Notas Oficiais

porCIPERJ

Nota técnica: redes sociais

Rio de Janeiro, 8 de janeiro de 2020.

A CIPERJ gostaria de se pronunciar publicamente a respeito de um problema que tem se tornado extremamente sério: o número enorme de “denúncias” em redes sociais contra médicos e reclamações quanto a prestações de serviço de saúde julgadas insatisfatórias ou inadequadas.

Apenas no último mês e apenas em atendimentos pediátricos que tiveram repercussão na grande mídia tivemos uma “denúncia de incompetência profissional” contra um cirurgião pediátrico paulista em um vídeo no Facebook no qual a acusação era absolutamente desprovida de fundamento,  um pediatra agredido fisicamente num serviço de emergência porque os familiares não concordaram com o diagnóstico clínico e uma acusação de negligência e abandono profissional em um paciente pediátrico em pós-operatório na rede pública do Rio de Janeiro, também sem fundamento (o paciente realmente apresentava uma complicação, desconforto e problemas clínicos secundários, mas estava atendido no tempo devido e tratado de forma tecnicamente correta), novamente no Facebook.

Entendemos que a disponibilidade de canais de comunicação reconstruiu as relações entre pessoas e entre pessoas e instituições, dando ao cidadão comum um espaço para manifestação de que não dispunha antes. De fato, as mídias sociais são um espaço democrático, aberto para todos. Mas, como toda forma de liberdade, é necessária responsabilidade como correspondência. Ter dados realistas e verdadeiros e pesar as consequências do que se diz (ou, modernamente, “se posta”) faz parte desta responsabilidade.

Também entendemos que pessoas sob stress tendam a usar canais de comunicação como oportunidade de desabafo e alívio de suas tensões. Inclusive porque estes canais são instantâneos e gratuitos, de forma que se pensa pouco antes de usá-los. Mas eles trazem consequências.

Estamos vendo assassinatos de reputações de serviços médicos e de pessoas todos os dias. Profissionais de saúde lidam com biologia e com a vida humana, que têm variações individuais e circunstanciais. A vida, a saúde e a integridade humanas são, infelizmente, finitas. Alguns insucessos e sofrimentos em tratamentos de saúde são inevitáveis, mesmo que a medicina tenha chegado a um nível enorme de sucesso. Mortes e sequelas não são necessariamente erros, embora estes ocorram: podem ser – e na maioria das vezes são – complicações ou desfechos esperados de situações de adoecimento. Retardos em atendimentos não são necessariamente defeitos do profissional. Podem ser escolhas, se um doente mais grave precisa de assistência. Podem ser causados pela disponibilidade de profissionais em número menor do que o necessário. Podem ser porque o profissional, humano que é, precisou ir ao banheiro. Ou comer, já que plantonistas não podem ficar 12 ou 24h sem comer ou ir ao banheiro. Muitas vezes o profissional que está usando o telefone “ao invés de atender” (e é acusado disto com fotos e vídeos em tempo real) está usando o telefone… para atender. Hoje em dia os celulares são usados para encontrar vagas, para consultar colegas, para checar doses de medicação.

O profissional que é acusado de forma leviana nas mídias sociais sofre pessoalmente, pode ser agredido, tem sua reputação profissional questionada, perde pacientes privados.

Isso não é ser justo, é ser leviano. Isso não é pedir justiça, é pedir linchamento público. Isso não é resolver o problema, é ameaçar e usar violência para resolver seu problema ou sua angústia.

Isso não vai ajudar a tratar de pacientes, simplesmente vai ajudar a aumentar o fosso que separa quem precisa e sofre de quem pretende e sabe ajudar.

Não vai criar melhores profissionais de saúde, vai afastar as pessoas responsáveis, sensíveis e sensatas das profissões de saúde.

Finalmente, já há vários exemplos de ações judiciais punindo acusações infundadas divulgadas em rede social que funcionem como assédio moral ou que causem prejuízo profissional ou pessoal. Estas coisas são crimes. E podem dar margem a indenizações custosas.

Precisamos pensar, como sociedade, se é isso o que queremos. Precisamos pensar, como pessoas, se é assim que vamos conseguir relações humanas melhores, mais segurança, mais assistência e uma sociedade melhor.

Nos parece que não é este o caminho.

porCIPERJ

Nota técnica: desabastecimento no SUS 3

Rio de Janeiro, 6 de dezembro de 2019.

Corroborando e comprovando a veracidade das duas notas técnicas emitidas pela CIPERJ em novembro e dezembro de 2019, com relação às dificuldades de trabalho no Rio de Janeiro, que somam atrasos em pagamentos de salários, excesso de demanda de trabalho e falta de insumos básicos, a unidade de emergência do hospital Albert Schweitzer fechou as portas para o atendimento ontem. Trata-se da única unidade de referência para cirurgia pediátrica emergencial no município do Rio de Janeiro. Os cirurgiões pediátricos lotados nesta unidade trabalham há dois meses sem pagamento de salários (os salários de outubro e novembro não haviam sido pagos até ontem).

A CIPERJ considera essencial que estes problemas sejam resolvidos e que a população, incluídos aqui os agentes de controle público, esteja ciente. É necessário registrar que os profissionais médicos e os cirurgiões pediátricos não são culpados, omissos ou descomprometidos e têm cumprido seus horários de trabalho apesar da demanda enorme de atendimento, das dificuldades extremas e da ausência do pagamento contratado pelo seu trabalho, em nome apenas do compromisso profissional e ético.

Associação de Cirurgia Pediátrica do Rio de Janeiro – CIPERJ

porCIPERJ

Nota técnica: desabastecimento de insumos básicos no SUS

Rio de Janeiro, 4 de dezembro de 2019

Em nome de seus associados a CIPERJ vem novamente a público comunicar a falta de insumos básicos que persiste na maioria dos hospitais da rede SUS no Rio de Janeiro, já que a situação denunciada, ao invés de ser corrigida, se agravou desde nossa última denúncia, em novembro de 2019. Tais problemas, atribuídos à falta de verba pelo esgotamento do orçamento anual de 2019, variam entre o desabastecimento agudo de material cirúrgico essencial e a falta de materiais específicos para cirurgia pediátrica, associados ao desabastecimento crônico de materiais de uso permanente. Os problemas afetam os hospitais das redes Municipal, Estadual e Federal, seja com gerência pública direta ou por operadoras terceirizadas (OS). Paralelamente, profissionais de saúde têm tido o pagamento de salários atrasados ou até não realizados, por alegação de problemas financeiros das OS conveniadas com os governos municipal e estadual do Rio. Até mesmo o suprimento de refeições aos profissionais plantonistas foi suspenso em algumas instituições, que alegaram a necessidade de priorizar o suprimento limitado que está disponível para os pacientes, conforme noticiado recentemente pela imprensa.

Esta situação impossibilita cirurgias eletivas e torna procedimentos emergenciais extremamente arriscados, uma vez que aqueles que não puderem ser adiados por risco iminente de vida ou sequelas irreversíveis exigirão improvisos ou escolhas de segunda linha, conforme a disponibilidade de material no local. Da mesma forma, as vagas para internações e transferências diminuíram ainda mais, uma vez que as instituições com restrições graves de insumos não podem aceitar novos pacientes se é impossível garantir a assistência plena necessária. Vários relatos de demora em transferências neonatais a partir de maternidades, com consequências graves, têm sido feitos à CIPERJ.

Estes problemas precisam ser resolvidos IMEDIATAMENTE: as pessoas morrem por falta de assistência a problemas emergenciais. A população, incluídos aqui os agentes de controle público, tem direito de ser informada. É nosso dever informá-los.

Precisamos registrar que omissão, descompromisso ou incapacidade técnica dos profissionais de saúde não são a causa dos problemas que estão acontecendo. É impossível fazer cirurgia usando apenas a voz e a boa vontade. Profissionais precisam de tranquilidade e equilíbrio emocional para trabalhar. Não é possível que um profissional substitua uma equipe inteira. Não é possível que um ser humano, que também é um profissional de saúde, veja pessoas sendo mortas por falta de recursos e não o sinta. Não é possível que este mesmo profissional esteja equilibrado sendo agredido fisicamente e acusado por problemas que não pode resolver. Não foi à toa que ontem o CREMERJ impetrou habeas corpus preventivo solicitando o reconhecimento judicial da ausência de culpa dos profissionais médicos do Rio nas consequências do caos que estamos vivendo (//www.cremerj.org.br/informes/exibe/4519).

Associação de Cirurgia Pediátrica do Estado do Rio de Janeiro – CIPERJ

porCIPERJ

Nota técnica: desabastecimento dos hospitais

Rio de Janeiro, 20 de novembro de 2019

Em nome de seus associados, a CIPERJ vem a público comunicar a falta de insumos básicos que afeta neste momento vários hospitais da rede SUS no Rio de Janeiro. Tais problemas variam entre o desabastecimento agudo de material cirúrgico essencial (escovas de antissepsia, canetas de eletrocautério, etc), desabastecimento agudo e crônico de materiais de consumo específico de uso em cirurgia pediátrica (cateteres venosos profundos, fios de sutura apropriados para cirurgia em crianças pequenas, etc) e desabastecimento crônico de materiais de uso permanente, em especial material apropriado para endoscopia urológica, cirurgia videolaparoscópica pediátrica e ultrasonógrafos para uso em tempo real em atos de inserção de cateteres venosos profundos (estes, por exemplo, constituem o estado da arte e possibilitam maior segurança e substituição de métodos de dissecção venosa por métodos de punção venosa com preservação do vaso afetado). Problemas têm sido verificados e denunciados à CIPERJ, em vários hospitais da rede, em graus e especificidades variáveis, afetando instituições federais, estaduais e municipais, seja com gerência pública direta ou por operadoras terceirizadas (OS). Há uma nítida piora dos problemas envolvendo materiais de consumo a partir de novembro de 2019.

Gostaríamos de destacar e tornar público que estas restrições têm obrigado várias instituições a adiar e cancelar procedimentos cirúrgicos ou, em situações de emergência extrema, a recorrer a manobras técnicas de segunda linha para resolver problemas clínicos.

Algumas implicações destes problemas são óbvias, como por exemplo, sobre as filas de espera. Outras são menos evidentes, e implicam, por exemplo, enormes coeficientes de estresse sobre profissionais e pacientes. Os níveis de esgotamento profissional (síndrome de burn-out) entre médicos são enormes neste momento, os níveis de suicídio entre profissionais, segundo algumas fontes, quintuplicaram nos últimos anos e as notícias de agressões contra profissionais de saúde proliferam largamente, inclusive na imprensa profissional. As taxas de complicações procedurais podem aumentar significativamente mesmo com a execução e indicação perfeitas de procedimentos, seja pelo uso emergencial necessário de materiais ou métodos de segunda linha ou pela espera significativamente aumentada para cirurgias.

A CIPERJ considera essencial que estes problemas sejam resolvidos e que a população, incluídos aqui os agentes de controle público, estejam cientes. É necessário registrar que os profissionais médicos e os cirurgiões pediátricos não são culpados, omissos ou descomprometidos. É impossível fazer cirurgia usando apenas a voz e a boa vontade.

Associação de Cirurgia Pediátrica do Rio de Janeiro – CIPERJ

porCIPERJ

Nota técnica: Torção de testículo

Rio de Janeiro, 05 de outubro de 2019.

NOTA TÉCNICA

Após reportagem recente na imprensa a respeito de um caso de perda de um testículo após um episódio de torção, a Sociedade de Cirurgia Pediátrica do Rio de Janeiro gostaria de se manifestar sobre o problema do tratamento em tempo hábil das torções de testículo. Nosso objetivo é de alertar quanto ao problema, seus desdobramentos em nosso meio e a necessidade de educar a comunidade em geral quanto ao nível de urgência envolvido.

Esta é uma doença que atinge predominantemente adolescentes (1:4000 homens < 25 anos). Manifesta-se como uma dor aguda e brusca, muito intensa, que afeta um dos testículos. O grande problema é que se atendida após um tempo maior do que seis horas desde o início do episódio de dor tem um risco muito grande de evoluir com retirada por cirurgia ou atrofia completa do órgão, que sofre necrose (morre por falta de irrigação sanguínea por um tempo prolongado).

Alguns problemas afetam o atendimento desta doença, a nível mundial. Dados recentes da Universidade do Texas mostram que em torno de 70% dos testículos foram salvos quando atendidos plenamente em menos de 12h, enquanto que a mesma fração se perdeu após este prazo, num cálculo aproximado (Chen et al, Testicular Atrophy Following Torsion in Pediatric Patients, Congresso Americano de Urologia Pediátrica, 2018).

O principal deles é a demora na demanda de atendimento, pelo paciente ou pelos pais. As pessoas de forma geral não sabem do risco envolvido ou da existência desta doença e tentam, antes de buscar atendimento emergencial, controlar o episódio com tratamentos domésticos. Também é costume atribuir os sintomas a algum trauma testicular, relativamente frequente entre adolescentes ativos e praticantes de esportes de contato ou ciclismo, o que justifica a seus olhos os acontecimentos e reforça a busca tardia de atendimento. Adolescentes, por pudor, frequentemente retardam comunicar suas queixas aos responsáveis.

 

QUALQUER EPISÓDIO DE DOR TESTICULAR AGUDA PRECISA DE ATENDIMENTO MÉDICO IMEDIATO, e é essencial que pais, professores e crianças/adolescentes sejam educados a respeito.

Outro problema é que os sintomas de torção testicular devem ser diferenciados de outras doenças, principalmente de inflamações do testículo (orquites), torções da hidátide testicular e traumas efetivos do testículo. O diagnóstico diferencial é difícil e os exames complementares têm um índice alto de falhas, além de retardar o diagnóstico em muitos casos. EM CASOS DE SUSPEITA BEM FUNDAMENTADA DE TORÇÃO TESTICULAR ESTÁ INDICADA CIRURGIA EXPLORATÓRIA NUM PRAZO MÁXIMO DE SEIS HORAS, E ISTO INDEPENDE DE EXAMES COMPLEMENTARES PARA COMPROVAR O DIAGNÓSTICO: com raras exceções, o risco da cirurgia é menor do que o risco de uma espera prolongada e não se deve esperar por outros exames em casos com indicação clara.

Acentuamos que, na saúde pública/SUS, retardos no fluxo de pacientes entre unidades primárias de atendimento e unidades capazes de prover o tratamento cirúrgico são extremamente relevantes na piora dos resultados. Infelizmente, considerando os sistemas atuais de regulação, é muito raro que o paciente seja atendido numa unidade primária, receba o diagnóstico inicial, chegue à unidade de referência e seja operado num prazo de seis horas. Há entraves para o diagnóstico inicial, quando mecanismos de triagem retardam o atendimento e não há disponibilidade de profissionais treinados para este diagnóstico e há entraves para a transferência do paciente para cirurgia em tempo hábil. É imperativo que os gestores se conscientizem da necessidade de tratamento IMEDIATO desta entidade, que cursa com isquemia do testículo, da mesma forma que existem protocolos de atendimento imediato de episódios de isquemia cardíaca ou cerebral.

Finalmente, lembramos que nos episódios de torção testicular não é só a cirurgia do testículo que é importante: é essencial que o testículo que não foi afetado inicialmente pela doença seja fixado numa posição normal, porque o risco de torção posterior é alto. Isto é ainda mais fundamental se após o episódio de torção o paciente perde o órgão por retirada ou atrofia, já que um novo episódio protraído de torção significaria uma situação de anorquia (ausência de testículos), andropausa e infertilidade. Q

MENINO QUE TENHA SOFRIDO UMA TORÇÃO DE TESTÍCULO PRECISA TER O OUTRO TESTÍCULO FIXADO CIRURGICAMENTE, ASSIM QUE POSSÍVEL.

Associação de Cirurgia Pediátrica do Rio de Janeiro – CIPERJ

porCIPERJ

Nota oficial sobre matéria da revista Superinteressante que aborda “erro médico”

Rio de Janeiro, 30 de junho de 2018

A reportagem de capa da revista Superinteressante esta semana (edição 391) fala sobre “erro médico”. Trata-se de um problema sério que interessa a toda a sociedade, mas nos parece injusto e desnecessário representar a comunidade médica na capa da revista como víboras perigosas, venenosas, prestes a dar o bote sobre alguma vítima inocente. Não é, nem de longe, a verdade, embora seja um estereótipo fácil de apelo popular. Como já disse alguém, para toda questão difícil existe uma resposta fácil – e errada.

A imprensa é fundamental à liberdade democrática. Mas ela tem que ser justa e responsável, em troca de sua enorme projeção, capaz de determinar consequências impactantes na sociedade, embasar e estimular debates e formar opiniões.

Erro em saúde precisa ser discutido com extrema seriedade, sem que haja polarização ou intenção de demonizar o atendimento como algo venal que é indiferente à sorte dos pacientes. O atendimento médico da população é primordial e é fundamental que a relação de confiança entre profissionais e população seja mantida, ainda que também seja igualmente necessário a fiscalização e correção de problemas, a reabilitação e, em casos extremos, o afastamento de profissionais que sejam julgados perigosos no exercício de suas profissões.

A CIPERJ, através deste documento, gostaria de discutir alguns pontos que nos parecem relevantes.

  1.      A expressão “erro médico” não diz respeito a erro “do médico”. O conceito atual define “erro médico” como erro em sistemas de saúde. Que, inclusive, pode acontecer mediante ações de pessoal não médico. Erros administrativos ou medidas administrativas que não são razoáveis e implicam em mecanismos ilógicos ou impraticáveis nos algoritmos de trabalho são capazes de causar erros profissionais.

A indisponibilidade de materiais indispensáveis (e improvisos em situações de emergência), a indisponibilidade de pessoal no número ou com o treinamento necessários e a criação de um ambiente de trabalho insuportável, que leva os profissionais à síndrome de burn-out são diretamente relacionadas à ocorrência de erros. Até hoje as discussões sobre erros em saúde quase nunca consideram esta vertente, que para nós é essencial. Em especial, as tendências atuais de administração baseada em protocolos rígidos e a retirada progressiva de autonomia decisória dos profissionais de saúde têm criado uma situação paradoxal: aqueles que são responsabilizados pelos problemas ou por suas consequências não são as pessoas com gerência sobre as causas. A sobrecarga de trabalho, causada pelos novos estilos de administração de pessoal e economia de gastos impacta diretamente na qualidade dos atendimentos, seja pela sobrecarga direta ou pela necessidade de compensar salários insuficientes com múltipls empregos.

  1.      A idéia de que erros em saúde são frequentes é bastante antiga: este é um problema universal, não um problema do Brasil, conforme reconhecido pelo articulista. Tanto que há uma nova disciplina em saúde, genericamente chamada de Segurança do Paciente (//www20.anvisa.gov.br/segurancadopaciente/). As instituições de saúde e profissionais, portanto, não estão indiferentes a esta questão.

Uma outra questão quase nunca discutida,  aliás, é que, reconhecidamente, o profissional de saúde é a segunda vítima dos erros, especialmente os que levam a consequências trágicas. Erros são inescapáveis como eventualidade, embora possam e devam ser reduzidos a um mínimo. Os profissionais de saúde envolvidos não são, em geral, pessoas malignas, indiferentes ou absolutamente incompetentes, como alguns artigos e programas de TV pretendem insinuar.

Só que muitas vezes negligência acontece por defeito de percepção ligada a cansaço ou sobrecarga de trabalho. O articulista da revista, corretamente, cita isto, ao falar de ambulatórios com atendimentos múltiplos em minutos. O atual clima produtivista obriga a altas em prazos definidos e encaminhamentos rápidos: os pacientes têm que ser atendidos (despachados…) rapidamente, para dar lugar a novos casos e números bacanas para a gestão ou para os administradores de clínicas privadas. Nos preocupa extremamente os cálculos de trabalho em saúde baseados em teorias de engenharia de produção. Não é razoável esperar que o cirurgião que acabou um procedimento de alto risco e nível de concentração simplesmente “emende” num outro para produzir “x” cirurgias em “x” horas. A saturação emocional e intelectual que vem de concentrações e responsabilidades extremas simplesmente não permite este tipo de exigência, adequada a tarefas repetitivas num fordismo pouco humanitário.

Imperícia algumas vezes está ligada a tentativas desesperadas de profissionais não treinados em resolver problemas, geralmente emergenciais ou longamente negligenciados, porque não têm a retaguarda necessária de especialistas, indisponíveis ou não contratados (em geral por medida de economia de custos). A CIPERJ tem, por exemplo, discutido há um tempo extremamente longo a ausência de cirurgiões pediátricos contratados para atendimento emergencial nas maternidades municipais do Rio de Janeiro, sem nenhum sucesso até o momento. Médicos têm empatia pelos doentes sob risco iminente de vida ou sequelas graves ou aguardando infinitamente consultas e procedimentos, médicos querem ajudar, médicos querem resolver. Quando funciona bem está bem, fizemos o nosso trabalho e às vezes até ganhamos um agradecimento sincero dos pacientes (médico é bobo e adora isso). Quando algo funciona mal não é reconhecido o esforço, não são consideradas as condições de contorno.

Objetos “esquecidos” em cirurgia, exemplos típicos de negligência e imperícia usados repetitivamente pela imprensa leiga, especialmente aquela de má qualidade, têm ligação direta com cirurgias em ambientes precários com equipes desfalcadas e estafadas e indisponibilidade de instrumentadores cirúrgicos, o que é amplamente reconhecido na literatura a respeito, que é farta. Esta situação caracteriza tecnicamente negligência. Mas porque e como?

Profissionais de saúde são pessoas. Pessoas, mesmo as mais esforçadas, são suscetíveis a erros e limitações. Nos incomoda bastante que a imprensa frequentemente faça um desenho de algoz contra vítima em suas reportagens a respeito de erros em saúde. Esta não é a verdade: mesmo quando ocorre um erro, o mais das vezes o profissional relacionado está imediatamente mortificado por ele. É extremamente frequente ideação suicida e depressão clínica em cirurgiões envolvidos neste tipo de situação. Suicídios acontecem efetivamente. Vários abandonam a especialidade. Não somos máquinas, homens é que somos. E temos sido agredidos violentamente, de forma sistemática, nos fronts de atendimento do serviço público, eventualmente até de forma física. Compreendemos o stress constante de toda a vida, a luta do dia a dia, o medo das situações de doença, o desespero de não contar com um sistema de saúde público que seja satisfatório que os pacientes vivenciam. Mas bater no médico, atirar a cadeira no atendente de portaria, ameaçar o emergencista com armas de fogo não é a solução. E tudo isso, já suficientemente ruim, só piora com alguns setores de imprensa nos representando como danosos ou indiferentes, transformando a relação médico-paciente de uma relação de confiança numa de medo mútuo. Isso só piora representando médicos como serpentes.

A criação de uma contraposição entre “médicos que erram sistematicamente” e vítimas passivas e inocentes não é razoável e é extremamente perigosa.  A comunidade não vai confiar em quem precisa confiar, os médicos se sentem sob ataque e se fecham em copas. Na esteira deste conflito aberto, a transparência se esvai: se a questão é conduzida como culpa e castigo, erro e processo, erro e indenização, culpa e punição.

  1.      A questão da formação inadequada e desenfreada de novos médicos em escolas indevidamente equipadas, sem hospital universitário e por interesses exclusivamente financeiros, corretamente apontada pelo articulista, tem sido repetitivamente denunciada pelos conselhos médicos há anos, sem que os políticos, responsáveis pelas concessões, nos ouçam. Não temos controle sobre isso, e vai piorar, infelizmente, nos próximos anos. E, esquecido neste artigo, falamos inúmeras vezes, também, da admissão de médicos sem reconhecimento de competência através do programa Mais Médicos. O espírito da coisa não é resolver bem, é colocar gente no posto. O objetivo não é solucionar o problema do atendimento, é dizer que está sendo atendido. É substituir resultados por grandes números de registro, muito impressionantes neste país enorme, que não significam, necessariamente, soluções reais. Com a devida consideração a argumentos com traçado eminentemente político, de parte a parte, que tentam justificar o injustificável ou se motivam por questões de proteção de mercado não é, em nenhuma parte do mundo organizado, admissível que profissionais não ratificados atendam pacientes. Medicina é, e tem que ser, uma profissão seriamente regulamentada. Qualquer pessoa razoável teria medo de ser atendida por alguém que “possivelmente” tem uma formação médica correta.
  2.      Os estudiosos de erros em saúde têm declarado repetitivamente que a solução passa pela consciência e implantação de protocolos de segurança, mas, principalmente, pela relação médico-paciente bem estabelecida e pela transparência nas comunicações. Aqui temos, novamente, a teoria e a prática se confrontando. Novamente, o produtivismo nos prejudica. Não há mais tempo para conversar. Os pacientes têm que ter alta rapidamente. Os médicos são escolhidos através de listas de pessoas pelos usuários de planos de saúde. Os governantes geram atendimentos em saúde através de critérios geográficos de distribuição. A clássica comunicação entre colegas para encaminhar pacientes por critérios de excelência ou experiência profissional se tornou inefetiva no serviço público, porque sistemas reguladores não permitem esta autonomia. Como haver uma relação médico-paciente saudável e uma distribuição de pacientes conforme a capacitação e experiência de profissionais e serviços desta forma? Medicina jamais será possível com qualidade em linhas de produção. Fordismo, novamente, não nos serve. Por difícil e caro que isso possa parecer, atendimento de pacientes depende de uma relação entre indivíduos.
  3.      Existe muita confusão entre erros e complicações de procedimentos. Isso obviamente é fácil de entender. Pessoas sem formação médica e desprovidas de informação completa e isenta desconhecem certos detalhes técnicos das situações e podem avaliar problemas de forma precipitada. Isso vem sendo resolvido através dos consentimentos informados, mas não é possível tornar este entendimento exaustivo, por motivos óbvios: o consentimento informado não transforma alguém em médico instantaneamente, capaz de conhecer todos os detalhes e nuances de alguma situação. Um outro motivo, também plenamente compreensível, é a necessidade de justificar de forma pragmática algo inaceitável do ponto de vista existencial, como a morte de um ente querido, uma lesão permanente ou a quebra de uma expectativa de resultados, muito comum em cirurgias plásticas. Usando um exemplo da própria reportagem, a inserção de uma sonda gástrica pode causar perfuração de faringe ou esôfago e chegar à pleura. Raro, mas possível. Neste caso pode não ser um erro, mas uma complicação de um procedimento. Como ilustração, perfuração do estômago por cateteres é uma das causas mais frequentes de grandes pneumoperitônios em prematuros. Sequelas não são necessariamente resultado de erros. Podem ser efeitos colaterais de tratamentos, complicações.

Existem limites para a Medicina. Mesmo que as pessoas não acreditem mais nisso, quando vêem tantos progressos e bons resultados, existem mortes e sequelas, ainda. Fazemos mais e melhor, mas não podemos tudo (acho que jamais poderemos). Nenhum medicamento é isento de efeitos colaterais. Nenhuma cirurgia pode ser feita sem que o paciente tenha seus órgãos agredidos. A opinião pessoal do autor do texto da Superinteressante sugere uma condenação previa e genérica do médico, que em nada contribui para a melhoria dos serviços de saúde e insufla a população para a judicialização de qualquer problema em saúde.

Muitos dos inquéritos em conselhos profissionais não condenam não por corporativismo, como frequentemente se diz, mas simplesmente porque muitos danos sofridos pelos pacientes são complicações, não consequências de erro. Se forem consultados os arquivos dos conselhos profissionais, há justificativas formais para todos os arquivamentos ou resultados favoráveis. Não é verdade, como é dito no início da reportagem, que fraudes, corporativismo desonesto ou omissões propositais justifiquem a resolução da maioria destes conflitos.

Erros em saúde devem ser discutidos. Sem sensacionalismo, mesmo admitindo que é um tema muito sensível, que fala muito às emoções. Mesmo admitindo que erro em saúde, por implicar consequências imediatas sobre a vida, é extremamente impactante, até mais do que os erros de construções de pontes e ciclovias, que também matam gente, mas são discutidos de forma muito menos personalista. Erros de engenharia não têm rosto, erros em saúde têm o rosto de alguém, em geral um médico. Não podemos, não devemos, cair na vala comum de discutir erros em saúde como profissionais contra pacientes. Os profissionais de saúde não são os inimigos a ser combatidos.

Diretoria da CIPERJ

porCIPERJ

Nota oficial

A CIPERJ vêm a público protestar enfaticamente contra a acusação de nosso Ministro da Saúde, Sr. Ricardo Barros, com relação à colega oncologista pediátrica, Dra. Silvia Brandalise, presidente do centro Boldrini de oncologia pediátrica, em Campinas, um serviço de referência regional conhecido por sua excelência, assim como Dra. Silvia, que construiu uma longa carreira baseada em sua competência, dedicação e seriedade.

O Sr. Ricardo Barros afirmou publicamente que nossa colega tem interesses escusos no bloqueio da compra da asparaginase chinesa e que assusta desnecessariamente os pacientes, causando angústia indevida às famílias.

Esta luta é sempre a mesma: um médico arriscando publicamente sua integridade pessoal, sua segurança e sua paz para defender seu trabalho e seu paciente. Sabemos que isto é parte do nosso trabalho, da nossa formação e da nossa vocação: somos advogados de nossos pacientes, inclusive de forma reconhecida: advocacia dos pacientes é um dos pilares da formação médica para a Associação Médica Canadense, por exemplo. Sabemos que a justiça brasileira já concordou formalmente com os argumentos de nossa colega, determinando a suspensão do uso do medicamento chinês no Brasil, o que nos parece importante para demonstrar que não se trata de uma argumentação pessoal sem substância de nossa colega.

Esperamos que a justiça possa demonstrar, mais uma vez que, mais uma vez, nós e os pacientes estamos sendo vitimados por declarações inconsequentes e levianas sem base técnica, ditadas por um ministro que não tem os requisitos técnicos necessários para avaliar problemas clínicos ou farmacêuticos. Compatíveis com o Ministério da Saúde fazer parte dos detestáveis leilões políticos de poder em entidades públicas que deviam se dedicar ao bem-estar do povo brasileiro.

porCIPERJ

Nota oficial: carta aberta a Rede Globo

Caros diretores e atores:

Em nome da CIPERJ (Associação de Cirurgia Pediátrica do Estado do Rio de Janeiro) gostaríamos, antes de mais nada, parabenizá-los e, porque não, agradecer-lhes, pela série SOB PRESSÃO. É um alívio ver uma série televisiva feita com tanto cuidado e com atores de tanta qualidade mostrando de forma um pouco mais justa a realidade dos médicos trabalhando nos serviços de emergência do Rio de Janeiro.

Nós, médicos, estávamos precisando disso, de uma chance da comunidade refletir sobre as nossas dificuldades, de uma chance de fazer as pessoas nos verem como gente trabalhando sob uma responsabilidade enorme e em condições de trabalho extremamente difíceis.

Gostaríamos de argumentar a respeito de um diálogo entre dois dos personagens em um dos episódios. Nesta cena o cirurgião-chefe designa uma cirurgia de emergência numa criança baleada a um cirurgião mais novo. Este diz, inseguro, que nunca operou crianças antes. A resposta que ele recebe e que “é menor, mas igual”. Não entramos no mérito da situação no roteiro: em um momento de urgência absoluta qualquer paciente tem que ser atendido por aquele profissional que apresentar melhor treinamento para tal, e naquela situação estava absolutamente correto que a criança fosse operada por um cirurgião não-especialista. No entanto, e essencial para a CIPERJ mostrar que crianças não são “menores mais iguais”. Embora a anatomia seja, claro, a mesma, as respostas orgânicas a cirurgia não o são. A imaturidade fisiológica e a vigência de um processo de crescimento exigem conhecimentos específicos do profissional que opera pacientes pediátricos. Só como um exemplo, suturas em crianças exigem técnicas especiais, porque materiais sintéticos não crescem a medida que a criança cresce. Por causa disso, existem especialistas (cirurgiões pediátricos) que têm 3 anos de treinamento além do treinamento de um cirurgião geral para se tornarem aptos a tratarem doenças cirúrgicas em crianças.

Crianças não são adultos pequenos.

Sabemos que a dramaturgia tem suas próprias liberdades, mas para nós é muito importante reconhecer e reafirmar a especificidade do que fazemos.

Grande abraço

DIRETORIA CIPERJ

RESPOSTA DA REDE GLOBO

Ciperj,

Agradecemos sua mensagem e informamos que suas considerações serão encaminhadas à equipe da novela.

Ressaltamos que  novelas são obras de ficção, sem compromisso com a realidade. A Rede Globo não interfere no trabalho dos autores, nem orienta o conteúdo de suas obras. Como era de se esperar numa sociedade livre e numa empresa com nossa visibilidade, eles têm liberdade de criar e dar rumo aos seus personagens conforme sua vontade.

Cordialmente,

Globo.