ainda precisamos ver os resultados da última fase, mas estou otimista. Acredito que uma ou mais delas serão aprovadas. Isso tem o potencial de revolucionar o campo das vacinas para doenças infecciosas”, diz Pardi.

Como funcionam as vacinas

A maioria das vacinas que usamos envolve injetar um vírus ou bactéria no nosso corpo para que o sistema imunológico identifique a ameaça e crie formas de nos defender.

No caso dos vírus, eles podem estar enfraquecidos (sua capacidade de nos deixar doentes foi reduzida a níveis seguros) ou inativados (são incapazes de se reproduzir) — faz parte deste segundo tipo a Coronavac, que o governo de São Paulo anunciou na quarta-feira (23/09) que testes com 50 mil pessoas demonstraram ser segura.

Há também as chamadas vacinas de subunidades, em que apenas fragmentos característicos de um vírus, como uma proteína, por exemplo, são produzidos em laboratório e purificados para serem usados na vacina.

A proposta das vacinas gênicas é diferente. Em vez de injetar em nós um vírus ou parte dele, a ideia é fazer o nosso próprio corpo produzir a proteína do vírus.

Para isso, os cientistas identificam a parte do código genético viral que carrega as instruções para a fabricação dessa proteína e a injetam em nós.

Uma vez absorvidas por nossas células, ela funciona como um manual de instruções para a produção da proteína do vírus.

A célula fabrica essa proteína e a exibe em sua superfície ou a libera na corrente sanguínea, o que alerta o sistema imune.

As vantagens das vacinas gênicas

A imunologista Cristina Bonorino explica que, no caso das vacinas atenuadas ou inativadas, é preciso cultivar uma grande quantidade de vírus para usá-los como matéria prima.

As vacinas gênicas dispensam isso. Basta criar em laboratório só a sequência genética desejada.

Isso exige uma estrutura de produção muito mais enxuta. “O custo também é provavelmente menor”, diz Bonorino, que é professora da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e membro do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia.

Márjori Dulcine, diretora-médica da Pfizer Brasil, empresa que fabrica uma das vacinas gênicas, explica que, além desse tipo de vacina ser produzida mais rapidamente em grande escala, ela também é flexível.

“Sabemos que o Sars-Cov-2 tem uma grande capacidade de sofrer mutações. Então, se isso ocorrer, podemos rapidamente adaptar”, diz Dulcine.

As vacinas gênicas também eliminam o risco de uma pessoa ficar doente ao ser vacinada, o que pode ocorrer quando são usados os vírus atenuados.

Os vírus neste estado foram manipulados para serem menos perigosos, mas ainda assim eles conseguem se reproduzir lentamente.

Isso dá tempo suficiente para que o sistema imunológico de uma pessoa saudável reaja e, neste processo, aprenda a combater essa ameaça.

Mas, em casos mais raros, se o paciente é imunocomprometido, ele pode perder essa corrida contra o vírus, e a pessoa fica doente.

“Com esse tipo de vacina, não tem isso, porque ela não usa um micro-organismo vivo. É completamente sintética”, diz Norbert Pardi, da Universidade da Pensilvânia.

O tempo necessário para desenvolver uma vacina também cai drasticamente. Normalmente, leva-se meses para ter uma pronta para os primeiros testes. Com a vacinas gênicas, demora semanas.

“A Moderna levou 42 dias do momento em que recebeu a sequência genética do vírus até começar os estudos da vacina contra a covid-19. Isso é quase impossível com outras tecnologias”, afirma Pardi.

O cientista diz ainda que os testes mostraram até agora que as vacinas gênicas contra a covid-19 geraram uma reação do sistema imunológico ao menos tão boa quanto a das outras candidatas.

“Então, elas não são apenas mais seguras e relativamente baratas de produzir, mas bastante eficazes. Isso é muito importante.”

Vacinas de DNA x Vacinas de RNA

Mas se estas vacinas têm tantas vantagens, por que ainda não há nenhuma aprovada para o uso em humanos? Um dos motivos é que a tecnologia é recente.

A primeira vacina foi criada pelo médico britânico Edward Jenner há pouco mais de 220 anos, na virada entre os séculos 18 e 19, para prevenir a varíola.

As vacinas gênicas estão sendo desenvolvidas há pouco mais de três décadas – e só mais recentemente começaram a dar resultados mais animadores.

A princípio, acreditava-se que seria melhor fazer esse tipo vacina usando DNA, a molécula que guarda todas as informações genéticas de um organismo – e que são usadas pelas nossas células para fabricar as proteínas que compõem o nosso corpo.

Mas, para que isso aconteça, o DNA precisa antes ser transformado em moléculas de RNA, que transportam essas instruções até a parte da célula onde as proteínas são produzidas.

Os cientistas acreditavam que, ao injetar o DNA do vírus em nós, ele poderia ser absorvido por nossas células e, uma vez dentro delas, transformado em RNA para que então a proteína desse micro-organismo fosse fabricada, o que daria início à reação imune.

Mas os testes feitos até agora mostraram que as vacinas de DNA não produzem uma resposta imunológica forte o suficiente em humanos. “Não sabemos exatamente por quê”, diz Pardi.

Outra alternativa é usar diretamente o RNA. O problema é que essa molécula é capaz de gerar uma inflamação muito forte em nós e que pode nos matar.

Também é muito mais instável do que o DNA e se degrada facilmente no nosso organismo.

“Temos em nós, por tudo quanto é lado, enzimas que atacam o RNA. Se você injetar ele sem que esteja protegido, ele é rapidamente destruído”, diz Jorge Kalil, diretor do Laboratório de Imunologia do Instituto do Coração (Incor).

Mas, nos últimos 15 anos, os cientistas encontraram uma forma de envelopar essa molécula para impedir que ela se decomponha e chegue até a célula. Também conseguiram reduzir o potencial inflamatório do RNA.

“A expectativa é que, daqui a algum tempo, quando a gente domine essa tecnologia, muitas vacinas no futuro sejam desse tipo”, diz Kalil.

Como estão as vacinas contra a covid-19

A pandemia criou algumas condições que provavelmente estão acelerando esse processo.

A covid-19 é uma doença nova, muito contagiosa e mortal, contra a qual ainda não existe uma vacina. Criar uma é urgente.

Fazer isso normalmente custa dezenas ou centenas de milhões de dólares, mas agora há muito dinheiro sendo investido por governos e organizações.

E, quando uma vacina estiver pronta, países do mundo todo terão interesse em comprá-la.

“A maior dificuldade para fazer uma vacina é dinheiro, porque a técnica é relativamente simples”, diz a imunologista Cristina Bonorino.

“Já existem vacinas de RNA patenteadas, mas elas não foram colocadas no mercado. A questão é: tem mercado? Agora, tem mercado e uma necessidade não atendida.”

Há 40 vacinas gênicas entre as 187 que estão sendo desenvolvidas contra a covid-19, segundo a Organização Mundial da Saúde. Dez já são testadas em humanos, e duas estão na última etapa desta parte da pesquisa.

O estudo da vacina da Moderna envolve 30 mil participantes nos Estados Unidos. A pesquisa da Pfizer/BioNTech/Fosun também conta com 30 mil voluntários nos Estados Unidos e em outros países, entre eles o Brasil.

Nos dois casos, as empresas já desenvolviam vacinas de RNA para combater outros vírus.

No caso da Moderna, era o Nipah, que é transmitido por morcegos e pode causar problemas respiratórios e uma inflamação no cérebro que são potencialmente mortais.

A Pfizer e a BioNTech estavam criando uma vacina de RNA contra o influenza, que causa a gripe.

O objetivo é fazer nossas células produzirem a proteína do coronavírus conhecida como espícula, que tem uma grande capacidade de gerar uma resposta do sistema imunológico.

“Acho que essas vacinas têm potencial. Os resultados publicados mostram que elas induzem à produção de uma grande quantidade de anticorpos que neutralizam o vírus. O teste final será ver se essa proteção é duradoura”, diz o imunologista Jorge Kalil.

O estudo da Pfizer vai durar dois anos, mas a empresa espera ter os primeiros resultados para apresentar às agências regulatórias já no final de outubro e começo de novembro.

“O momento exige de nós agir rapidamente, com segurança e qualidade. Nosso papel é apresentar dados robustos às autoridades”, diz Márjori Dulcine.

“São elas que vão nos dizer se eles são suficientes.”