Arquivo mensal novembro 2020

porComunicação CIPERJ

Invaginação Intestinal: O que é? O que fazer?

A CIPERJ dá início nesta semana a uma série de publicações voltada para o público em geral, onde nossa ideia é  divulgar orientações a respeito de doenças frequentes que precisam da atuação do cirurgião pediátrico, dando uma opinião ou realizando a cirurgia. Achamos que este projeto é de utilidade pública, fornecendo material de boa qualidade como fonte de educação e recurso de informação ao público leigo, considerando que nem sempre a qualidade das informações sobre saúde disponíveis livremente na internet são de boa qualidade técnica ou que, por outra, podem ser de difícil entendimento para leigos.

Estes posts serão elaborados por profissionais experientes associados da CIPERJ e revisados por pares, e serão disponibilizados para livre acesso.

Nesta semana abordaremos invaginação intestinal, sobre o que conversamos com a Dra. Karla Ferreira Pinto, coordenadora do Serviço de Cirurgia Pediátrica do Hospital Municipal Albert Schweitzer, uma das principais referências para atendimento de urgências e emergências em cirurgia pediátrica no Rio de Janeiro.

A seguir apresentamos detalhes desta doença pediátrica bastante frequente e mostramos a importância do diagnóstico precoce e do trabalho do cirurgião pediátrico para o diagnóstico e tratamento.

INVAGINAÇÃO INTESTINAL: O QUE É? O QUE FAZER?

  1. PORQUE MEU BEBÊ TEM UMA INVAGINAÇÃO INTESTINAL?

A maioria dos casos de invaginação intestinal acontece em crianças de 5 a 8 meses, e até os 2 anos de idade. A causa é mal definida em 95% dos casos e parece ter relação com uma hipertrofia incidental do tecido linfático da parede do intestino.

Em 5% das crianças a doença pode ser desencadeada por tumores intestinais malignos ou benignos (linfomas, tumores da parede do intestino, cistos, pólipos, hematomas), ou, ainda, divertículos da parede do intestino (divertículo de Meckel, principalmente). É claro que este último grupo, embora minoritário, precisa de um tratamento específico e tem que ser identificado.

A doença é mais frequente no inverno porque viroses, também mais comuns nesta estação, podem provocar um aumento do tecido linfoide, inclusive na parede intestinal. Uma teoria muito aceita sobre a doença é que ao apresentar uma infecção viral, mesmo resfriados comuns, a criança tenha um aumento em suas Placas de Peyer (o nome científico dos aglomerados linfoides do intestino, que ficam no final do intestino delgado, o íleo), gerando um “endurecimento” da parede do intestino. Quando o conteúdo do intestino passa encontra uma parede intestinal mais rígida, que não aceita um movimento normal. Aí uma parte do intestino “entra dentro” (se invagina) da parte seguinte, causando uma obstrução.

A obstrução causa dores intensas, que no início são cólicas repetitivas e pode ser grave a ponto de dificultar a chegada do sangue na parte afetada do intestino, gerar infecção, perda de um pedaço do intestino e até uma perfuração para dentro do abdome.

A invaginação é menos comum em crianças acima dos dois anos de idade, mas em crianças mais velhas está associada mais vezes a anormalidades ou divertículos ou da parede do intestino.

  1. QUAIS SÃO OS PRINCIPAIS SINTOMAS?

Os sintomas mais comuns são crises de choro intenso e repentino, sem razão aparente. No momento dos surtos de cólica, a criança em geral empalidece e contrai as perninhas. Nos intervalos da dor a criança fica quietinha, muitas vezes apática e sonolenta. Na verdade, o bebê está sentindo crises de cólica muito intensa.

Podem ocorrer vômitos reflexos pela dor. Com o passar do tempo o padrão dos vômitos muda e podem se tornar biliosos (verdes) ou fecalóides (parecidos com fezes), à medida que a obstrução intestinal persiste.

Também acontece a diminuição ou parada de eliminação de fezes e de gases pelo reto. A criança pode eliminar uma mistura de muco e sangue pelo reto (parecido com geleia de frutas vermelhas), porque o intestino em sofrimento começa a “descamar” internamente, em geral já nas primeiras 24 horas da doença.

À medida que a doença progride a dor aumenta e podem aparecer sinais de choque (colapso circulatório).

  1. QUAL É O TRATAMENTO? PRECISA DE CIRURGIA? QUEM FAZ?

O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico, dependendo da avaliação de cada caso pelo cirurgião pediátrico, que é o profissional mais preparado para diagnosticar e tratar esta doença.

Em crianças menores a chance de desobstrução sem cirurgia é maior. Acima de 2 anos de idade a indicação de tratamento cirúrgico é mais frequente, porque causas primárias são mais comuns. Muitos acreditam que cirurgia sempre deve ser a escolha nas crianças mais velhas.

É muito importante fazer o atendimento e o diagnóstico rapidamente, dentro das primeiras 24 horas do início dos sintomas, para evitar complicações.

O diagnóstico, além de clínico, precisa de exames radiológicos (radiografias simples do abdome, radiografias do intestino com contraste e/ou ultrassom).

Por exemplo, se um bebê de 5 meses apresenta há 12 horas um quadro de vômito, com parada de eliminação de gazes e fezes, barriga inchada e cólica, ele tem uma suspeita de invaginação intestinal, e possivelmente o médico vai pedir uma radiografia abdominal e/ou ultrassonografia, que servem bem para diagnosticar esta doença e não são invasivos. De forma geral, exames mais sofisticados como tomografia e ressonância magnética são desnecessários.

Se o diagnóstico de invaginação for confirmado o cirurgião pediátrico iniciará o processo de desobstrução do intestino, que pode ser feito com uma radiografia contrastada que tenta “empurrar” o intestino de volta para trás, desfazendo a obstrução. Esta técnica precisa de inserir uma sonda no ânus e injetar água, contraste ou gás, de forma controlada e é chamada de REDUÇÃO INCRUENTA (não operatória). Também pode ser feito com ajuda de ultrasom.

Se não tiver complicações e tiver pouco tempo de evolução da doença a expectativa é que tudo seja resolvido com a desobstrução incruenta.

Caso não seja possível a reversão da invaginação intestinal assim será necessária uma intervenção cirúrgica de emergência para desfazer a invaginação ou remover a parte afetada do intestino.

Se a criança apresenta um quadro clínico longo (mais de 48 horas) ou sinais de complicações, estes métodos incruentos não devem ser usados porque são pouco resolutivos e podem causar uma perfuração do intestino.

Pode ser necessário retirar um segmento de intestino nos casos em que o intestino se encontra muito sofrido, perfurado ou necrosado. Neste caso pode-se fazer uma anastomose (“costura” de uma ponta do intestino à outra) ou um estoma (colocar o intestino drenando para fora, costurado na parede do abdome – neste caso uma cirurgia de reconstrução vai ser necessária depois).

  1. QUAL É O RISCO DA CIRURGIA? COMO É O PÓS-CIRÚRGICO?

O risco da cirurgia está muito relacionado à presença ou não de complicações da doença. Nos casos simples o pós-cirúrgico de reparação da invaginação intestinal costuma ser tranquilo. Pode apresentar dores/ incômodos abdominais devido à intervenção, mas são controlados facilmente com medicação adequada.

Após a cirurgia, é normal que o intestino não funcione normalmente por algum tempo (24 a 48 horas) e muitos médicos recomendam jejum durante um período limitado. É recomendado que a criança fique internada até que o trânsito intestinal volte ao normal, não seja mais necessária medicação endovenosa e o bebê esteja se alimentando normalmente.

Em linhas gerais, a evolução do pós-operatório depende do que foi feito, se foi retirada alguma porção do intestino ou não e se havia complicações no momento da cirurgia, mas as crianças não apresentam sequelas permanentes.

  1. QUAL É A EXPECTATIVA DE VIDA DO PACIENTE OPERADO?

Se não houve a ressecção do intestino, o paciente terá uma vida normal. Caso contrário, dependerá da extensão do intestino que precisou ser retirado.

  1. EXISTE FORMA DE PREVENIR? QUAIS SÃO AS PRINCIPAIS RECOMENDAÇÕES AOS PAIS E RESPONSÁVEIS?

Não existe forma de prevenir a invaginação intestinal, mas observar os sintomas com rapidez facilita o diagnóstico e garante um tratamento adequado e menos agressivo, reduzindo a gravidade da situação. QUANDO UMA CRIANÇA SEM OUTROS PROBLEMAS APRESENTA SUBITAMENTE CÓLICA INTENSA E REPETITIVA COM VÔMITOS A POSSIBILIDADE DE UMA INVAGINAÇÃO INTESTINAL NÃO PODE SER ESQUECIDA, ESPECIALMENTE NO CASO DE BEBÊS ATÉ 2 ANOS DE IDADE.

  1. ADULTOS PODEM APRESENTAR INVAGINAÇÃO INTESTINAL?

A doença é muito rara em adultos e raríssima em adolescentes, exceto em casos de tumores intestinais.

  • Coordenadora de cirurgia pediátrica do Hospital Municipal Albert Schweitzer
  • Coordenadora de serviço de Cirurgia Pediátrica da Secretaria de Saúde de Duque de Caxias
  • Professora adjunta mestre I da disciplina de Cirurgia Pediátrica da Universidade do Grande Rio (UNIGRANRIO)
  • Título de fellowship pelo American College of Surgery (2016)
porCIPERJ

Procon multa Amil em R$ 10 milhões por reajustar planos de saúde em mais de 50% do permitido

fonte: O Globo

O Procon-SP multou a Amil em R$ 10.255.569,90 por ter aplicado aumento para as faixas etárias acima de 49 anos, em média, 50% a mais do que autorizado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS).

A pena também foi imputada pela recusa da empresa em informar ao órgão de defesa do consumidor os índices de sinistralidade de 2020 –  que representa o volume de dinheiro gasto em assistência contra o arrecadado – em comparação com 2019 dos contratos coletivos empresariais. Na avaliação do Procon-SP esse dado é fundamental para que se possa analisar o reajuste anual aplicado nesses contratos.

Em nota, Fernando Capez, diretor-executivo do Procon-SP, destacou que os reajustes acima dos autorizados pela agência reguladora causam prejuízo  justamente às pessoas em faixa etária de maior vulnerabilidade.

Capez adiantou que outras operadoras de planos de saúde serão notificadas a apresentar seus contratos para análise do Procon-SP para que seja verificado se  as regras estão sendo cumpridas.

O Procon-SP explica que a ANS estabelece limites para variação de preço entre faixas etárias. De acordo com a norma, as operadoras devem ser adotadas dez faixas etárias, sendo que “a variação acumulada entre a sétima e a décima faixas não poderá ser superior à variação acumulada entre a primeira e a sétima faixas” (artigo 3º, inciso II).

Pela análise do órgão de defesa do consumidor,  em alguns contratos a variação acumulada entre a primeira e a sétima faixa etária foi de 110,47% e entre a sétima e a décima, de 168,05%.

As reclamações dos consumidores e a análise dos contratos pelos especialistas do órgão apontam ainda outras irregularidades cometidas pela Amil. Entre elas, negativa de exames e consultas e cancelamento do contrato alegando inadimplência, sem prévia comunicação ao consumidor.

A Amil informa que analisará o teor do auto enviado pelo Procon e apresentará sua defesa dentro do prazo legal estabelecido.

porCIPERJ

Como a Alemanha está despontando em saúde digital?

fonte: Saúde Business

A pandemia atual acelerou a velocidade e a escala da adoção de tecnologias digitais de uma forma difícil de se imaginar em circunstâncias normais, especialmente em saúde. Podemos citar exemplos como a telemedicina, chatbots, aplicativos de rastreio e monitoramento, e até uso de dados em escala global para previsão de alocação de suprimentos e equipamentos médicos.

Já adiantado com a nova tendência, em novembro de 2019, o parlamento alemão aprovou novas regras de apoio à inovação digital na saúde com o propósito de acelerar o licenciamento de produtos digitais para um mercado de 82 milhões de pessoas no país. A estratégia da Lei de Saúde Digital é estimular o poder inovador do sistema de saúde do país.

A legislação, além de disponibilizar a prescrição de aplicativos médicos com custo coberto pelo seguro saúde público do país, também facilita aos pacientes a realização de visitas médicas virtuais, habilitando os médicos a anunciarem seus serviços em websites. Até janeiro de 2021, todos os pacientes segurados terão acesso a um registro de saúde e prescrições de forma eletrônica.

Os dados anônimos dos pacientes estarão disponíveis para organizações de pesquisa e universidades afim de promover novas descobertas no desenvolvimento de medicamentos,
terapias e soluções avançadas de aprendizado de máquinas. Farmácias e hospitais serão obrigados a se conectar à Infra-estrutura telemática, uma rede de comunicação segura na qual os pacientes possam acessar seus registros eletrônicos de qualquer lugar.

Além disso, a Lei de Saúde Digital reconhece que nem todos dominam o uso de aplicações digitais ou de telemedicina. Portanto, exige que as instituições de seguro de saúde ofereçam serviços que ajudem as pessoas a adquirir as habilidades necessárias. De forma resumida, aproximadamente 90% da população na Alemanha está coberta por um seguro de saúde do Estado, enquanto os 10% restantes por um privado. O seguro saúde na Alemanha é obrigatório. Qualquer pessoa cuja renda anual esteja abaixo de um limite definido por lei deve adquirir um seguro de saúde pelo governo, enquanto que qualquer pessoa que ganhe mais do que isso pode optar por adquirir um seguro privado.

A notícia movimentou o mercado já que a cultura alemã não é tão aberta às tecnologias digitais e à troca de dados. Inclusive, segundo uma pesquisa, 19% dos entrevistados acreditam que questões relacionadas à privacidade e segurança dos dados podem ser um obstáculo para a adoção de produtos de saúde digital.

Historicamente, a saúde digital não tem sido um drive de mudança. Alguns dizem que tem sido a área de investimento mais decepcionante das últimas duas décadas, com pouco retorno para os mais de 30 bilhões de dólares que foram investidos desde 2011. Duas das grandes razões podem ser a recusa dos clientes em pagar por soluções B2C do próprio bolso e a dificuldade em se vender B2B quando os sistemas são tão avessos aos riscos.

Para participarem do Ato Digital, os fornecedores de aplicativos digitais de saúde, que se enquadrem na classe CE 1 e 2 de dispositivos médicos de baixo risco, devem solicitar cadastro ao Instituto Federal de Medicamentos e Dispositivos Médicos (BfArM). É importante ressaltar que as aplicações devem ter a tecnologia como foco e estarem centradas no pacientes e não nos profissionais de saúde.

O BfArM testa os aplicativos quanto à segurança, funcionalidade, qualidade e proteção de dados, por um período de três meses. Se validada, a solução de saúde digital pode ser prescrita por profissionais de saúde. Eles serão pagos pelos serviços que prestam com a ajuda dos aplicativos, tais como consultas remotas, diagnóstico ou monitoramento. Por outro lado, os fornecedores dos aplicativos serão pagos com base no modelo de receita e preço proposto pela solução.

Caso, neste momento, a empresa ainda não tenha comprovado a melhora no resultado do paciente ou a eficiência no cuidado, há um período de 12 meses para a demonstração. Uma vez aprovada, a empresa negocia o preço final e participa do programa em definitivo. A Alemanha prevê um apoio financeiro de 200 milhões de euros por ano até 2024 para ações de inovação e digitalização relacionadas ao Ato Digital.

Em outubro de 2020, foram divulgados os dois primeiros aplicativos a serem validados pelo BfArM. Eles são o aplicativo Kalmeda, que promete ajudar com a lidar com os ruidos incômodos do ambiente através de terapia comportamental, e Velibra, um programa de terapia para distúrbios de ansiedade. Agora, eles terão que demonstrar que o processo de tratamento é efetivo dentro de um ano. A eficácia do Kalmeda, por exemplo, será testada em um estudo com 150 pacientes.

Alguns paciente já utilizam, por conta própria, aplicativos que os ajudam a tomar seus medicamentos regularmente ou a controlar seus níveis de açúcar no sangue, por exemplo. Estudos mostram que apenas 6% dos pacientes já utilizaram aplicações médicas pagas no passado, no entanto, quase 60% usariam essas ferramentas digitais se seu médico as prescrevesse e os custos fossem cobertos pelo pagador.

Com esta lei, as seguradoras de saúde poderão investir em empresas de saúde digitais e promover o desenvolvimento de inovações de uma forma orientada às necessidades do paciente fornecendo financiamento específico para boas ideias e participando de fundos de capital de risco especializados em inovação na saúde. É, em parte, um modelo único em termos de risco, mas significará uma entrada adicional no mercado ou oportunidades de financiamento para empresas de saúde digitais na Alemanha.

A legislação representa uma oportunidade inédita para reembolso em larga escala de aplicações de saúde digital baseadas em evidências. Embora a Alemanha seja um dos maiores mercados de saúde do mundo com gastos anuais de cerca de 374 bilhões de euros, historicamente tem tido um dos níveis mais baixos de digitalização entre os países desenvolvidos. É um passo importante não apenas na modernização do sistema de saúde alemão, mas também na melhoria da qualidade do atendimento aos pacientes e na melhor preparação para futuras pandemias.

Com mais de 11% do PIB destinado à saúde, a Alemanha é de longe o país que mais gasta em saúde na Europa. Os KPIs nacionais, como aumentar a expectativa de vida, permitir mais cuidados ambulatoriais e comunitários, e tornar a assistência médica menos onerosa, entretanto, não correspondem a estes altos níveis de investimento. O denominador comum entre os países que possuem bons resultados nestes KPIs são os níveis avançados de digitalização e integração dos sistemas nacionais de saúde, além de cuidados focados na atenção primária e não em hospitais.

Ainda que com toda a estruturação legislativa e o discurso de apoio à transformação digital, pontos como a eficiência do BfArM em aprovar novas aplicações, o gerenciamento financeiro do ecossistema de soluções digitais, e os canais de conscientização dos pacientes e profissionais da saúde sobre utilização/resultados das aplicações ainda precisam ser melhor observados.

porCIPERJ

Confira tabela com honorários pagos pelas operadoras de saúde no Rio de Janeiro

Em breve os médicos irão discutir com as operadoras de saúde o reajuste anual em procedimentos e consultas. Tendo em vista isso, o CREMERJ disponibiliza, mensalmente, tabela com os valores pagos por cada uma das operadoras no Estado do Rio de Janeiro.

Confira a tabela referente à outubro de 2020.

porCIPERJ

Taxas de sífilis no Brasil dispararam na última década

fonte: Associação Paulista de Medicina

Em uma década, a taxa de brasileiros com sífilis adquirida por 100.00 habitantes foi de 2,1 (em 2010) para 72,8 (2019). Os números também cresceram nos casos de sífilis em gestantes e de sífilis congênita. Em 2010, a cada 1.000 nascidos vivos, 3,4 tinham a doença congênita, bem como 3,5 gestantes mantinham a condição. Em 2019, os números saltaram para, respectivamente, 8,2 e 20,8.

As informações são da edição especial do Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS) do Ministério da Saúde, que compilou dados, indicadores e análises sobre a sífilis no Brasil ao longo dos anos.

Mais especificamente sobre os casos de sífilis adquirida, somente em 2019 o Brasil teve 152.915 casos. O estudo também indica que, entre 2010 e junho de 2020, foram notificados 783.544 casos – 52,7% no Sudeste, 22,2% no Sul, 13% no Nordeste, 6,8% no Centro-Oeste e 5,2% no Norte.

No último ano, a maior parte das notificações de sífilis adquirida ocorreu em indivíduos entre 20 e 29 anos (36,2%), seguidos por aqueles na faixa entre 30 e 39 anos (21,8%). Na abrangência da série histórica, observa-se que 41,1% dos casos ocorreram em homens e 58,9% em mulheres. Os pardos e pretos (48,3%) são mais afetados do que os brancos (35,3%).

A série histórica dos casos de sífilis em gestantes é maior, englobando números de 2005 a junho deste ano. Ao todo, no período foram 384.411 notificações – 45,3% no Sudeste, 20,9% no Nordeste, 14,8% no Sul, 10,2% no Norte e 8,8% no Centro-Oeste. No último ano, as notificações ficaram em 61.127.

Quando analisada a idade gestacional de detecção de sífilis em gestantes, observou-se que, em 2019, a maior proporção das mulheres (38,7%) foi diagnosticada no primeiro trimestre, ao passo que 24,2% representaram diagnósticos realizados no segundo trimestre e 30,4% no terceiro trimestre.

Ainda mais ampla, a série histórica dos casos de sífilis congênita mostra que, entre 1998 e junho de 2020, o Brasil teve 236.355 notificações em menores de um ano de idade. Dos casos, 44,5% foram no Sudeste, 29,8% no Nordeste, 11,5% no Sul, 8,5% no Norte e 5,7% no Centro-Oeste. Somente em 2019, foram 24.130 casos de sífilis congênita no País.

O estudo
A edição especial Boletim Epidemiológico sobre a sífilis foi produzida pelo departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, ligado à SVS, com o

propósito de disponibilizar dados e informações sobre as tendências da doença no País, visando aperfeiçoar a capacidade de formulação, gestão e avaliação de políticas e ações públicas.

Em essência, o conteúdo busca refletir algumas das principais características da epidemiologia da sífilis no Brasil. O material trabalha em três eixos principais: casos de sífilis adquirida; de sífilis em gestantes; e de sífilis congênita. Os dados foram retirados, até 30 de junho deste ano, do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) do Ministério.

Para os responsáveis pelo boletim, é essencial expandir e facilitar o acesso a essas informações. Por isso, os dados também foram disponibilizados no Painel de Indicadores Epidemiológicos dos 5.570 munícipios brasileiros. Esse painel apresenta a distribuição municipal de 18 indicadores de sífilis, visando melhorar a qualidade e tempestividade das tomadas de decisão realizadas por diferentes instâncias de gestão.

No Boletim, o Ministério da Saúde afirma estar executando diversas estratégias de abrangência nacional para o controle da sífilis no País, entre as quais: compra centralizada e distribuição de insumos de diagnóstico e tratamento; desenvolvimento de instrumentos de disseminação de informação estratégica aos gestores; instrumentalização de salas de situação em todos os estados; realização de Campanha Nacional de Prevenção; e desenvolvimento de estudos e pesquisas voltados para o enfrentamento da sífilis no Sistema Único de Saúde (SUS)

porCIPERJ

Avanços no SUS não estão garantidos

fonte: Associação Paulista de Medicina

A pandemia de Covid-19  não reforçou somente a importância do papel do médico na sociedade, mas trouxe também foco ao Sistema Único de Saúde (SUS) para a população brasileira, que neste momento de crise precisou como nunca dele. Além do importante trabalho da Vigilância Epidemiológica, dados da pesquisa PNAD-Covid-19, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostravam em junho que mais de 80% dos atendimentos de pacientes com sintomas gripais haviam ocorrido na rede pública, em Unidades Básicas de Saúde (UBS), Unidades de Pronto Atendimento (UPA) e hospitais e prontos-socorros.

“Mesmo sendo historicamente subfinanciado e convivendo com um teto de gastos que impede o crescimento de investimentos, o SUS teve a sua rede expandida significativamente nos últimos meses, em decorrência da pandemia de Covid-19”, ressalta o diretor de Comunicações da Associação Paulista de Medicina, Everaldo Porto Cunha, também conselheiro do Cremesp. Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná e Pernambuco viram os leitos dobrarem. Em outros estados, como Acre, Paraíba e Alagoas, o crescimento foi ainda maior.

Cidades que não contavam com nenhum leito passaram a ter Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) para lidar com os infectados pelo novo coronavírus. Estes avanços, porém, ficam sob risco com o arrefecimento dos números da pandemia no Brasil. À Folha de S. Paulo, secretários de Saúde indicaram que, se não houver investimento do Executivo, não será possível manter a estrutura.

A posição dos gestores é de pleitear a manutenção, junto do Ministério da Saúde, destes leitos no Orçamento para 2021. Segundo a pasta governamental, foram habilitados 12.698 leitos de UTI para Covid-19, ao custo de R$ 1,8 bilhão.

Tentando garantir a manutenção, a senadora Rose de Freitas apresentou o Projeto de Lei 4.462/2020, que impede que os leitos incorporados durante o estado de calamidade pública causado pela Covid-19 sejam desmontados mesmo após o fim da pandemia. Para não engessar a gestão das secretarias de Saúde, fica prevista a possibilidade de remanejamento dos leitos entre localidades. Excepcionalmente, o leito até poderá ser desativado, ainda que temporariamente, caso o gestor demonstre a inviabilidade da manutenção. Até o fechamento da Revista da APM, o projeto ainda aguardava o início de sua tramitação.

FINANCIAMENTO 

Além dos R$ 134,7 bilhões orçados para a Saúde neste ano, o Executivo anunciou, em março, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) definiu a crise da Covid-19 como uma pandemia, uma nova ação orçamentária específica para lidar com a situação. A dotação previa mais R$ 38,9 bilhões. Até junho, porém, menos de um terço da verba havia sido gasto, apontou auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU).

O órgão indicou, como publicou o jornal Folha de S. Paulo, que em relação aos gastos feitos diretamente pelo Ministério da Saúde, foram efetivados apenas 11,4% do previsto. Governos estaduais e municipais, por sua vez, receberam pouco mais de 3% das verbas indicadas pelo Executivo.

Além disso, o Governo Federal prevê cortar o orçamento do Ministério da Saúde para o próximo ano. A intenção do Executivo é destinar R$ 127,75 bilhões para o setor em 2021. Valor menor do que o de 2020 e do que o limite atual de gastos da pasta, que é de mais de R$ 174 bilhões (soma do orçamento original com a verba extra para lidar com a pandemia). “Ainda teremos de enfrentar a pandemia no próximo ano, com um orçamento inferior ao que já não era suficiente para suprir todas as demandas, e sem mudanças significativas na gestão”, complementa Marun David Cury, diretor de Defesa Profissional da APM.

Outra notícia preocupante para os gestores do SUS é a redução nos repasses recebidos dos planos de saúde no primeiro semestre deste ano. Segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), neste período foram enviados ao sistema público R$ 491 milhões. No mesmo período do ano passado, esse valor foi de R$ 522,31 milhões.

A ANS diz que em razão da pandemia e devido à alteração de prazos processuais administrativos vigentes pela Medida Provisória 928 (que dispõe sobre as medidas de enfrentamento à Covid-19), o processo de ressarcimento foi afetado no que diz respeito à recepção de impugnações e recursos e, consequentemente à sua análise, cobrança e repasse.

HOSPITAIS DE CAMPANHA

Em paralelo às discussões sobre a manutenção do legado na infraestrutura da saúde pública, o número de hospitalizações em decorrência da Covid-19 diminuiu e os hospitais de campanha – abordados em detalhes na edição de maio/junho da Revista da APM – começaram a ter as suas estruturas desmontadas.

No estado de São Paulo, o Hospital de Campanha do Ibirapuera, único que ainda funcionava, foi encerrado no último dia 26 de setembro. Ao todo, foram mais de 3.000 indivíduos acolhidos no local.

O governador João Dória indicou que o encerramento dessas atividades está atrelado à redução nos índices da pandemia em São Paulo, que registram queda de novas internações seguidamente.

Antes, a capital paulista já havia assistido ao desmonte do Hospital de Campanha erguido no estádio do Pacaembu, que se tornou marco simbólico da pandemia em São Paulo. Pela baixa ocupação, a Prefeitura de São Paulo encerrou as atividades ainda em junho no local, que recebeu mais de 1.500 pacientes, dos quais apenas três foram a óbito nos quase três meses de funcionamento.

Em 8 de setembro, a Prefeitura também anunciou o fechamento do Hospital de Campanha do Anhembi, que funcionava desde abril com 1,8 mil leitos e mais de 6.000 atendimentos. Além desses, São Paulo teve estruturas de hospitais de campanha montadas junto dos Hospitais Municipais da Brasilândia e de Parelheiros.

No auge da pandemia, o estado de São Paulo tinha 33 hospitais de campanha, seis deles na capital. Tanto a Prefeitura quanto o Governo de São Paulo anunciaram que os equipamentos utilizados nas estruturas serão encaminhados às unidades locais da rede pública de Saúde.

Desde 9 de outubro, a Grande São Paulo e as regiões da Baixada Santista, Campinas, Piracicaba, Sorocaba e Taubaté passaram para a fase verde do Plano São Paulo de controle da pandemia, com retomada gradual de atividades econômicas não essenciais. Segundo o governador João Dória, 76% da população paulista está, agora, em regiões com menos restrições, permitindo atividades culturais, convenções, eventos sociais e de negócios.

Já atividades que geram aglomeração, tais como festas, baladas, eventos esportivos com público e grandes shows continuam proibidas em todo o estado. A tendência, segundo o governo, é que essas atividades só sejam liberadas após uma eventual vacina contra o coronavírus.

porCIPERJ

Pneumonia segue como principal causa de morte de crianças no país

fonte: Agência Brasil

No dia em que se celebra o Dia Mundial de Combate à Pneumonia, a Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) alerta para a importância da prevenção da doença, que segue sendo a principal causa de morte em crianças de até 5 anos de idade.

Segundo a entidade, embora a taxa de mortalidade da pneumonia tenha tido uma redução de 25,5% entre 1990 e 2015, a quantidade de internações e o alto custo do tratamento ainda são desafios para a saúde pública e a sociedade como um todo.

“Entre janeiro e agosto deste ano, 417.924 pacientes foram hospitalizados por causa de pneumonia no Brasil, totalizando gastos totais de mais de R$ 378 milhões com serviços hospitalares. No mesmo período do ano passado, foram 430.077 internações, de acordo com informações do Datasus”, disse a SBPT.

Dados do DataUnicef, ligado ao Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), também alertam para os riscos da doença que é a maior causa de morte por doença infecciosa de adultos e crianças, sendo responsável pela morte mais de 802 mil crianças com até cinco anos, em 2018, em todo o mundo. A entidade chama atenção para o fato de que, no mundo, a cada 39 segundos morre uma criança vítima de pneumonia.

A doença

A pneumonia é uma doença inflamatória aguda que acomete os pulmões e pode ser provocada por bactérias, vírus, fungos ou pela inalação de produtos tóxicos. O Streptococcus pneumoniae é o agente causador em 60% dos casos. As principais manifestações clínicas da doença são tosse com produção de expectoração; dor torácica, que piora com os movimentos respiratórios; mal-estar geral; falta de ar e febre.

Além disso, quadros de resfriado comum e gripe podem se agravar e contribuir para o desenvolvimento da pneumonia causada por bactérias.

A integrante da Comissão Científica de Infecções Respiratórias da SBPT pneumologista Rosemeire Maurici da Silva lembra que a qualquer sinal desses sintomas a pessoa deve procurar um médico.

“Devemos ficar atentos para os sinais e sintomas e procurar auxílio médico precocemente, principalmente no caso de pacientes que apresentam maior risco de complicações e de morte, como crianças e idosos, além de portadores de outras doenças crônicas ou situações em que ocorre deficiência do sistema imunológico”, disse Rosemeire.

Recomendações

As principais recomendações da SBPT para prevenir a pneumonia são lavar as mãos com frequência; não fumar; não usar bebidas alcoólicas; evitar aglomerações e se vacinar. No Brasil, a vacinação contra a doença é oferecida pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de forma gratuita.

Algumas das populações prioritárias para a vacinação são os adultos com idade igual ou superior a 60 anos, portadores de doenças crônicas, indivíduos em situação de imunossupressão, gestantes, residentes em lares de idosos, profissionais da saúde, cuidadores de crianças, indígenas, população carcerária, tabagistas e portadores de asma.

Além da pneumonia, o SUS garante o acesso gratuito a 19 vacinas, que protegem contra mais de 40 doenças, entre elas doenças infecciosas como a poliomielite, meningite, difteria, tétano, coqueluche, sarampo, caxumba, rubéola, hepatites virais, gripe, tuberculose, febre amarela, entre outras.

Covid-19

A pandemia do novo coronavírus (covid-19) também é um fator a mais de preocupação. O Ministério da Saúde (MS) ressalta a necessidade de se trabalhar para aumentar o acesso ao oxigênio medicinal.

“O oxigênio sempre foi um remédio essencial e a covid-19 está mostrando ao mundo o quanto ele é importante”, disse o ministério.

De acordo com o Ministério da Saúde, em todo o mundo a covid-19 pode provocar um aumento das mortes por pneumonia por “todas as causas” em mais de 75%.

“Estima-se que as interrupções do atendimento nos serviços de saúde, por conta da pandemia, possam causar até 2,3 milhões mortes infantis adicionais – 35% delas por pneumonia e sepse neonatal”, alerta o ministério.

porCIPERJ

No fim dos anos 1980, resistência a vacinas levou à criação do Zé Gotinha

fonte: Folha de SP

Quem tem mais de 30 anos certamente se lembra de um simpático boneco que começou a aparecer nas campanhas de vacinação do Brasil no final da década de 1980. Zé Gotinha foi criado pelo artista plástico Darlan Rosa, 73, a pedido do Ministério da Saúde e com apoio do Unicef (braço da ONU para infância) para reduzir a resistência da população a imunizações.

Funcionou. O personagem-símbolo do compromisso assumido pelo Brasil de erradicar a poliomielite até 1990 diminuiu o medo das crianças, inspirou a confiança dos pais e ajudou a elevar as taxas de vacinação.

Hoje, 36 anos depois, o personagem volta e meia aparece nas redes sociais do ministério, mas seu papel parece reduzido. Não é só isso que mudou: se antes o governo pensava em diferentes formas de aumentar a adesão à imunização e presidentes da República circulavam ao lado do Zé Gotinha em campanhas nacionais, hoje é o próprio governo federal que levanta dúvidas sobre a segurança de vacinas que estão sendo desenvolvidas contra o coronavírus.

“O Zé Gotinha tinha a emoção. Falta isso na comunicação da saúde hoje, tocar no coração, cativar as pessoas. As peças produzidas de conteúdo falso na internet conseguem seguidores porque falam aquilo que preocupa as pessoas. Precisamos recuperar a empatia das pessoas pelo Zé Gotinha”, afirma Isabella Ballalai, pediatra e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim).

A médica diz que ouve de muitos colegas que o ministério não faz mais campanhas com o personagem. “Eu me canso de ouvir que o ministério parou de fazer campanha. O ministério faz campanha todo ano, mas quem está vendo? Qual foi a empatia dessa campanha agora? A última teve adesão de 40% e precisou ser prorrogada em diversos estados. A comunicação está errada.”

Renato Kfouri, pediatra e infectologista, conta que quem era médico pediatra ou infectologista nos anos 1980 e 1990 se lembra do impacto que teve o Zé Gotinha na adesão às campanhas de vacinação e no aumento da cobertura vacinal. “Até hoje em eventos científicos os médicos mais antigos se emocionam quando o Zé Gotinha está presente. Ele continua sendo um personagem do imaginário coletivo.”

O sucesso da campanha foi, em parte, pelo fato de a via de administração ser oral. A associação de um simpático personagem com uma vacina que não doía trazia conforto. Seu nome foi escolhido em concurso popular, mais um símbolo da conexão do Ministério da Saúde com a população.

A vacina formulada com o vírus da pólio atenuado protegia contra dois tipos do patógeno selvagem das três formas conhecidas. Hoje, a imunização é feita com uma dose aos dois meses de idade, da forma trivalente (feita com vírus inativado), e depois duas doses aos 15 meses e aos quatro anos com a vacina oral, bivalente.

A forma selvagem da poliomielite foi erradicada no Brasil em 1989, embora alguns casos tenham ainda surgido ao longo da década de 1990, segundo o pediatra e professor associado da Faculdade de Medicina da USP Gabriel Oselka.

“É interessante ver como mesmo em peças de campanhas de vacinas que são aplicadas via intramuscular [como é a tríplice viral, que protege contra sarampo, rubéola e caxumba] o ministério usa a ‘gotinha’”, diz Kfouri.

A ação publicitária com o Zé Gotinha também levou à criação dos dias “D” de campanha de vacinação contra a polioemielite existentes até hoje, com a presença do ilustre convidado.

Oselka lembra ainda que o Programa Nacional de Imunizações (PNI) é o maior e melhor instrumento de saúde pública do mundo.

“Eu atendia na enfermaria crianças com sarampo ou com sequelas de sarampo, de poliomielite, e me lembro como era terrível. O sucesso da grande diminuição das doenças, que são infecciosas e causadas por vírus, foram as vacinas”, diz. “O PNI é o programa de maior sucesso do Ministério da Saúde porque ele se mantém, desde as quatro décadas de sua criação, com uma qualidade muito elevada.”

O Zé Gotinha já teve outros momentos de baixa. Darlan Rosa afirmou à Folha em 2018 que, quando criou o personagem, houve resistência por parte do ministério por “tratar uma coisa tão séria com fantasia”. Uma campanha em que ele aparece dançando ao lado de um carro em movimento e reproduções de gosto duvidoso do personagem pelo país afora também ciscaram a imagem do garoto-propaganda.

Para Ballalai, a baixa adesão às campanhas e a queda na cobertura vacinal são reflexo de uma falsa sensação de segurança, uma vez que as principais doenças foram praticamente eliminadas com as vacinas no passado, e da dificuldade de acesso.

“Dizer que o brasileiro não acredita em vacina é falso. O brasileiro não só acredita em vacina como ele quer vacina. Em 2016, quando houve um surto de H1N1, tinha fila de cinco horas em clínicas particulares de vacina contra influenza. O problema é que as vacinas de rotina não têm o apelo do perigo”, diz Ballalai.

Para ela, o governo deveria promover mais campanhas na televisão, que é ainda a maior fonte de informação para a maioria dos brasileiros. O baixo investimento em conteúdo publicitário e a descentralização das campanhas de vacinação —cada município organiza o seu próprio calendário de vacinação— tornam essa comunicação mais difícil.

Já Kfouri acredita que uma forte presença nas redes sociais, onde estão hoje os pais que mais precisam de informação sobre vacinação e também onde atuam mais fortemente os movimentos antivacina, teria um efeito melhor.

“Se o governo não atuar nas redes, alguém vai atuar. O espaço fica livre para ser ocupado, seja por fontes confiáveis ou por oportunistas.”

A queda na cobertura vacinal pode trazer doenças antes controladas à tona. Em 2019, a cobertura vacinal nacional da poliomielite foi de 95%, mas a homogeneidade —isto é, quanto cada estado ou município conseguiu cobrir de seu território com a vacina— era só de 21%.

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Estudo mostra que atraso de um mês no tratamento de câncer eleva risco de morte em 10%

fonte: Folha de SP

Um novo estudo avaliou o impacto de uma demora de quatro semanas no início do tratamento de câncer e estimou que esse atraso eleva em 10% o risco de morte.

O valor é variável de acordo com o tipo de tumor e a terapia indicada, mas os resultados deixam claro como a interrupção dos cuidados médicos contra o câncer durante a pandemia pode levar a um aumento de mortalidade nos próximos meses.

Os dados foram publicados na edição do dia 5 de novembro da revista científica BMJ (British Medical Journal) e são resultado de uma meta-análise (análise dos dados de diversas pesquisas já publicadas) de mais de 1,2 milhão de pacientes com câncer no Canadá e no Reino Unido durante os meses de janeiro a abril de 2020.

Para avaliar qual o verdadeiro impacto do atraso nos tratamentos de câncer durante a pandemia, os pesquisadores avaliaram um conjunto de 34 estudos com 17 tipos de indicações para câncer distinta. Cada indicação representa um conjunto de tipo de câncer e terapia recomendada.

Os tipos de tumor avaliados foram bexiga, mama, cólon (intestino), reto, pulmão, colo do útero (cervical) e cabeça e pescoço. Juntos, esses tipos de tumores representam 44% de toda a incidência global de câncer.

Os diferentes tipos de tratamento analisados incluíam cirurgia (mais indicada para tratamento inicial), radioterapia, quimioterapia e terapia adjuvante (químio, rádio ou imunoterapia administradas antes do tratamento cirúrgico).

Em 13 dos 17 tipos de indicações, os pesquisadores encontraram uma forte correlação entre o atraso no tratamento e o aumento no risco de mortalidade (com intervalo de confiança de 95%).

Na média, um atraso de quatro semanas na cirurgia para remoção de tumores pode aumentar o risco de morte entre 6% (câncer de cabeça e pescoço) a 8% (câncer de mama). Dessa forma, um atraso de oito semanas na cirurgia de câncer de mama eleva o risco de morte em 17%, e de 12 semanas, em até 26%.

Já adiar as terapias apresentou efeitos no risco de mortalidade variados segundo os tipos de câncer. Para câncer de bexiga, de mama e colorretal, a associação entre tempo de atraso no tratamento e risco relativo foi positiva (ou seja, há uma forte correlação entre o tempo de espera e o aumento da mortalidade), variando de 1% a 26%.

No caso da radioterapia para tratamento de câncer de cabeça e pescoço, o risco encontrado foi de 9% para cada quatro semanas de atraso. Não houve resultado de efeito no atraso da radioterapia para tratamento de câncer de mama, uma vez que o único artigo incluído que analisou esse tipo de tratamento não mediu risco de morte.

Para os cânceres de pulmão, bexiga e colo de útero com tratamento adjuvante (associação de quimioterapia e cirurgia), no entanto, não foi encontrada uma associação estatisticamente significativa.

Timothy Hanna, oncologista do Instituto de Pesquisa em Câncer da Queen’s University (Canadá) e principal autor do estudo, disse à Folha que se impressionou ao ver que os resultados eram consistentes mesmo quando foram avaliados diferentes tipos de tratamentos.

“Eu fiquei surpreso em ver como os números eram claros para demonstrar associação [entre tempo de atraso e risco de morte] mesmo no universo variado de tipos de câncer e de tratamentos. Há diferenças na magnitude desses efeitos, como era esperado, mas os resultados para cirurgia, por exemplo, são consistentes. Isso foi impressionante.”

Os dados do aumento de risco de mortalidade pelo atraso nas cirurgias mostram como pode surgir no futuro próximo um excesso de mortes que poderiam ser evitadas.

De acordo com um estudo incluído na pesquisa, um atraso de 12 semanas na cirurgia de câncer de mama (presumindo que esse seja o tratamento inicial) em todos os pacientes por um ano pode levar a um excesso de 1.400 mortes no Reino Unido, 6.100 nos Estados Unidos, 700 no Canadá e 500 na Austrália.

Hanna explica que a ideia do trabalho veio de uma necessidade de quantificar de maneira rigorosa como o atraso nos tratamentos pode afetar os pacientes de câncer.

“Todo o mundo sabia que a pandemia ia ter um impacto nos tratamentos médicos, não só de câncer, mas não existia um número, uma estimativa global desse impacto. Nós decidimos modelar esse atraso para ajudar também as políticas de saúde nos centros de tratamento. Quais tratamentos podem ser atrasados com menor risco?”

A pesquisa não avaliou, no entanto, o impacto nos exames de rotina e no diagnóstico de câncer, embora outros estudos já tenham demonstrado como a pandemia os afetou.

O oncologista diz que que espera que os seus resultados possam ser utilizados para guiar políticas de saúde pública no mundo.

“Gasta-se no mundo todo muito dinheiro em tratamentos inovadores para câncer que às vezes elevam o tempo de vida em poucos meses. Nossos dados, embora sejam restritos aos sete tipos de câncer avaliados, apontam para um efeito claro entre atraso no tratamento e custo de novas vidas.”

Hanna frisa: “Não estamos sugerindo tratar pacientes que não estejam aptos para tal, mas, sim, dar condições para os centros hospitalares tomarem decisões sobre quais tratamentos e pacientes devem ser priorizados”.

A pesquisa contou com a participação de médicos e especialistas do Instituto de Pesquisa em Câncer da Queen’s University, em Kingston (Canadá), do Departamento de Oncologia Clínica do NHS (Sistema Nacional de Saúde) do Reino Unido, da Universidade King’s College de Londres e da Escola de Londres de Higiene e Medicina Tropical.

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Soperj realiza webinar nesta terça-feira sobre Síndrome Inflamatória Multissistêmica

A Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj) organiza nesta terça-feira, dia 17, às 19h30, webinar abordando Síndrome Inflamatória Multissistêmica associada à covid-19.

O evento gratuito será transmitido pela plataforma Teams.

Não perca!

ACESSE O EVENTO