fonte: Folha de SP

por Esper Kallás Médico infectologista, é professor titular do departamento de moléstias infecciosas e parasitárias da Faculdade de Medicina da USP e pesquisador na mesma universidade

Nas últimas semanas recebemos uma avalanche de notícias sobre a identificação de variantes do novo coronavírus. No começo, parecia que as mudanças genéticas do vírus não eram relevantes, mas essa percepção foi revista diante das recentes notícias da capacidade de adaptação do vírus.

Foram identificadas variantes em diferentes países: no Reino Unido apareceu a B.1.1.7, na África do Sul a B.1.351 e em Manaus temos a P1, também conhecidas como 501Y.V1, 501Y.V2 e 501Y.V3, respectivamente. As siglas representam as mudanças nas espículas virais.

Embora sejam mudanças discretas, têm repercussão em seu comportamento, levando ao domínio das variantes mutantes ao longo do tempo. Isto é, a variante mutante consegue ser mais transmitida e, assim, dominou a onda pandêmica no local.

Algo chama a atenção quando comparamos as mutações das diferentes variantes: elas parecem acontecer em pontos semelhantes no vírus. É notável que as variantes sul-africana e brasileira tenham algumas mutações em comum.

Este fenômeno é comum na natureza e é chamado de evolução convergente. As asas de insetos, aves e morcegos trilharam caminhos distintos na sua evolução, mas sua estrutura é comparável e, em alguns casos, bastante semelhante. A evolução ocorreu para atingir um objetivo que, nesse caso, foi o de tornar a espécie apta a voar.

Então, por que se dão as mudanças no novo coronavírus? O vírus parece buscar um caminho comum que resulte em maior capacidade de multiplicação e transmissão. Maior agressividade até poderia ocorrer, como um efeito colateral da mutação, mas decerto não seria interessante exterminar aquele que permite sua sobrevivência.

Tudo isso é importante para entender o que está acontecendo com a pandemia. O aumento de casos na Inglaterra, na África do Sul e em Manaus pode também decorrer do aparecimento das variantes mutantes, embora existam outras explicações para o que ocorreu nessas localidades, como o pouco controle de aglomerações e infraestrutura insuficiente.

Adiciona-se, assim, mais um ingrediente nas ações necessárias de enfrentamento da pandemia: a monitoração das sequências genéticas do novo coronavírus circulante.

Outras três questões práticas ainda não estão esclarecidas. A primeira é se haverá alguma variante capaz de provocar doença mais agressiva, causando aumento de mortalidade dos pacientes ou doença mais grave em jovens. Não há indícios claros de que alguma dessas mudanças tenha ocorrido.

A segunda é se haverá prejuízos à efetividade das vacinas. Até agora, a proteção induzida pela vacina da Pfizer não parece ter sido afetada pela variante do Reino Unido, mas foi observada uma discreta redução da proteção da vacina da Janssen para Covid-19, quando causada pela variante sul-africana.

Finalmente, promessas de tratamento do vírus com anticorpos monoclonais sofreram abalo. O produto da Eli Lilly teve seu efeito reduzido contra a variante da África do Sul, embora outros não pareçam ter sofrido este impacto.

A sobrevivência de seres menos complexos, como os vírus, depende de uma simples meta: infectar o maior número de hospedeiros, na maior extensão territorial possível. Humanos, seres bem mais complexos, têm sido capazes de intervir de formas criativas para contrabalançar as forças da natureza.

Nesse jogo, os humanos têm, até agora, sobrevivido. Mas à custa de muito suor.